Reflexões sobre o preconceito racial

“O preconceito é uma opinião desprovida de julgamento. Assim, em toda terra, se incutem às crianças as opiniões que se quiser, antes de elas poderem julgar”
(Voltaire)

O preconceito e o racismo estão historicamente vinculados a situações de exploração, nas quais os mais fortes, política e economicamente, extraem vantagens materiais. É um círculo vicioso que reproduz a condição de opressão racial e os racistas. Historicamente, portanto, o racismo se funda em bases econômicas que intensificam a desigualdade social e racial. Por isso, alguns imaginam que modificadas a base econômica supera-se o racismo. A história demonstra que não é bem assim! O preconceito racial interioriza-se, sobrevive por gerações e mostra-se renitente, mesmo com a evolução da ciência e das transformações sociais.

A insuficiência da explicação economicista mostra a complexidade da questão racial. Na medida em que a recusa do diferente está presente em todas as época e sociedades, não seria o preconceito algo arraigado e próprio da natureza humana? Uma dificuldade inerente ao humano de se reconhecer no “outro”?

O conceito de natureza humana é controverso. Há quem explique os fenômenos sociais apenas por uma característica que estaria intrinsecamente vinculada à natureza biológica, naturalizando-se as diferenças e relações humanas. Há os que enfatizam os aspectos sócio-econômicos e relativizam a sua natureza animal – instintiva – e, mesmo, os aspectos psicológicos.
Assim, embora seja essencial adotar medidas econômicas e políticas que inibam atitudes preconceituosas e mesmo que os distúrbios psíquicos sejam tratados e equacionados satisfatoriamente, o preconceito resiste e permanece latente, ressurgindo no cotidiano, nas coisas mais simples ou em situações de crise sócio-econômicas. Um exemplo típico é a revitalização do preconceito contra os imigrantes em geral em épocas de intenso desemprego; contra os negros quando estes são vistos como uma ameaça à classe média branca na disputa pelas vagas nas universidades públicas, etc.

O preconceito deve ser combatido e é possível educar nossas crianças, e a nós mesmo, no sentido de superá-lo. Todavia, é muito difícil vencê-lo quando está inculcado e arraigado nas mentes e corações. Então, o preconceito torna-se uma patologia, talvez curável por uma experiência muito intensa e traumatizante ou a morte! Lembro-me da cena em um filme: as pessoas sinceramente se emocionavam e choravam diante do discurso de um branco sulista e racista. Contra esse tipo de gente não adianta argumentos racionais. A inibição legal ou econômica pode induzi-lo a escamotear o racismo e o preconceito, mas estará lá como uma fera adormecida.

Se o “horror às diferenças” não explica por si o preconceito, penso que não se pode desconsiderar o peso que o estranhamento diante de uma situação, algo ou alguém diferente, tem no processo de manifestação do preconceito. Nesse sentido, talvez o passo mais importante para combater o preconceito seja partir do auto-reconhecimento deste. O preconceito pode adquirir gradações diferentes: a eventual repulsa inicial pode se consolidar numa atitude/sentimento de rejeição ou de aceitação do outro.

Fico a refletir sobre as relações pessoais que construímos e sobre a responsabilidade que temos como pais, educadores, etc. O preconceito é como uma sombra que nos persegue, um veneno que nos mata lentamente. Ele resiste às terapias conscientes ou inconscientes. Quantos preconceitos se escondem sob a hipocrisia das relações sociais fundadas nas aparências e nos discursos racionais que proferimos? Em qual recanto da nossa alma os escondemos?

7 comentários sobre “Reflexões sobre o preconceito racial

  1. Concordo integralmente com sua linha de raciocínio sobre o preconceito e o racismo. Mas não sou especialista no assunto. No final do ensaio, achei exagero afirmar que o preconceito “resiste às terapias conscientes ou inconscientes”. Claro, o racista até pode ser “resistente” as terapias conscientes ou inconscientes” (conforme seu texto), mas as pesquisas (para além da minha experiência clínica) confirmam que as terapias e experimentos psicopedagógicos (como “Olhos azuis” conduzido pela educadora Jane Elliot), confirmam bons resultados de diminuição do racismo ou superação dos preconceitos. O pesquisador que mais contribuiu para trabalhos psicopedagógicos contra o preconceito foi Kurt Lewin, um judeu alemão que no período nazista emigrou para os EUA. Foi como pesquisador do MIT que ele realizou interessantes experimentos em grupo, criou as técnicas de Dinâmica de Grupo, que até hoje podem ser usadas para sensibilizar as personalidades duras, ou desenvolver “EMPATIA” nas pessoas cuja psique é atrofiada. Para ele e seus discípulos, o trabalho sobre os preconceitos deve ser EM GRUPO, para cada sujeito REATUALIZE seus “recalques” e CORRIJA SUA PERCEPÇÃO NO PRESENTE COM OS SEUS PRÓXIMOS. Assim, é possível a superação desta posição quase patológica [preconceituosa] de não aceitar o outro. SUGIRO ASSISTIR O EXPERIMENTO “OLHOS AZUIS”, disponível na internet- legendas em português: http://www.youtube.com/watch?v=N-1EPNmYKiI

  2. Estimado Ozaí sou a Ana Maria Souza a sua reflexão sobre o preconceito racial é algo que está presente em nosso cotidiano. Nas escolas principalmente ele prolifera sem nenhum movimento para detê-lo. Sinto que os colegas até acham banal com por exemplo o professor entrar na sala saudar os alunos com bom dia e um certo aluno responder para o professor negro boa noite. Fizeram este comentário sentido-se ofendido e os colegas afirmar que respondem bom dia para quem é do dia e boa noite para quem é da noite. Eles esquecem que está embutido o preconceito impregnado pelo racismo.axe3182@terra.com.br

  3. Lembra-se do filme O Carteiro e o Poeta, baseado na obra de Pablo Neruda? Pois bem; eu interpreto um papel parecido ao que não é o de poeta. De uns cinco anos para cá, me aceitei nas minhas condições e retirei preconceitos da minha mente, que tinha sobre mim mesmo – é o amadurecimento da existência – e, assim vivo melhor. Insisto em dizer que muitos fazem preconceitos de si próprios.

  4. Profº à respeito de sua reflexão sempre me pergunto se este comportamento não estaria impulsionado pela necessidade humana de oprimir o diferente, o outro. Vejo ao longo da historia a opressão e discriminação manifestada de diversas formas, tudo que esta fora dos padrões socialmente aceitos e confortaveis para serem seguidos é rejeitado, excluído, mas quem dita estes padrões? Quem indica o modo “certo” das relações? Penso que somos “produtos e espelhos sociais” mas muitos comportamentos foram dismistificados e permanecemos reproduzindo fabulas pré-conceituosas, talvez seja pelo conforto ou para manutenção da hierarquia, a diminuição do outro para menor concorrencia ou ainda mais grave pela sensação da opressão que permanece ainda que revelada a grande farça e taxada de criminosa a descriminação racial permanece, talvez pior que o ato descriminatorio é a sua negação, afinal se o ato é neutralizado pela alegação de sua inesistência como apontar o culpado e combater este crime?(…)

  5. Estimado Ozai:Muy reflexivas vuestras ideas sobre los prejuicios raciales, estructuras de larga duración que se reafirman en los actuales tiempos de globalización. Vuestro texto me hizo recordar las ideas del sociólogo Octavio Ianni. Podrías alcanzarnos, en resumen, hasta donde llegó este sociólogo brasileiro respecto a esta temática de actualidad.SaludosCesar Espinoza ClaudioUNMSM, Lima, Perú

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