Moral política e religiosa

A história comprova que as ondas moralizantes incubam o vírus do sensacionalismo, do desrespeito à liberdade do outro, da perseguição política e da pura e mais simples deduragem. Quantas personalidades vampirescas e ditatoriais se escondem sob a máscara da moralidade imbecilizada?

Isto não significa, é claro, que todas as denúncias ocultem objetivos espúrios. Não! Muitos são os que acreditam sinceramente no que fazem e acham possível reeditar, à maneira religiosa, cruzadas pela ética na política. Muitos são os bem-aventurados pelo desejo sincero de varrer a corrupção e os corruptos da face da terra. Louvados sejam!

Anjos, se existem, não pagam contas. Como afirma a Bíblia, é preciso separar o joio do trigo. O difícil, quando a histeria moralizante prevalece, é ouvir a voz da razão. Já no século XVI, Maquiavel observou que a política e a moral pertencem a esferas diferentes: a primeira enfatiza o coletivo; a segunda o indivíduo. Hoje, ética e moral são usados confusamente como sinônimos (vide os vários códigos de ética; e, a rigor, até os ladrões tem certa ética, um código que orienta seu comportamento).

Por outro lado, as relações entre o poder público e o poder religioso sempre primaram pela disputa de espaço e poder na sociedade. O poder espiritual só se firmou pela conquista do poder temporal. A instituição Igreja precisou se impor, mesmo que às custas do uso da violência. Esta história é por demais conhecida: as cruzadas, as guerras religiosas, a “evangelização” dos povos colonizados; as disputas territoriais do papado, etc.


No filme Agonia e Êxtase, que retrata as complexas relações entre o artista Michelangelo e o Papa Julio II, vemos cenas que chocam o cristão que ignora a história: nos campos de batalha, de espada nas mãos, ferindo e sendo ferido, o papa guerreiro luta pela manutenção dos territórios papais. Mas a grandeza da Igreja se deve a papas como esse. Se a instituição não se firmasse enquanto poder político real não teria a importância que teve durante séculos.

O papa Julio II, por sua impetuosidade e ação em prol do poderio da Igreja, mereceu até mesmo o elogio do florentino. Em O Príncipe, Maquiavel nos mostra como os papas, desde Alexandre VI, souberam usar da força e do dinheiro para manter e ampliar o poder da Igreja. “É de se esperar que, se alguns fizeram o papado poderoso pelas armas, o pontífice atual, por sua bondade e muitas outras virtudes, o faça mais forte e venerado”, escreveu.

Foi necessário que a burguesia liderasse revoluções para afirmar o caráter laico do Estado. Como vemos, sempre temos recaídas. Assim, para que cada um possa cumprir sua função social (como diria Durkheim!), é preciso manter as coisas em seu devido lugar: o poder público responde pelos interesses da coletividade, a qual é profundamente heterogênea; a religião diz respeito à esfera privada e individual; se ela disputa ou interfere no espaço público, deve se sujeitar aos critérios da política.

O poder público não pode, portanto, favorecer esta ou aquela igreja; os privilégios que concede a uma religião poderão ser reivindicados por qualquer outra. A cidade divina deve se submeter à cidade dos homens – ou seja, o poder espiritual está sob a autoridade das leis civis. E, que cada um pague a sua conta! Conta esta que, no final das contas (sem trocadilho), quem paga somos nós, independente da fé que professamos (ou não) e das nossas escolhas políticas e partidárias.

2 comentários sobre “Moral política e religiosa

  1. Caro Ozai. Lendo o seu ensaio, fiquei imaginando sobre o atual “namoro” de uma errada esquerda com o fundamentalismo islâmico. Nas suas pregações eles viram as costas para exercer a crítica sobre os estados teocráticos, ou a dominancia tribal sobre as tentativas do Estado de conceder direitos iguais as mulheres, ou mesmo a liberdade religiosa. Para onde foi aquela esquerda laica e crítica dos funcamentalismos? Abraço. Raymundo.

  2. Apoiadíssimo signore!Melhor que isso, só o dia em que não houver mais instituições religiosas ou políticas… o que parece até impossível.Enquanto isso não acontece, vamos continuar assistindo a invasão de poderes onde ninguém sabe mais qual é o papel de quem, pois todos se metem em tudo, consistindo em uma interpenetração de um em outro.Analisando os governos no mundo, parece que não existe nenhum estado laico e nenhuma religião apolítica, assim, imparcialidade não existe, todos se tornaram lobistas em tempo integral, cada qual barganhando pelo seu “peixe”.

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