O risível na história

Um breve olhar sobre a história da humanidade evidencia o risível. São inúmeros os fatos que expõem o ridículo na ação humana. Relacioná-los até que seria divertido, mas também fatigante. É interessante, porém, que os indivíduos que viverem situações ridiculamente cômicas tenham acreditado piamente no que pronunciavam e faziam. Como explicar o fato das pessoas agirem de maneira completamente absurda e, longe de se darem conta da risibilidade, crerem seriamente em tais verdades e até concebê-las como naturais?

No plano individual cometemos muitas bobagens, agimos ridiculamente e, ainda assim, não percebemos e até achamos “normal” os absurdos que falamos e fazemos. O passar do tempo,o avançar da idade, nos faz ver mais claramente o quanto determinadas atitudes foram risíveis. Rimos, então, de nós mesmos. O problema é que o ridículo, vinculado ao político, ideológico, cultural, religioso, etc., isto é, àquilo que diz respeito aos grupos humanos, também causa sofrimentos coletivos e individuais. E se hoje rimos perante o absurdo que expressam, também não devemos esquecer a dor e a angústia dos que foram submetidos à insensatez tirânica da maioria.

O filme Balzac e a Costureirinha Chinesa, dirigido por Dai Sijie, inspira a reflexão sobre as agruras do ser humano diante do risível. É preciso enfatizar, contudo, que nada tinha de ridículo para os protagonistas da época, em especial para os que se consideravam responsáveis pela reeducação dos que tivessem a lucidez de questionar a verdade instituída e aceita pela maioria. É necessário meditar sobre as contradições que envolvem o agir humano, sobre o quanto as ideologias redentoras da humanidade também têm de risível.

Ainda que o filme expresse a interpretação de quem o produz, como qualquer obra de arte, também se vincula à realidade representada. E esta é, em muitos aspectos, hilariante! No início, o chefe, um camponês analfabeto que idolatra o presidente Mao, analisa os objetos trazidos pelos rapazes da cidade, enviados às montanhas Fênix para serem reeducados. O chefe encontra um livro e pergunta sobre o que é. O jovem explica que é uma obra sobre culinária e lê a receita cujo ingrediente principal é o frango. O chefe sentencia: “Camponeses revolucionários jamais serão corrompidos por um imundo frango burguês!” Coitada da ave! “O presidente Mao”, diz o chefe, mandou-os aqui para serem reeducados, não para fazerem banquetes reacionários!” O destino do livro, claro, é a fogueira…

Continuando em sua pregação revolucionária, o camponês se depara com um violino. Ele explica aos demais que se trata de um brinquedo para crianças burguesas e, ipso facto, quer lançá-lo ao fogo. O jovem interfere e explica que se trata de um instrumento musical. O chefe ordena que toque a música e pergunta o nome. “Mozart”, responde o jovem. Ele só se acalma quando o irmão do violonista diz que a música se chama “Mozart está pensando no presidente Mao”. O chefe corrige: “Mozart está sempre pensando no presidente Mao”.

É engraçado, mas também é sério! Os humanos e as coisas do mundo são classificadas de maneira dual: o burguês e o revolucionário (da mesma forma que há o “frango burguês”, a “ciência burguesa”, a “música e literatura burguesas”, etc., e, claro, os seus antagônicos, genuinamente revolucionários). Ainda há quem divida o mundo entre o bem e o mal. Tal visão simplista e maniqueísta da realidade social está presente em cabeças capazes de ler e analisar os fatos da história. Não é incrível esta persistência?! Como sugere o nome das montanhas onde os jovens são reeducados, na China da revolução cultural, renasce das cinzas. É risível, mas é também preocupante.

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Balzac et la Petite Tailleuse Chinoise, França/China, 2002, é baseado no livro homônimo escrito pelo diretor Dai Sijie (Rio de Janeiro: Editora Objetiva, 2007).

