Somos todos delinqüentes acadêmicos? – Entre a resistência e a adaptação (3)

O crítico corre o risco de ser tachado de invejoso e ressentido. Simplesmente por não jogar o jogo[1]. Quem não se adapta terá dificuldades para conseguir outros recursos além do seu salário. Os editais e as oportunidades são para todos. Se não está apto para a concorrência, problema dele. Lembrarão dele quando houver atividades sem remuneração extra. Se ele recusa alguma “oportunidade” em nome dos princípios, será, na hipótese condescendente, considerado ingênuo ou “franciscano”. Deve ser algum problema psicológico que a filosofia tomista explica, ou bobeira.

Cada vez mais as relações na universidade são intermediadas pelas leis do mercado. Os projetos para os pobres, movimentos sociais, etc., são formas de ganhar dinheiro. Os governos injetam recursos que geram resultados duvidosos e paliativos para os destinatários. É preciso conhecer o “caminho das pedras” e disputar as verbas. “Ser solidário”, “engajar-se”, virou meio de vida (e com a aura de “militância intelectual”).

A estrutura universitária é irrigada com uma fonte que representa renda extra. Isso é feito de maneira legal, com a aprovação e complacência dos departamentos e outros níveis decisórios no campus. Estabelece-se o pacto pelo qual “A” não cria problemas para “B” e vice-versa. Não importam as articulações e manipulações. É o reino do vale tudo!

A docência por vocação e o desprendimento dão lugar ao interesse egoísta enquanto fator direcionador da práxis acadêmica.[2] Predomina a “caça ao tesouro” e deve-se afastar o que atrapalha a conquista. Os fins que deveriam pautar a ação política-pedagógica e crítica da universidade tornam-se meios para atingir os objetivos particulares e/ou setoriais. O discurso da “universidade pública” torna-se estratégia para efetivá-los. A universidade é um grande bolo em constante disputa entre os grupos que se organizam para abocanhar os melhores pedaços. Quem pode mais, come mais! Os cargos e controle de espaços são fundamentais, em especial os que controlam outros cargos na estrutura.

Mesmo a criação de departamentos, cuja necessidade é duvidosa, se insere nessa lógica. Cada departamento criado gera mais cargos e uma estrutura que consome recursos sociais. Sem o dinheiro nada funciona. Quem quer ser chefe, coordenador, diretor, pró-reitor, reitor, ganhando apenas o salário de servidor? Desempenham funções importantes e são eleitos para tal. Quem paga a conta é a sociedade. Os defensores da “universidade pública” precisam ser remunerados para defendê-la. O óleo que lubrifica suas engrenagens é a moeda, o status e as facilidades que se tem ao se ocupar determinadas funções.

Na universidade pública cobram-se taxas explícitas e implícitas. Artifícios da norma legal são utilizados para manter cursos de pós-graduação. Tudo dentro da mais perfeita ordem! E quem será insano a ponto de questionar a legalidade de práticas presentes em setores hierarquicamente poderosos no campus? Quem terá a ousadia de afirmar que o lícito não é necessariamente ético? No “cemitério dos vivos” o questionamento dá lugar à vista grossa e à acomodação de interesses. Afinal, é preciso manter as portas abertas para possíveis alianças.

Neste ambiente, a crítica e a resistência são formas de adaptação. Os “heróis da resistência”, ainda que tenham retórica crítica e radical, terminam por se acomodar. Os sinceros vivem entre a angústia da observância dos princípios éticos e a negação destes, impostas pelas necessidades práticas e imediatas. Como o Dr. Johannes Georg Faust, personagem da obra de Goethe, devem obedecer ao pacto feito com o demoníaco Mefistófeles.

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* Versão adaptada do texto originalmente publicado na Revista Espaço Acadêmico, nº 88, setembro de 2008. Disponível na íntegra em http://www.espacoacademico.com.br/088/88ozai.htm
[1] Bourdieu ensina que não jogar o jogo é o mesmo que decretar a própria ‘morte social’. “A única liberdade absoluta que o jogo concede é a liberdade de sair do jogo por meio de uma renúncia heróica a qual, a não ser que crie outro jogo, não obtém a ataraxia senão à custa daquilo que é, do ponto de vista do jogo e da illusio, uma morte social”, escreve. Ver: BOURDIEU, P. O Poder Simbólico. Rio de Janeiro, Bertrand Brasil, 2000, p.85.
[2] Prevalece o modo TER em detrimento do SER. Como esclarece Eric Fromm: “Ter refere-se a coisas, e as coisas são determinadas e definíveis. Ser refere-se à experiência humana, e a experiência humana, em princípio, não é definível”. E, mais adiante: “O modo Ser tem como requisito a independência, a liberdade e a presença de razão crítica. Sua característica fundamental é ser ativo, não no sentido de atividade externa, de estar atarefado, mas no sentido de atividade íntima, de emprego criativo dos poderes humanos”. Ver: FROMM, E. TER ou SER?! Rio de Janeiro: Zahar Editores, 1977, p.96 e 97.

