Somos todos delinqüentes acadêmicos? – Entre a resistência e a adaptação (2)

O modus vivendi do homo academicus pressiona constantemente para a adaptação. Ainda que tenha consciência crítica do campo acadêmico, são várias as armadilhas presentes no cotidiano. Na verdade, as exigências administrativas, burocráticas e acadêmicas impõem práticas e discursos legitimadores que nos cercam. Estamos sujeitos à lógica da concorrência: somos assalariados, submetidos a regras e normas que regem o dia-a-dia.

A necessidade de “pontuar” transforma a vida acadêmica numa espécie de contabilidade: tudo o que fazemos é quantificado. Torna-se mais importante somar pontos do que a atividade em si. Publicar um artigo passa a ser muito mais uma necessidade administrativa. A produtividade pressupõe quantidade. Não importa a qualidade, tiragem e onde foi publicado; menos ainda se será lido, mas sim se quem publicou tem os requisitos exigidos para que seja pontuado.[1] Este tipo de pressão favorece práticas nada condizentes com a ética.

Como salienta Waters, “há um elo causal entre a demanda corporativa pelo aumento da produtividade e o esvaziamento, em todas as publicações, de qualquer significação que não seja gerar números”. [2] A linha de montagem fordista-taylorista acadêmica produz coisas sem sentido, cujo principal objetivo é simplesmente atender à demanda por mais e mais “artigos”, “livros”, etc., dos organismos governamentais e privados que injetam dinheiro nas artérias da universidade. A ânsia por se agraciado pela oferta do “deus Estado” ou o “deus mercado”, contribui para a cultura produtivista. Nestas circunstâncias, “o produto é tudo que conta, não sua recepção, não o uso humano. Isso é produção apenas com o valor de um fim em si mesmo e praticamente mais nenhum outro”.[3]

A pressão é ainda maior quando se tem em vista as exigências dos órgãos superiores em relação à pós-graduação. Aqui, trata-se da própria sobrevivência dos programas e do status proporcionado pelos vínculos aos mesmos. A necessidade da produtividade é ainda maior. Não é por acaso que nas ciências humanas adota-se uma prática muito comum em outras áreas, a qual consiste em aparecer como co-autor nos artigos dos orientandos. Muitas vezes, a co-autoria não se justifica e uma simples nota de agradecimento no rodapé faria justiça ao orientador, mas isso não conta ponto.[4] Em nome da sobrevivência do programa, e das necessidades docentes, entra-se no reino do vale tudo. Se, por exemplo, reprovar um pós-graduando pode prejudicar a avaliação do programa, então devemos aprová-lo, ainda que nada o justifique. Se você deseja participar tem que jogar o jogo, aceitar as regras e exigências. Há a opção de não participar, mas esta acarreta ônus.

A influência dos organismos superiores é determinante. Se você quer ter a mínima chance de ser agraciado com recursos, vencer um edital, etc., deve se submeter. E não basta ser submisso, tem que provar que está à altura do seu gesto, isto é, deve se enquadrar e corresponder às exigências de produtividade. O critério é mercadológico: ganha quem “produziu” mais, não importa a qualidade do que foi “produzido”. A injeção de recursos público e privado acirra a pressão para que os concorrentes se “qualifiquem” para conquistá-los. Criam-se diferenciações e hierarquias mantidas por recursos externos. Os agraciados terão melhores condições para incorporar alunos a seus projetos e de influenciá-los. Poderão manter a clientela e o fato de terem conquistado esta posição fortalece o status de vencedores. Não faltarão “mariposas” a rondar a luz que irradiam.

