Portadores de deficiências e estigma

No filme 300, dirigido por Zack Snyder, o traidor do rei Leônidas é um ser humano que sobreviveu ao costume dos espartanos de matar os recém-nascidos que não correspondiam ao ‘normal’. Os rejeitados eram jogados do alto do Taigeto (abismo de mais de 2.400 metros de altitude). Na Roma antiga a Lei das XII Tábuas autorizava os patriarcas a matar os filhos ‘anormais’. Os hebreus proibiam aos indivíduos deficientes o acesso ao sacerdócio. Eles achavam que a deficiência era punição de Deus. Da antiguidade aos nossos dias, a exclusão e o extermínio dos portadores de deficiências persistem. Um dos exemplos mais aterradores foi a política nazista de perseguição, submissão às experiências científicas desumanas e assassínio dos deficientes, como também dos homossexuais, ciganos e judeus, considerados inferiores.

Os portadores de deficiência, ainda hoje, são estigmatizados. Na Grécia antiga, a palavra estigma se referia “a sinais corporais com os quais se procurava evidenciar alguma coisa de extraordinário ou mau sobre o status moral de quem os apresentava. Os sinais eram feitos com cortes ou fogo no corpo e avisavam que o portador era um escravo, criminoso ou traidor – uma pessoa marcada, ritualmente poluída, que devia ser evitada, especialmente em lugares públicos”. A escravidão dos negros nos legou o estigma determinado pela cor da pele; os nazistas resgataram a dicotomia puro e impuro, marcando os seres humanos segundo critérios racistas.

Na era cristã medieval, o estigma se expressou através de sinais corporais que identificavam o indivíduo que tinha a graça divina ou um distúrbio físico. A diferença física ou uma simples característica classifica o indivíduo entre os que não são ‘normais’ e pode indicar um atributo depreciativo, visível ou imputado ao outro pelos que se consideram ‘normais’. Expressa a atitude de animosidade e a percepção valorativa sobre o que se considera superior e ‘normal’. O outro é caracterizado como não natural, inferior e ‘anormal’.

A estigmatização dos portadores de deficiência revela ignorância e incapacidade da sociedade em lidar com o problema de prover as condições para a inclusão social dos mesmos. Numa sociedade marcada pelo individualismo produtivista, a valorização vincula-se à capacidade de se inserir no sistema produtivo. Reforça-se a visão assistencialista, por parte do Estado, da sociedade e dos próprios indivíduos portadores de deficiências, mas é-lhes negado o acesso ao trabalho, à educação, etc. Como os surdos e cegos podem disputar o vestibular e cursar a universidade sem que neste percurso se utilize o braile e a Libras (Língua Brasileira de Sinais)? Como alguém que depende de cadeiras de rodas para se locomover pode ter acesso à educação se os nossos arquitetos e engenheiros projetam prédios apenas para os ‘normais’?

Questões como essas parecem não preocupar nem dizer respeito à maioria das pessoas, mas quem é portador de deficiência ou tem algum membro da família nessa condição convive cotidianamente com vários problemas. Daí a importância de iniciativas como a do Cursinho Pré-Vestibular da UEM em oferecer aos deficientes visuais a possibilidade de estudar em braile. Os responsáveis pelo cursinho, junto ao Centro de Vida Independente (CIV) e outros, também promoveram o evento “Direitos Humanos e políticas afirmativas para pessoas com deficiência”, com palestra proferida pelo professor Ricardo Tadeu Marques da Fonseca. O palestrante é cego. Sua fala, muito lúcida e instigante, me fez lembrar o Ensaio sobre a cegueira e pensar se os cegos são, na verdade, os que vêem apenas com os olhos. Talvez essa cegueira seja muito pior!

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GOFFMAN, E. Estigma: notas sobre a manipulação da identidade deteriorada. Rio de Janeiro: Zahar Editores, 1982, p.11;
SARAMAGO, José. Ensaio sobre a cegueira. São Paulo: Companhia das Letras, 1995. Escrevi sobre esta obra em http://antoniozai.blogspot.com/2007/08/ensaio-sobre-cegueira-de-jos-saramago.html

5 comentários sobre “Portadores de deficiências e estigma

  1. Mto interessante a sua análise sociológica e histórica sobre o grupo dos portadores de necessidades especiais ou os “deficientes” como normalmente são identificados e nomeados. Uma hora dessas quero escrever algo a respeito, socializando minhas experiências pessoais tb por uma análise sociológica deste fenômeno de quem vive esse processo de ser “portadora de necessidades especiais” nos mais diferentes espaços sociais. Creio que a escola é a que com maior força – pasmem – é a que reproduz de modo mais significativo os melindres a quem socialmente – “normalmente” – já vem com “possibilidades” de vida previamente definidas, realidade tão comum transferidas a outros grupos sociais como negros, pobres ou os que detém de alguma maneira a marca da fragilidade. Como sempre, vc nos surpreende! Parabéns!

  2. Prezado Ozai, agradeceria se você pudesse publicar suas reflexoes sobre o que se faz hoje no Brasil pelos deficientes mentais, sobretudo os que sao capazes de trabalhar, desde que assistidos.Tive a impressao, quando estive ai, que houve alguma mudança e esforços significativos para a inserçao de deficientes fisicos, mas nao me pareceu que houvesse esforços correspondentes para facilitar a inserçao de pessoas com limitaçoes psicologicas, intelectuais, etc.Alias, agradeço também toda informaçao que os leitores do blog puderem fornecer.Um abraço,Regina

  3. Uma das limitações dos marxistas está no fato de geralmente serem incapazes de atentarem para as hierarquizações que não são econômicas. Os homens se hierarquizam de variadas formas. Na Espaço Acadêmico foi publicado um excelente texto, meses atrás, trabalhando justamente como a desigualdade social no Brasil procura se manifestar, também, pela cor da pele. Numa sociedade que tem como jeito de ser a contínuas e inovadas hierarquizações, criando outras mais, não se poderia esperar que fosse dado outro tratamento ao deficiente físico ou mental. Se não possuir um carro é motivo para ser rebaixado, não poderiamos esperar que quem não tem visão, audição etc fosse tratado como igual.Geralmente, basta não ser muito novo no pedaço, como mostrou Elias, para que sejamos tratados de forma inferiorizada. De minha parte, eu sou favorável ao abortamento de fetos que forem antevistos como defeituosos e, sinceramente, acho um esperdício esse gasto todo que é feito com deficiente: muitos sãos há para os quais o dinheiro teria melhor proveito, fortalecendo, assim, a sociedade. Estou com os espartanos e com alguns povos indígenas.

  4. Bah, Antonio. A Sociedade não evoluiu! Parece que não se aprendeu a lidar com diferenças de nenhum tipo, o que é prova de imaturidade. Você pontuou isso muito bem através dos exemplos históricos.Ainda podemos falar do “espetáculo” criado sobre os indivíduos estigmatizados.Essa questão de normalidade ainda vai dar muito o que falar. Se pudéssemos ver e considerar todas as coisas neste mundo como normais, acabariam esses problemas, pois necessidades todos temos. Uns necessitam de cadeiras, outros de muletas, outros de roupas, outros ainda de comida. E todos trabalhamos pelos mesmos motivos: sacear as necessidades, especiais ou não.Como alguém disse: iniciativas inclusivas dependem daqueles que conseguem “ver” além do que se quer ver. É a contextualização da problemática social!

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