Anotações do cotidiano

O senso comum

Por que os intelectuais, em geral, são tão reticentes ao senso comum: a cultura popular, a religiosidade e linguagem não formal, etc.? Há até mesmo os que têm dificuldades de se relacionar com as pessoas comuns, isto é, com os simples mortais que não freqüentaram os bancos universitários. Suas conversas corriqueiras, quase que crônicas da vida, até irritam alguns dos intelectualizados. Outras vezes, o intelectualismo nos torna chatos e incapazes de dialogar minimante com as pessoas comuns sobre as coisas mais simples da vida. Em geral, consideramos que seus assuntos são desimportantes, supérfluos e perda de tempo. Esta resistência ao que consideramos senso comum, conhecimento não-científico e, portanto, desqualificado, é tão forte no meio acadêmico que até mesmo os discentes têm a expectativa do “discurso professoral”. A medida da inteligência passa a ser a inteligibilidade.

Críticas

Como docente estimulo a ruptura com o comportamento dúbio, entre a adulação e a hipocrisia da aceitação silenciosa. Sou favorável à formação crítica e contrário ao uso do poder professoral para controlar pensamentos e ações que contestam o campo acadêmico. Aliás, nas avaliações que solicito aos discentes, a crítica comum é que há liberdade em excesso, que não uso da autoridade como professor. Não compreendem que aposto na autonomia do educando, inspirado em autores como Paulo Freire e Maurício Tragtenberg. O costume de obedecer ou de ser tutelado leva à confusão entre autoridade e autoritarismo e demonstra imaturidade e o medo à liberdade.

Neutralidade axiológica

Não existe neutralidade axiológica sobre fatos que despertam paixões, amores e ódios. O intelectual íntegro oferece ao leitor as informações necessárias para que ele possa avaliar o texto que tem diante de si e as implicações ideológicas do mesmo. Leitor e autor não são neutros. O intelectual íntegro contribui para a reflexão do leitor se não desdenhar da inteligência deste apresentando um panfleto como se fosse uma obra de rigor cientifico. O intelectual que age de forma íntegra se expõe à crítica e, sobretudo, tem um olhar crítico sobre o seu objeto e o seu trabalho.

Insegurança

A insegurança acentuada indica problemas psicológicos, dificuldade de conviver socialmente e obscurece as potencialidades. Também alimenta a personalidade autoritária, a couraça necessária que esconde o ser inseguro. O indivíduo até reconhece a própria insegurança e procura a ajuda de amigos e/ou de profissionais, mas a personalidade autoritária recorre à arrogância e à prepotência. É um perigo para a sociedade.

Imagem e consumismo

Levanto e começo a rotina do dia. A água está quase fervendo e, então, vejo que acabou o café. Vou ao mercadinho, daqueles que me fazem lembrar a infância, quando a minha mãe mandava buscar mercadorias e a compra era anotada na caderneta. Primeiro, pego a ração do cachorro, afinal ele não sabe fazer compras. Depois, dirijo-me à prateleira onde espero encontrar o pó para o café. Há várias marcas com preços diferentes. Os pacotes são bonitos, material chamativo e de primeira qualidade. Vende-se não apenas o conteúdo, mas a sensação que a embalagem possa gerar. Vejo um que nem parece café, com embalagem transparente e produzido localmente. Observo a identificação do produto, comparo os preços. É mais barato. Penso em levá-lo, mas desconfio do preço e do produto. Afinal, como diz o dito popular “O barato sai caro”. Percebo até um certo sentimento de culpa. Será avareza? Decido e levo. Faço o café, tomo e me parece melhor do que a marca que costumo usar. Será que temos consciência do quanto a propaganda nos influencia?

8 comentários sobre “Anotações do cotidiano

  1. O senso comum é mal visto pelo pensamento cientificista, que entende ser ele baseado apenas na experiência cotidiana [empirismo], cuja tendência é a generalização, pre-conceitos, incapacidade de absorver a racionalidade científica e filosófica. Mas é preciso ser prudente, porque o senso comum também tem sua dimensão de “SABEDORIA POPULAR”, que que se constitui numa tradição da medicina popular chinesa e outras, da medicina das ervas, das rezas contra quebranto [funciona!], das superstições, etc. Então, é preciso distinguir ambas. Gramsci inicia a Introdução à Filosofia da Praxis, falando da “gente simples”, que “todo homem é filósofo” desde que pense sobre sua realidade; Boaventura Sousa Santos organizou uma obra com vários autores que trata do “Conhecimento Prudente, para uma vida decente”; ele advoga que a ciência tenderá “sensocomunicar”. Ou seja, o conhecimento científico também vai se tornando senso comum, isto é, vai sendo absorvido pela população. Mesmo assim, ainda falamos que o “sol nasce” no leste e se põe “no oeste”; que o céu é azul…e assim por diante.
    Francisco Pucci, acima, já mencionou Pierre Bourdieu, que realiza a crítica ao “homo acadêmicus”, critica os nossos hábitos de professor universitário geralmente distante dos costumes populares, logo, tb distante do olhar de senso comum. Nossos hábitos, linguagem endógena, atitude, produz um professor-pesquisador resistente aos costumes do povo, para o bem e para o mal. Mas, por que eu devo gostar da música “ruim” que o povo gosta? Por que eu devo ser crente ingênuo, generalista, raso nas conversas? Por que eu devo ser popularesco, apenas para fazer de conta que nego meus hábitos de professor universitário? Ora, por que não ser autêntico!!! Por que ser hipócrita? Penso que o professor deve sustentar o conhecimento sistemático, sim, e transmitir este aos alunos, conduzindo-o com crítica e autocrítica, do contrário, para que serve transmitir ou que já foi transmitido e aceito pelo senso comum?? Mas, concordo que o professor de “conhecimento” deve se esforçar para ser tb um professor de “sabedoria”, que sabe equilibrar e contextualizar todos os conhecimentos disponíveis, e, sobretudo, que sabe viver – ou existir – com tais conhecimento para a vida prática. Nós professores vivemos num mundo distante da vida prática, e isso é péssimo marketing da docência, desde Tales de Mileto, que recebeu risada da escrava pq vendo as estrelas caiu num buraco…Céus!!!