3 comentários sobre “Somos todos delinqüentes acadêmicos? – Entre a resistência e a adaptação (3)

  1. Apesar de toda a leitura de toda a crítica, o problema é simples. E daí que os representantes da universidade pública são remunerados? Não vejo nada de errado nisso, afinal de conta, sempre o foram. A causa do problema se chama reforma do Estado. Sim, o mesmo que criou a LDB. E ele se traduz em subvencionamento dos serviços sociais e criação das fundações estatais de direito privado. Por que foi justamente a partir do momento em que “permitiram” a criação dessas fundações e, ao mesmo tempo, passaram a paulatinamente cortar as verbas do ensino superior que a lógica passou a se subverter. Afinal de contas qual é a finalidade jurídica de uma fundação estatal de direito privado? Pelo que eu sei é justamente permitir a cobrança de recursos públicos. Resumindo, não vejo problemas em chefes de departamento, de centros de estudos, ou pró reitores receberem remuneração pelo serviço prestado, o problema é parasitar a universidade pública, querer usá-la ou defender o uso da mesma como instrumento para a reprodução do capital.

  2. Caro Ozaí,Saudações cordiais! Gostei muito de seu artigo de setembro na REA, que retoma outros igualmente magistrais. No entanto, neste especificamente, o estilo, as sutis metáforas teologais, a ironia elegante, a auto-ironia, o pressuposto ético kantiano para problematizar a dinâmica de distinção social calcada no produtivismo acadêmico ensimesmado deram-me a impressão que eu estava lendo algo sobre o qual gostaria de escrever há muito tempo, mas partindo de Bourdieu, Elias, Foucault, Bauman e Italo Calvino. Creio que, em certa medida, já o havia feito num curto ensaio intitulado “Da Gentileza Crítica”.Sei perfeitamente o ônus da autonomia e quando, deixando bem claro que não se pretende jogar o jogo, subitamente tornamo-nos, aos olhos de outrem, seres pestíferos – e é quando percebemos quem são os verdadeiros amigos. Quem joga o jogo tão acriticamente, tão conformisticamente, nem percebe, na verdade, que “está morto”, pois, na prática, não acredita que possa acrescentar nada à vida. Ora, mas se não há o que acrescentar, somos então somente animais a seguir as pulsões determinadas pelos instintos e meios ambientais… Logo, um triste começo inconsciente; depois, um triste fim inconseqüente… Aliás, em “Palomar”, no último capítulo, Italo Calvino diz como se “aprende a estar morto”, que eu gosto de usar como pretexto para a discussão ética e solidária do fazer acadêmico, pois, na verdade, trata-se de um pretexto para se afirmar, pelo jogo de espelho, como se aprende a permanecer eticamente vivo. Bauman, por sua vez, explora como (1) o paradigma do consumo, (2) a obsolescência planejada da produção, (3) o individualismo predatório, (4) a criminalização e individualização do fracasso e da pobreza, assim como, (5) a banalização da exclusão interferem nas relações interpessoais e nos modos de figuração social das afeições. Atualmente, fiquei com vontade de resenhar o último livro de Bauman traduzido no Brasil – “Vida para Consumo” (Jorge Zahar, 2008) – com o objetivo de estimular a curiosidade, primeiro de meus alunos, depois dos leitores da REA sobre o conjunto de sua obra. Foi aí que ouvi algo muito emblemático e que seu artigo ecoa perfeitamente: “Mas você vai se dar este trabalho? Qual é o Qualis da revista?…”Desde quando publiquei o artigo sobre “Frankenstein” na REA em 2003 (algo que veio de minha prática docente na FEUDUC), tinha me encantado com a proposta da revista e percebi o trabalho que era manter algo de fluxo mensal, assim como, a sua abertura interdisciplinar que justamente, numa era de exigência burocrática de especialização de perfil para pontuação, “dificulta a qualificação”. Nunca me importei com isso, porque enxergava na revista aquilo que a universidade pública não pode nunca pode deixar de representar: a acessibilidade para a produção acadêmica, pois, o que adiantaria “pontuar para currículo” sem nunca ser lido, como acontecia com a maioria das revistas impressas “mais pontuadas” que apenas serviam como descarga para textos que jamais seriam lidos para além dos avaliadores burocráticos ou, quando muito, por algumas dezenas de pessoas encasteladas em suas respectivas instituições?