Somos todos delinqüentes acadêmicos? – Ainda sobre o Lattes (4)

Talvez o Lattes [1] seja a melhor expressão do mercado acadêmico em que se tornou a universidade pública. O Lattes tornou-se uma espécie de instituição avalizadora do status acadêmico e foi praticamente sacralizado enquanto referência para as decisões no campus. Se você não tem Lattes, não existe. É preciso atualizá-lo. O que está nele é tomado como verdadeiro! Não consta do Lattes, não existe![2] Eis como nos forçam à adaptação.

Há imperativos que não deixam escapatória, mas não é preciso vender a alma. É possível resistir. Nos limites estabelecidos ainda somos senhores das nossas ações. Publicar a qualquer preço, render-se ao “produtivismo” e utilizar-se do vale tudo para “enriquecer o Lattes”, pode até gerar resultados que impressionem e nos deixem “qualificados” para disputar editais, mas não é ético. As exigências éticas que fazemos aos outros nem sempre são lembradas quando se trata dos interesses particulares (ainda que travestidos de “interesse público”). Um dos nossos maiores desafios é manter a coerência entre o discurso e a prática. Nenhum de nós está livre de cair em contradição.

Os organismos financiadores e controladores determinam o que é importante. Somos induzidos à adaptação acrítica, sem questionamento do como e de quem são os que decidem os rumos da comunidade acadêmica. As práticas de mútuo favorecimento e clientelismo são fortalecidas pela necessidade de publicar, de somar pontos e aumentar a “folha corrida”. Estabelecem-se relações de conveniências, pactos de hipocrisias que resguardam interesses recíprocos.

A pressão do Lattes influencia o campus e estimula plágios, comércio de trabalhos acadêmicos, etc. Hierarquiza-se a produção entre os que têm e os que não têm os recursos para financiar a publicação. Há revistas que cobram para publicar e isto é visto por muitos como normal. Se você tem money, não terá maiores dificuldades em conseguir a chancela de uma editora. Algumas delas, inclusive, investem neste filão. Se os autores financiam, publicam. É capitalismo sem risco. Com injeção de dinheiro público, lucra-se antes e depois.

Assim, por que não investir na própria publicação? Por que submeter-se ao mercado se pode organizar a própria editora? Cooperativas de autores não são novidades, como também não é nova a prática de cotizar-se para financiar a publicação. Em determinadas circunstâncias até pode ser desejável. O problema é quando o objetivo deixa de ser divulgar textos, idéias e trabalhos que não têm espaço no mercado editorial e passa a ser simplesmente “fazer o Lattes”.

Aos que não podem financiar seus trabalhos resta trilhar a via sacra e esperar até que, se tiver sorte, surja a oportunidade. Poderá publicar numa editora acadêmica, mas deve ser paciente e esperar os trâmites burocráticos, o que pode demorar anos. Há a chance de ver o livro publicado, mas será bem mais rápido e fácil se tiver o dinheiro.

A pressão pela publicação tem o efeito “positivo” de estimular a criatividade e “solidariedade” entre os indivíduos. Organizamo-nos para publicar uma obra, pois sabemos o quanto é importante para o coletivo. Pode ocorrer que este seja prejudicado devido à baixa produtividade dos docentes, com o risco de não ter recursos necessários para os projetos, que a pós-graduação seja inviabilizada e que os alunos não tenham a chance de aprovar seus projetos de pesquisa. O Lattes precisa ser “enriquecido” em prol da coletividade; precisamos mostrar produtividade. Organizemos, então, uma obra com artigos de todos – não importa sobre o quê, nem se será lido. Melhor ainda se tivermos verba para publicar e garantir a chancela da editora.

__________
* Versão adaptada do texto originalmente publicado na Revista Espaço Acadêmico, nº 88, setembro de 2008. Disponível na íntegra em http://www.espacoacademico.com.br/088/88ozai.htm
[1] Escrevi sobre este tema na REA, nº 46, marco de 2005. Ver “A corrida pelo Lattes”. Sugiro também a leitura do artigo “Latindo atrás do Lattes”, publicado por Francisco Giovanni David Vieira na REA, nº 73, junho de 2007, disponível em http://www.espacoacademico.com.br/073/73vieira.htm
[2] Recentemente, por exemplo, fui avaliado como possível orientador para o PIBIC e reprovado. Justificativa: Lattes desatualizado (ainda que houvesse enviado, segundo formulário interno, a relação solicitada da “produção intelectual”).