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[1] Por exemplo, um livro publicado por uma editora universitária, com uma tiragem de cerca de 500 exemplares, é reconhecido pelos critérios formais burocráticos e vale muito na contagem para a ascensão na carreira universitária. Outro livro, com tiragem de 15 mil, mas que, por ignorância do autor, tenha sido publicado por uma editora sem os pré-requisitos exigidos, não conta nada e não tem valor acadêmico algum. E estamos supondo que ambos sejam comercializados e que não encalhem, isto é, que tenham leitores interessados em adquiri-los e lê-los.
[2] Ver WATERS, L. (2006) Inimigos da esperança: publicar, perecer e o eclipse da erudição. São Paulo: Editora da Unesp, p.12.
[3] Id., p.42.
[4] A Revista Urutágua tem mostrado que essa prática é, no mínimo, problemática. Adotamos como critério a não aceitação de co-autoria e os artigos são devolvidos aos autores. Estes, geralmente orientandos e orientadores, conversam e se acertam. O artigo é, então, reenviado e de acordo com os nossos critérios, isto é, com apenas um autor.

4 comentários sobre “Somos todos delinqüentes acadêmicos? – Entre a resistência e a adaptação (2)

  1. Olá Antonio,Infelizmente, a grande maioria das instituições que existem hoje não têm um caráter renovador, todas elas estabelecem-se sob rígidas normas que formatam as mentes acadêmicas. Claro que a disposição em transmitir o conhecimento a leigos foi um grande passo que a institucionalização do ensino propiciou ao mundo, entretanto, estas bases estão desgastadas e decaindo continuamente. Pois, não é mais o conhecimento que é transmitido, e sim informação. E, convenhamos, informação pode ou não levar ao conhecimento, e somente o conhecimento leva à cultura. Na apresentação de seu livro “Da alvorada à decadência”, J. Barzun cita alguém: “A cultura é o que resta depois que você esqueceu tudo o que definitivamente se dispôs a aprender”. Mas também, quem disse que os sistemas vigentes têm, verdadeiramente, interesse na cultura?Não há dúvida, a função das universidades hoje “é formar os que contribuirão para a manutenção da ordem”. Universidades estão colocando no mercado robôs programados para desempenhar tarefas. Foi-se o tempo em que se dizia que nos bancos escolares (e atrás da tribuna) estavam os intelectuais (pelo que disse Tragtenberg, isso se foi mesmo há muuuuuito tempo atrás). Isso porque bem você disse: fabricação em massa! Informações vendidas com caráter curricular; comércio, puro comércio. E aiaiai se alguém se propuser a enfrentar esse sistema com propostas novas… de preferência, que ninguém pense, e se pensar, por favor, que não questione! Essa é a mentalidade.E como todas as instituições têm de provar ao governo o quanto sua fábrica está dentro das normas para receber o ISO 9000 (quero dizer a melhor pontuação…) ele força o docente a se manter no esquema, não importando se a sopa de abobrinha já está azeda.São desejáveis (e louváveis) os delinqüentes, pois é apenas através deles que pode acontecer esta renovação. Quiçá possa haver uma grande transformação… Mas eles também têm de se impor, tem de ter coragem, porque freqüentemente, delinqüência é assimilada como baderna incauta e despropositada. E, no começo, se não forem rechaçados, serão aplaudidos, entretanto entre este estado de hipocrisia e a verdadeira aceitação e até a prática, há um caminho longo e doloroso. Espero sinceramente que aqueles que podem, jamais se rendam à adaptação. Pressões há, mas há de todo lado. Propósito firme e proposta crítica, já têm em si seu papel purificador! Por isso, coragem e avante!

  2. Caro Ozaí,vir ao seu texto é sempre encontrar uma reflexão que forma e informa, um pensamento consistente… Sobre essa discussão, veio-me à mente um misto de entendimento sobre a existência dos “numericistas” + “legalistas” do Lattes, o que também me fez vir à mente músicas que nunca saem de moda, tais como as de Raul Seixas “Ouro de Tolo” e “Cawboy Fora da Lei”. Penso que são contribuições à nossa reflexão, caro Ozaí.Parabéns pelo texto. Sucesso sempre!!!

  3. Antônio, realmente a exigência por quantidade de publicação no meio acadêmico, tanto para professores quanto para os alunos, torna cada vez mais a produção científica massificante e diminui a qualidade da produção seja de artigos ou livros. A valorização da quantidade e não da qualidade dos artigos produzidos torna o conhecimento cada vez mais superficial.

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