10 comentários sobre “O risível na história

  1. Excelente comentário. Filme excepcional. O agir e pensar autoritário é risível. Isso deve ser combatido na china como em qualquer lugar. Mas então: Toda liberdade a diversidade de opiniões? Evidente que sim. Mas a questão permanece em aberto quando ocorrem ações que tolhem essa liberdade; sejam ações em nome de revoluções socialistas, comunistas, religiosas ou liberais. Mas essas ações não estão desvinculadas pelo livre pensar. Fazem parte intrínseca desse processo da dialética. Agir e pensar, pensar e agir. Nesse sentido, a simples liberdade de opinar, divergir, não parece suficiente. Estamos ou não numa sociedade contraditória? Agora, podemos colocar limites no agir, mas não no pensar. A ânsia de liberdade estará sempre presente. Resta encontrar o caminho para que possamos colocar no mesmo patamar a liberdade com a igualdade econômica, social e política, respeitando diferenças de comportamento e aptidões pessoais. Aceito sugestões!…rsrsrsrs

  2. Antonio Ozaí, tenho uma interpretação diferente do filme Balzac e a costureirinha chinesa, baseado no livro homônimo. Creio que os dilemas existenciais – e o risível como parte deles – têm um transfundo dramático que você não logrou analisar, provavelmente porque lhe interessava o tema do risível. Quer dizer, recortar um temaindependentemente do sentido histórico da narrativa. Se você tomar o desfecho do filme, verá que há um a reavaliação da história da China à luz da vida camponesa. Podemos olhar para este estranho enigma da história (História): um campesinato que deu suporte a uma revolução no seu desfecho possibilita a recuperação do capitalismo e viabiliza a fase prolongada de crescimento da economia capitalista no nível mundial, agora em questão. A nostalgia dos ex-jovens em relação a experiência da Revolução Cultural na comunidade camponesa que depois foi deslocada com a construção da represa é notável, não acha?A nostalgia em relação ao passado diz respeito à Revolução Cultural nas circunstâncias e no processo de reeducação a que foram obrigados – o que inclui o conjunto das relações construídas com os camponeses e, é claro, com a “costureirinha”.

  3. As instituições religiosas burocratizam a crença das pessoas, o desejo de vida, o corpo… nelas aprendemos a pensar que não temos livre-arbítrio. E isso já nega sua tese. Se são necessários anos de catequese cristã, judia ou islamica para que nos convençamos dessa idéia, é por que ela não passa de uma idéia, abstração, algo separado da realidade concreta que experimentamos no dia a dia em nossos corpos por meio de nossos sentidos. Outrossim, por que nos gastarmos em cultos, ritos e companhia se esse superior já sabe nosso destino… se temos um destino apenas devemos viver cada dia e deixar rolar… se nossas atitudes não são determinadas por nós… se não temos escolha… se nosso desejo criado como parte de nós não conta… como é que escolhemos construir uma sociedade justa como Jesus tentou se não podemos escolher… e para quê participar de igrejas e templos se não temos escolhas. Se vamos para onde o gaiato/risonho deus quer. Se a comédia ou a trajédia ou o drama de nossas vidas não o podemos alterar. Por fim, se não temos mesmo esse livre-arbítrio temos mais motivos ainda para rirmos de nós e rebelarmos contra esse barbudo deus/zeus/alah/javé… que nos cria e nos aprisiona nesse mundo de dores e desigualdade apenas para sofrermos, já que ele define tudo e nós não temos poder nenhum.Quanto ao dualismo… ele é a espinha do pensamento que separa o sagrado da vida e da humanidade. A mesma lógica que faz com que sintamos a necessidade de que um vença e outro seja derrotado. Que separa nossas relações entre legítimas, corretas, limpas, e aquelas profanas, sujas… separa tambem a possibilidade de se realizar como pessoas humanas a machos, fêmeas e intersex ao limitar os comportamentos como se fosse natural coisas próprias de fêmeas e proprias de machos para além dos orgãos sexuais e a contribuição na gestação de outro ser. Isso tudo interessa a essas instituições: das igrejas, aos partidos, estado, sociedades secretas, classes…Todas essas divisões se sustentam por meio de instituições, por isso todas as instituições estão à serviço da alienação humana que lhe impede viver pro inteiro.Hugo Leonnardo

  4. Não entendi a fé prega “ri melhor quem ri por último”. A fé não se agrada dos tolos. E se vc prega a bondade e diz eu sou o caminho, é um aviso não a privação do livre arbítrio. Vc escolhe entre o caminho do amor e o precipício. Este é o teu livre arbítrio. Tubalcain já escolheu, ao que parece, embora ainda não tenha ido. Há tempo.