  2. Ozai,ola…A sua reflexao quanto ao sentimento de culpa me chamou a provocacao de um novo olhar sobre a situacao comum e frequente que vivenciamos.Nao seria inerente das impossibilidaes reais ante as ideais, constrangimento este ,oriundo dos salarios ou riqueza pessoal que temos na sociedade capitalista …….as nossas escolhas …as duvidas, osdilemas ou escolhas satisfatorias,mas nao realizadoras?O importante ,e a diluicao da culpa …vc. tem paladar,bom ,gosto…quer qualidade, mas a que preco?Voce racionaliza o dinheiro e o seu bom paladar em detrimento de outros consumos mais necessarios .trata-se de uma escolha ..pessoal ou social? claro que social ! um abraco e obrigada pela minha postagem,parabens!

  3. Na universidade onde estudo Letras (UFC) está repleto de professores inacessíveis aos “pobres mortais”…

  4. Ozaí, belíssimas reflexões. Creio que elas encontrem eco em vários autores (Gramsci, Weber, Mário de Andrade, entre outros). Interessante foi a forma como abordou o assunto: leve, ponderada e atrativa. Parabéns! Abraços e boa semana! Roberto.

  5. Seu (pertinente) comentário já foi bem discutido por Pierre Bourdieu ao demonstrar que em cada “Campus” há uma economia própria, com seu capital e seu jogo político e econômico. Na Psicologia, há uma corrente atualíssima que vem da Austrália e se afirma cada vez mais, a Prática Narrativa, que leva em conta (e prioritariamente) a cultura e o discurso popular na terapia. Parabéns pelos comentários. Um abraço. Francisco Pucci.

  6. Ola, Ozai, fui lendo a historia do café e acompanhando seus passos no mercadinho e vivendo o suspense da escolha do produto. Fiquei feliz e aliviada com o final, também feliz. Afinal, nossa dimensao consumidora é uma parte importante do nosso cotidiano, mesmo que seja anti-. Anti-consumista, anti-massificaçao, etc. Talvez o adjetivo mais atraente da historinha seja o “local”: olha so, ele descobriu um pequeno produtor, um heroi dos tempos modernos, David artesao contra os gigantes da agro-industria. A imagem é essa, nao sei se é verdade. Outro momento importante é quando, resistindo ao senso comum – o provérbio, a sabedoria popular e secular – você arriscou e acertou. Mais uma vitoria do individuo, ou seja, do heroi que chega com o romantismo e que ousa quebrar as estruturas do mundo estamental. Heroi, alias, muito bem aproveitado pelo cinema e que nos conhecemos até sem saber.Nao sei se era sua intençao, e nem eu sou chegada a analises estruturais, mas nao resisti. Na verdade, o que analisei foram minhas proprias reaçoes frente a uma historia bem contada – um “causo”, exercicio de linguagem e arte da palavra que para mim também tem uma imagem forte, talvez em contos de Valdomiro Silveira, mas que modernamente ainda aparece num episodio de tropeiros no romance de Domingos Pellegrini, “Terra Vermelha”. Imagem de homens conversando em volta de uma fogueira, de céu no tempo em que a poluiçao luminosa ainda nao tinha apagado as estrelas, de tempo marcado por andanças e pousadas.Imagem de historias contadas e vividas ou inventadas, em que pesa mesmo é a arte de contar.Isso tudo para dizer que gostei de vosmecê ter incluido no meio dos seus comentarios um caso bem contado e por aqui vou ficando.Um abraço,Regina

  7. Não existe mesmo neutralidade axiológica. Isso porque mesmo os que não se preocupam com os valores que determinados acontecimentos, sentimentos, “coisas” têm sobre opiniões, gestos, escolhas, intrinsecamente eles são guiados por esses valores. Muitas vezes, estão de tal forma arraigados que convergem, despercebidamente, para uma assimetria de pensamentos que formam este turbilhão chamado de “consenso”, ou “sabedoria” da coletividade ou das multidões.Nada é inócuo, nada é insípido, sempre produz uma resposta, quer de desdém, quer de insurgo. Isso, se se compreendeu minimanente o que foi exposto.Ideologia? Qualquer coisa pode se tornar uma!

  8. Legal este mosaico de reflexões cotidianas.Além de concordar com os teus posicionamentos, desejo chamar a atenção para uma outra atitude dos intelectuais, já num outro extremo do gradiante – o encanto desmesurado por tudo o que venha do “povo”, tudo o que cheire a “expressão popular”… Enfim, os ditos intelectuis – e neste caso não desejamos nos incluir como tais – são seres um tanto inadaptados à vida comum, o que é lamentável!No mais, sigamos atentos aos encantos simples e reflexivos do cotidiano.Abraços

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