Somos todos delinqüentes acadêmicos? (1)

Maurício Tragtenberg

Em 1978, no I Seminário de Educação Brasileira, realizado em Campinas (SP), Maurício Tragtenberg falou sobre a “delinqüência acadêmica”.[1] Ele observou que a universidade não é neutra, mas sim uma instituição que expressa interesses e as contradições inerentes à sociedade. A universidade, porém, tende a obscurecer esse caráter pela afirmação da ideologia de um saber aparentemente neutro, que seria “objetivo” e “científico” e estaria acima dos antagonismos sociais. [2] Enfatizou o caráter classista da universidade. O saber legitimado no campus não é um saber ingênuo, desprovido da influência das relações de poder. Sua estrutura burocrática e autoritária fortalece a ordem e o poder, influencia o corpo docente e discente e é referência para a práxis no campus. Tanto professores quanto alunos reproduzem-na cotidianamente, dentro e fora da sala de aula.

Na universidade predomina o especialista. Ela produz o taylorismo intelectual, com a divisão do conhecimento em disciplinas estanques e a instrumentalização do saber aplicado a fins empresariais e militares. Dessa forma, a universidade submete-se à racionalidade capitalista, transformando-se numa instituição tecnocrática. Sua função é formar os que contribuirão para a manutenção da ordem, fundada no despotismo nos locais de trabalho e no controle político e social.

A universidade reproduz os valores predominantes na sociedade pela seleção e transmissão de conhecimentos legitimados institucionalmente; sua estrutura e pedagogia burocrática contribuem para a formação de indivíduos submissos, servis e desprendidos de qualquer preocupação de crítica social – mesmo nos chamados “cursos críticos”. A universidade tende a se desincumbir de qualquer função crítica. Tragtenberg, com ironia, argumenta que quem deseje levar a sério o lema kantiano “Ouse conhecer”, terá que fazê-lo fora do campus: “Se os estudantes procuram conhecer os espíritos audazes de nossa época, é fora da universidade que irão encontrá-los”.[3]

Estamos, assim, diante de uma universidade que produz intelectuais sem compromisso ético e social; intelectuais desresponsabilizados diante da realidade social, cuja vinculação com o mundo real se dá pelos interesses econômicos e políticos individuais e corporativos. São especialistas voltados para os seus respectivos “feudos”, à cata de financiamentos e recursos materiais que proporcionem status, conforto e as condições para uma boa vida. Não importam as fontes dos recursos e nem as finalidades sociais do conhecimento produzido, mas sim consegui-los. Muitas vezes, tais práticas são encobertas pela retórica do “público”. “Em nome do “serviço à comunidade”, a intelectualidade se tornou cúmplice do genocídio, espionagem, engano e todo tipo de corrupção dominante, quando domina a “razão de Estado” em detrimento do povo”, enfatizou Tragtenberg.[4]

Na disputa dos interesses individuais e corporativos, camuflados sob o discurso da “universidade pública”, “interesse público”, “bem-comum”, etc., os fins justificam os meios. Prevalece “a política de “panelas acadêmicas” de corredor universitário e a publicação a qualquer preço de um texto qualquer”, os quais “se constituem no metro para medir o sucesso universitário”. Neste universo, “a maioria dos congressos acadêmicos serve de “mercado humano”, onde entram em contato pessoas e cargos acadêmicos a serem preenchidos, parecidos aos encontros entre gerentes de hotel, em que se trocam informações sobre inovações técnicas, revê-se velhos amigos e se estabelecem contatos comerciais.” [5] Eis a delinqüência acadêmica!

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* Versão adaptada do texto originalmente publicado na Revista Espaço Acadêmico, nº 88, setembro de 2008. Disponível na íntegra em http://www.espacoacademico.com.br/088/88ozai.htm
[1] As citações são de: TRAGTENBERG, M. Sobre Educação, Política e Sindicalismo. São Paulo: Editores Associados; Cortez, 1990, 2ª ed. (Coleção Teoria e Práticas Sociais, vol 1). Ver também a entrevista publicada originalmente no Folhetim, Folha de S. Paulo, 03.12.1978, disponível em http://www.espacoacademico.com.br/007/07trag_delinquencia.htm
[2] Num texto apresentado no Seminário de Reitores, realizado em João Pessoa (PB), em 1978, Tragtenberg afirma: “A universidade é uma instituição dominante, além disso, ligada à dominação. Até hoje a universidade brasileira formou assessores de tiranos, é o antipovo. Criada para produzir conhecimento, ela se preocupa mais em controlá-lo” (1990, p.55).
[3] Id., p.13.
[4] Id., p.14-15.
[5] Id., p.15.

11 comentários sobre “Somos todos delinqüentes acadêmicos? (1)

  1. Esse professor está trazendo a tona um tema que mudou muito. A universidade tem mudado muito e hoje, segundo meu ver, quase que apenas a medicina a economia e as ciências chamadas exatas não se desvincularam ainda de seu objeto de estudos enquanto indicativos da realidade concreta com a qual se lidar.
    As outras ciências, não dá pra saber pra onde caminham. A universidade está deixada de lado em algumas áreas. Daqui a pouco conforme disse um internauta, a universidade vai alfabetizar as pessoas, pois vivmos um retrocesso apelidado de progresso. O português por exemplo. recentemente mostrou isso no Brasil, quando alunos do Enem tiraram a nota máxima com redações com erros de ortografia gritantes: “Rasoavel”, “enchergar”, “trousse”. Esses são alguns dos erros de grafia encontrados em redações que receberam nota 1.000 no Exame Nacional de Ensino Médio 2012 . O ministro da educação simplesmente disse que estava considerando o sentido do que se quis dizer na redação. Só que este procedimento foi utilizado para alguns felizardos apenas e não para todos os alunos. Isso aí, desconstruir a sociedade, a cultura e os sonhos,de muitos adolescentes e alunos honestos em busca de um lugar. princípios morais e éticos, muitas vezes jogados ao lixo…

