Deus: um delírio?

Muito já foi escrito sobre o livro Deus, um de delírio, de Richard Dawkins.1 É uma obra instigante. Boa parte do esforço do autor consiste em provar a inexistência de Deus. Quem ele deseja convencer?2 O crente, e nem me refiro ao tipo fanático, dificilmente o lerá. O agnóstico será confrontado com a exigência do ateísmo. De que adianta gastar tanta energia? Deus existe, simplesmente porque é aceito pela maioria esmagadora. Ainda que este ou aquele indivíduo, em menor ou maior intensidade, negue sua existência, Ele permanece presente no imaginário social e como referência – até mesmo para os ateus.

A questão não se resume ao Deus da tradição judaico-cristã e islâmica que os homens aprenderam a crer desde os tempos remotos. A era do monoteísmo foi precedida pelo politeísmo e isto significa que os homens, antes e depois de Javé, precisam de deuses. Por que? A necessidade de cultuar divindades é tão forte que mesmo quando combatem a religião em nome das luzes, a substituem pelo culto profano à Deusa Razão. Será que as ideologias também não representam uma forma religiosa? O louvor exagerado à ciência também não resultou num certo fanatismo religioso às avessas?
O autor substitui a crença em Deus pelo pensamento de Charles Darwin e, assim, repõe o dualismo entre fé e ciência. Ele tem o direito de afirmar a teoria evolucionista, combater o “criacionismo” e o fundamentalismo religioso e defender veemente o ateísmo. E ainda bem que vivemos numa época em que livros como esse não são queimados em fogueiras, nem os seus autores. A crítica à religião, inclusive ao que é considerado positivo nela, também expressa uma forma de intolerância, só que “científica”. O autor afirma que a defesa apaixonada do darwinismo e da ciência nada tem a ver com a irracionalidade religiosa, já que, diferentemente desta, seu fundamento é a evidência, a comprovação científica e a aceitação da dúvida. Ele ele desconsidera, porém, que a redução da questão à crença ou não em Deus, à aceitação ou não do evolucionismo, não esgota as possibilidades. Fica a impressão de que ele descarta um fator fundamental: que a identidade religiosa é muito importante na vida das pessoas, para além do dualismo religião versus ciência.
O humano é um ser racional, mas também um ser de desejo e imaginação. É um ser cultural que cria símbolos, referência para a sua vida e o ser no mundo. O homem, portanto, nao é apenas ser racional, nem se reduz à vida biológica. Ele sente e precisa por ordem no caos. A capacidade de desejar e imaginar o ajuda a exorcizar os medos e a angústia inerente ao ser. A imaginação que cria símbolos e, portanto a religião, é uma resposta às necessidades humanas tão legítima quanto a ciência. Se a religiaõ produz monstros, a razão científica também.
A imaginação humana cria entidades religiosas que se concretizam na experiência vivida. Se é um delírio, é uma necessidade humana. Para o descrente é dificil compreender o significado deste ato, mas é através dele que o humano dá significado à existência, e não importa o que os cientistas e os seus livros afirmem.

__________
1DAWKINS, Richard. Deus, um delírio. São Paulo: Companhia das Letras, 2006.
2No prefácio ele responde essa questão: “Suspeito — quer dizer, tenho certeza — que há muita gente por aí que foi criada dentro de uma ou outra religião e ou está infeliz com ela, ou não acredita nela, ou está preocupada com tudo de mau que tem sido feito em seu nome; pessoas que sentem um vago desejo de abandonar a religião de seus pais e que gostariam de poder fazê-lo, mas simplesmente não percebem que deixar a religião é uma opção. Se você for uma delas, este livro é para você” (p. 23). O prefácio está disponível em: http://www.livrariacultura.com.br/imagem/capitulo/9018277.pdf

5 comentários sobre “Deus: um delírio?

  1. Excelente título o criado pelo autor: Deus é realmente um delírio. Impressinante pensar como que existem milhões delirando no mundo! Não se pode colocar crenças infundadas e ciência no mesmo nível assim tão facilmente. A crença em deus é uma espécie de infantilidade. Talvez devesse ser tratada com medicamentos,se não fosse tão útil politicamente. Certamente, a pletora dos que vivem do trabalho alheio a custa de pregarem a existência de deus não tem interesse que tal delírio seja curado.

    • Renato, talvez, você não tenha compreendido a importância da fé judaico-cristã. Ora, se formos parar para raciocinar será que o cristianismo não nos trouxe nenhuma contribuição? Será que Santo Agostinho, São Tomás de Aquino, não são importantes?

  2. Professor, o que tenho a dizer, senão elogia-lo pelo belíssimo texto. Revela sua razão ciêntifica e ao mesmo tempo seu respeito pela questões que muitos cientistas consideram irrelevantes. Parabens.Abraços,Silvio.

  3. Rapaz que livro interessante!! E desafiador, porque esse tema é sempre atual e polêmico!=~

  4. Ozaí, parabéns pelos lúcidos comentários.Diante da Deusa Razão, já denunciada por você, anotamos as palavras de João Timponi de Moura, quando nos alerta:”…quando elegemos a razão como principal instrumento para investigarmos até a nósmesmos, perdemos contato com o mundo incomensurável da nossa sabedoria inconsciente, onde moramos deuses e os heróis”. Richard Dawkins e outros céticos, obviamente não estão preocupados com a importância dos mitos, deuses e heróis e acabam por criar a perspectiva de um mundo árido, ao desprezarem preciosos aspectos da vida.Por fim, não me canso de apreciar o deísmo e a conseqüente fé de um Cartola, por exemplo, fé espontânea e viva, traduzida em pura poesia, que transcende certamente estas nossas discussões… Ouçamos Cartola! Abraços

Comente!

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s