5 comentários sobre “Somos todos delinqüentes acadêmicos? – Ainda sobre o Lattes (4)

  1. As mudanças estão acontecendo numa velocidade difícil de ser acompanhada. Sem se aperceber, entramos na era da informação; estamos num mundo de portas escancaradas. O hoje se sabe (e todos sabem) o que sabemos. Provavelmente saibam mais. Se digitarmos o nosso nome num site de busca, ali aparecerão informações a nosso respeito que não sabíamos ou não nos lembrávamos. Fomos jogados para fora nos nichos da academia e nos encontramos nus numa multidão de idéias e de saberes. A delinqüência acadêmica está em apuros porque também está sendo desnudada e talvez à procura de caminhos para a sua sobrevivência. Periga que saiam na frente das pessoas sérias.Quando eu estava pensando em abrir um blog li uma “justificativa temerosa” do Ozai do que iriam (os delinqüentes?) pensar dele em tornar públicas as suas idéias. Hoje as suas reflexões são esperadas para serem lidas. Sempre escrevemos para os outros, para os nossos leitores. Por que não registrar isto no Lattes? E assim seremos avaliados positiva ou negativamente. Eu estou numa situação pior que a o Ozai: como aposentado, relaxei no preenchimento do Lattes. Portanto a minha produção ainda não existe. Os registros do Lattes são a porta para o “mercado do saber”. Uma boa coisa do Lattes é o cruzamento de informações. Por exemplo: quando registro a participação numa banca ali estarão os nomes dos meus pares e o do examinando. O meu nome deverá estar registrado em outros cinco currículos Lattes. Se por um lado elimina a papelada, por outro lado podemos achar que o Lattes seja uma das facetas do Grande Irmão de Orwell. Mas uma faceta à nossa disposição. Preciso atualizar o meu Lattes!Abraços,M.Cherobim

  2. Ozaí, a sua série de artigos sobre a delinquência acadêmica, retrata parte dos diversos tipos ou aspectos de delinquências praticadas nas universidades. Umas decorrentes das outras. Ignoro qual seria a pior, se os agentes corruptos e incompetentes que agem impunemente nos poderes e organizações empulhando nossa gente ou, se a servilidade e conformismo dos atuais. Não se coloca cabresto em professor impunemente. Professor que é professor não se sujeita a controles de medíocres pois as vítimas serão os alunos. E a sociedade.A produção científica, mesmo expropriando conhecimentos alheios sem reconhecer os méritos dos legítimos criadores, é muito importante, mas a formação de jovens é muito mais. O País precisa de todos não só dos que escrevem e publicam. A situação está tão surrealista – para não dizer ridícula – que outro dia numa reunião, doutores dentre outros, cobravam de um burocrata do TCU – Tribunal de Contas da União a criação de um sistema de avaliação com parâmetros tipo o IDH – Indice de desenvolvimento humano para se aferir a boa utilização dos recursos públicos. Até daria para se entender se não estivéssemos dentro de uma das boas universidades. O País está assim, técnicos que deveriam fiscalizar gastos públicos recebendo sugestões de doutores que, ao invés de estarem criando métodos e sistemas de avaliação, inclusive quanto ao desempenho desses agentes, tentando fiscalizar a aplicação de dinheiro público sem o devido preparo intelectual nem atribuição oficial. Temo que sob o rótulo de produção científica o que se esteja produzindo mesmo são espertalhões. Com direito a Lattes. Já pensou se os espertalhões de diversas áreas e diversas instituições se reunissem em torno de um abacaxi para desenvolver a pedagogia do abacaxi, a psicologia, a engenharia, a contabilidade, a economia, a administração, a estatística e assim por diante, até a filosofia, todas elas do abacaxi? Todos pontuando seus ricos currículos e publicando, enquanto os que realmente entendem de abacaxi se espinham… e são espoliados…Ozaí, parabéns por essas reflexões e, de próprio punho, não pagando para alguém escrever, manifestar seu inconformismo sem pensar no Lattes ou em faturar por fora. O trabalho desgastante, honesto e útil não é remunerado ou reconhecido tanto quanto os dos gigolôs dos abacaxis, tidos como mais produtivos. Seria esta uma outra faceta da delinquência acadêmica que praticamos?

  3. Prof fico agradecida por suas palavras. Em relação à esta publicação “desvairada” pelo lattes minha reflexão vai além da questão etica e o prazer? Isso o prazer de escrever, pesquisar, ler com calma, dar um carater pessoal ao seu trabalho, onde fica? Afinal a escolha do trabalho intelectual demanda mais que uma mera ação mecanica e agil, pois é isto que está ocorrendo, com alunos que trabalham um tema, recortam partes de trabalhos reescrevem e vão publicando aqueles pedaços dos pedaços(…) E a satisfação? O gosto da edéia? Parece então ilusorio quem não entra neste processo é engolido, mas que valor temos que dar para estes trabalhos uma soma com pouca qualidade ou copias e mais copias que não acrescentaram em nada no mundo academico(…) A formação não será mais de intelectuais completos ou especializados ou ainda intelectuais ativos será a produção em serie de profissionais padronizados eficiêntes e pouco criativos. Realmente é uma dificil escolha mas acho que manter-se a margem de certa maneira é mais realizador satisfatorio, claro sempre correndo o risco de como Lima Barreto viver injustiçado…Bem é isto, otima serie de texto, daria um bom coloquio ou seminario(…) Abraços

Comente!

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s