…O acesso on-line, com uma revista que pretende manter todos os arquivos ou links de artigos acessíveis a qualquer momento e de qualquer lugar, passíveis de serem achados com um jogo eficiente de palavras-chave nos buscadores virtuais, era e deve ser algo verdadeiramente promissor, se por promissor se entender que o nosso fazer acadêmico não se reduz a pontuar no Lattes, mas construir massa crítica e torná-la acessível sem arrogância. Isso me faz lembrar de Paulo Freire, que afirmou certa vez que educar exige comprometimento, pois, tão importante quanto o ensino dos conteúdos, é o testemunho ético ao ensiná-los. É a decência com que realizo tal função. É a preparação científica revelada sem arrogância. É o respeito jamais negado ao educando e ao seu saber, que busco superar com ele… Portanto, tão importante quanto o ensino dos conteúdos, é a minha coerência em sala de aula. A coerência entre o que digo, o que escrevo e o que faço. Assim sendo, sou e serei militante da REA, sob qualquer “Qualis”.A pressão da especialização é algo que me incomoda muito, pois gosto de acionar as ferramentas e/ou debates das diferentes áreas de conhecimento que considero oportunas para o desenvolvimento de minhas hipóteses de trabalho, mesmo que seja para não ser fiel a nenhum campo ou matriz disciplinar específica, pois, ao me colocar no interstício ou fronteira das especializações, enxergo nuanças que cada província intelectual não vê. Disso advém um problema: Se a estrutura de avaliação cobra especialização, apenas combinar especialistas como avaliadores de trabalhos interdisciplinares não basta, pois apenas vão enxergar o horizonte a partir de sua província intelectual. Pelo contrário, precisamos ser ao mesmo tempo montanha e planície, como lembrava Maquiavel, para tentarmos ser bons regentes de “nossos” domínios… O que vejo como autonomia crítico-criativa, que coerentemente estimulo os meus alunos a terem, alguns colegas (estabelecidos e/ou conformistas) entendem como arrogância e algo que pode prejudicar o meu “progresso”. (Aí pergunto a você: Progresso para o quê?… Não pretendo pagar “pedágios” que firam a minha consciência para penetrar e permanecer nesta ou naquela província intelectual). Mesmo porque estaríamos sendo excessivamente escolásticos se pretendêssemos tornar-nos meramente repetidores, decoradores e, oportunisticamente, pregoeiros de idéias alheias. A amálgama doentia de “feudo acadêmico de distinção social” com “avaliação burocrática centrada na especialização”, como você assinalou bem, traz para as ciências humanas um paradigma que não deveria existir sequer para as ciências médicas, biológicas e tecnológicas!… Imaginemos o médico que discrimina o pobre porque jamais debateu em seu curso temas sociológicos, antropológicos e ético-filosóficos – e sequer adquiriu noções básicas sobre a dignidade humana em seu próprio núcleo familiar –; o advogado que se considera bom porque é arguto nas exceções legais; o engenheiro isento de preocupação a respeito do impacto social ou ambiental de seus projetos (“Quem tem que pensar nisso é o ecologista…Caso encerrado!…) –; o ecologista que esquece que o ser humano (em suas configurações sociais díspares) também faz parte do ambiente e deve ser contado quando se pensar em projetos de preservação ambiental – como bem lembrava Chico Mendes –; o economista que apenas enxerga os problemas ambientais quando se tornam um problema para os negócios, ou um mercado de ações de cotas de emissão de carbono entre países pobres e ricos. Enfim, alienação, degradação, pusilanimidade e muito conformismo…A dissonância é um fardo que devemos carregar com alguma satisfação (e, vez ou outra, com melancolia, pois é um mundo hostil que a torna um fardo); mas critiquemos sinceramente por sentir na consciência o descalabro das coisas torpes, e não porque a crítica pode ser lucrativa em determinado contexto de exposição midiática ou perante audiências convenientes e exploradas por suas carências. A crítica não deve ser confundida com a “dor de cotovelo” daqueles que vociferam porque, na verdade, fracassaram em ser aceitos como conformistas… E a tópica bíblica da separação do joio e do trigo permanece, em seus usos laicos contemporâneos, um emblema moral bastante oportuno de ser lembrado – particularmente num ano de eleições municipais!… Caro Ozaí, renovo a cada publicação a minha admiração por Você!…Um abraço e tudo de bom,Alexander(P.S.: Atualize o seu Lattes, hein!… rsrsrsrsrs)

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