  2. Prof. Ozaí que bom ter tocado neste tema. Quem está na Universidade Pública ou Privada sabe bem o que o prof. Tragtemberg nos trouxe. Eu me identifico muito com sua fala, ainda não fui para o doutorado e possivelmente não irei. Tenho 20 anos de magistério, oito na Educação Basica e doze no Ensino Superior e vejo que, há um Sistema na Pós-graduação que me remete ao texto do prof. Tragtemberg: são Congressos, grupos de pesquisa, revistas qualis. Há todo um enamoramento ao Sistema da Pós-graduação.. são tantos artigos, pesquisas, no entanto a Política Econômica, Política e Acadêmica não dão conta de apontar caminhos, resoluções efetivas de nossos problemas sociais. Penso que é sobre isso que o prof. Tragtemberg está se referindo, gosto de sua fala. abraço fraterno, prof. cristiane.

  3. Pode até ser que fazia sentido esse texto em 1978, mas hoje não faz. A universidade está tomada pela “consciencia social”, como as politicas de cotas. E em geral, nao apenas pela politica de cotas, a coisa tem piorado dramaticamente. Logo estaremos alfabetizando pessoas lá. Eu tenho pena dessas pobres almas marxistas.

  4. Quanto papo furado.

    Primeiro, que a Universidade existe para… ensinar, ora bolas. Num curso de veterinária você aprende veterinária, para se tornar veterinário. Simples assim. Desde quando a função da univdersidade é formar “intelectuais com compromisso social”? De onde esse velhote tirou isso, deus do céu?

    Segundo que, pelamordedeus, se tem um lugar onde a pregação esquerdista ainda não morreu é justamente na universidade.

    Desonestidade intelectual ou ignorância? Fico com a primeira opção.

  5. Nossa! Li Maurício Tragtemberg nos idos de 80 e lá vai pedrada.Parada epistemológica-> Companheiros de leitura, enquanto escrevo isto, tenho que pensar se desligo ou não a televisão, que por acaso vai passar um filme que pode mudar as nossas vidas: O Ataque dos Vermes…(não guardei o resto do nome).Na realidade, penso que nenhum de vocês está equivocado. São leituras diversas de uma afirmação que não está de todo errada. Concordo com Francisco sobre o fato de a Universidade ter este papel de formar pensadores com um senso crítico. Concordo com Paulo Almeida sobre a qualidade do que se ensina. A partir de quem e para quem e, de repente me passa pela cabeça a romântica discussão sobre @s Educador@s Universitários, o sucateamento da Universidade Pública, que não é gratuita, pois é custeada pelos nossos impostos e a desvalorização da Educação. Não vou entrar neste mérito.O que me deixa por demais chateado é que as Universidades podem até estar formando pessoas com um senso crítico mais aguçado. Mas até que nível? De repente me vem em mente o discurso dos pós-marxistas, Theodoro Adorno e Horkheimer, na formulação de sua Teoria Crítica em que, em síntese estaríamos criando pessoas (desculpe o ato falho) recriadoras de mesmices. Mesmices estas que servem para a manutenção do status quo, naquilo que, a luz deles, vivemos no que é chamado de Indústria Cultural.Se não vejamos, estamos aqui utilizando uma das mais poderosas ferramentas da mídia, no sentido da convergência, a Internet, um conglomerado de mídias que permitem a perpetuação do senso-comum e, que poucas pessoas conseguem se lembrar da gênese da mesma, a Guerra.Não sei se percebem como a violência está se banalizando de forma tal que violência equipara-se a um anúncio de outdoor pelo qual passamos tantas vezes e de repente elese torna parte da nossa subconsciência. Vimos o outdoor mas ele não tem mais substância, mais significante significado. Acabamos comos os analfabetos funcionais que lêem mas não entendem e não questionam.Para provocar ainda mais com esse discurso que pode passar por melodramático e infundado, mas vem quantos e quantas de nós estão perdendo a arte da indignação e, mesmo quando se indignam, não sabem porque o fazem.Páro por aqui e passo a bola para o Ozaí.

  6. Infelizmente, o grande mestre Mauricio Tragtenberg, estava totalmente errado em sua analise da universidade enquanto instituição reprodutora das “contradições sociais”. Ele parece ter razão, prima facie, ao condenar todas as deformações políticas e propriamente intelectuais que podem ser encontradas na universidade, mas sua aplicação mecânica, extremamente determinista, das categorias marxistas classicas ao ambiente universitário, é totalmente desprovida de fundamentação empírica.Geralmente, os universitários são muito receptivos a todo tipo de discurso que incorpore essas categorias e conceitos de classe, dominação, etc. Infelizmente, isso é absolutamente superficial e inocuo: representa uma critica radical, completa, do sistema universitário, mas fica nessas categorias pouco operacionais para uma interpretação correta dos problemas e seu equacionamento.A Universidade padece sobretudo de baixa produtividade, de irresponsabilidade, de parcos controles de qualidade sobre a produção acadêmica, e não de uma mimesis qualquer da luta de classes na sociedade.Ficar nesse tipo de análise é eludir, uma vez mais os problemas reais, em troca de conceitos atraentes, mas finalmente, totalmente inadequados.

  7. Aguardo ansioso a sequência. Essa primeira vertente crítica sobre a Universidade, por mais que exprima a barbárie que marca nossa sociedade, não pode deixar de considerar as concretas manifestações de recusa da lógica do modo de produção vigente e a promoção de uma formação de sujeitos críticos e com real atitude transformadora.Francisco J. S. Lobo Neto

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