    • Norberto, são questões importantes, mas a atuação como cristão requer fundamentalmente a liberdade. Poderíamos debater muito tempo sobre esta questão, mas antes lhe recomendo um livro que trata desta questão com muita fundamentação teológica:

      “Sobre a liberdade da pessoa cristã” traduzido como “Da liberdade cristã” escrito pelo Dr. Martin Luther. Temos no Brasil inúmeras publicações, como a da Editora Sinodal.

      Da Liberdade Cristã – Livro básico e clássico da reforma luterana, escrito em 1520, acentua que a pessoa cristã é senhora livre sobre todas as coisas e não está sujeita a ninguém – pela fé; ao mesmo tempo, é servidora de todas as coisas e sujeita a todos – pelo amor.

      E em nada conflita com a atuação do cristão no campo econômico, onde igualmente a liberdade e a responsabilidade devem se fazer presentes.

  5. Vc me fez lembrar de um episodio vivido por mim em nome da luta por uma ‘sociedade mais justa e igualitaria’ que foi mais do q risivel , foi patetico.É incrivel o que fazemos qdo acreditamos em algo. maria jose

  6. Antonio, esse é o motivo pelo qual prefiro os filmes estrangeiros e independentes: o que há de “real” no humano e no contexto que ele está inserido não sofre o aperto dos clichês, vulgarizações e padronizações das grandes produtoras. A cultura e o sentimento, enfim, podem ser quase que transmutados para o espectador. E é para isso que se presta a arte, não? Fazer sentir o que não se percebe através da materialidade lógica. Este filme não assisti, mas fiquei bem curiosa e irei procurá-lo. Rir de si é sempre bom, é uma arte a que se cultivar. De fato nem sempre podemos rir com largueza, porque o resultado do ato às vezes ofende o meio. Mas também entendo que culpa e culpado somem quando se compreende as entrelinhas da história. Sabemos que a teia é muito mais complexa e emaranhada, uma explicação final para um acontecimento é bem desejável, mas se é fiel, não o sabemos… Principalmente se estivermos presos nesses padrões dualísticos a que você se referiu com tanta propriedade. Ah, como o humano gosta de colocar todos os pingos nos “is”, gosta de ter o resultado de todas as equações como zero!

  7. Exatamente, muitas situações trágicas não são percebidas como tal por quem as comete. Me faz lembrar da escravidão e massacre de milhões de negros africanos; no assassinato e escravidão de milhões de índios pela igreja católica, na espoliação do bem público pela universidade, na subalternização, humilhação e exploração de bilhares de pobres pela classe média e alta… enfim.. engraçado que foram bem menos vezes que os bem nascidos chegaram a passar por situações dráticas, mas são estas as mais lembradas: morte dos judeus, subalternização dos intelectuais na China etc. Que importância têm esses sofrimentos antes os vários outros citados, muito maiores, mais longos e mais cruéis?

  8. Caro Ozai. É risível para quem está de fora do achincalhe de ser chamado de “burguês” ou “reacionário” como acontecia na época da Revolução Cultural Chinesa. Para quem sofreu na pele e na alma, não conseguia rir. Infelizmente, há aqueles que gozam na cara dos outros, chamando-o ontem de “burguês” e hoje de “neoliberal” ou “pós moderno”. Eu mesmo, seguindo a onda da esquerda estigmatizadora, chamei muitos companheiros que ousavam criticar nossas posições stalinistas disso e daquilo. Tudo bem, aceio rir para não chorar…mas, ainda me revolto. Raymundo “o revoltado”.

  9. É risível, se for a vontade dos homens, ou diante do incredulismo, aceitar que Deus possa escolher outros caminhos. Por que não experimentamos ser risível com as coisas que estão registradas na Bíblia?. Sim, tem muitos fatos que o próprio Deus permite essa insignificãncia, visto que o popular afirma : “Deus escreve certo por linhas tortas”, mas a Fé, prega que: “rir melhor que fica por ultimo”, assim contemplará, o poder e a glória de uma promessa revelada. Com Deus não há livre arbítrio, Ele é o caminho a verdade e a vida. Agora podeis rir. . .

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