Somos todos delinqüentes acadêmicos? – Efeitos e conseqüências (5)

“O problema é a insistência na produtividade, sem a menor preocupação com a recepção do trabalho. Perdeu-se o equilíbrio entre esses dois elementos – a produção e a recepção” (WATERS).[1]

Os efeitos dessa “corrida maluca” pela produtividade são nefastos e influenciam o cotidiano acadêmico desde a graduação. Logo cedo, os graduandos aprendem a jogar o jogo e percebem a importância de “encostar” na pessoa certa, a que abrirá as portas para o mestrado.[2] Por experiência concluem que o mais importante não é necessariamente o projeto de pesquisa ou o saber, mas sim conquistar a “proteção” dos mais “produtivos”, os que têm o Lattes mais extenso e ocupam postos chaves no campus. Percebem que para se dar bem na carreira acadêmica precisam aceitar certas práticas e relações nem sempre justas e éticas.

O clientelismo caminha de mãos dadas com a bajulação, a adaptação e a submissão acrítica à linha teórica e ideológica do “protetor”. Em lugar de favorecer a autonomia do educando, investe-se na subordinação, na formação de séquitos e discípulos dispostos a defender a verdade do mestre, mas incapazes de pensar pela própria cabeça. [3] Nem é preciso ser bom aluno, basta apenas se dar bem com o professor “X”, ainda que reprove ou se saia mal em outras disciplinas.

É um jogo de mútuas vaidades. Os neófitos miram-se nos exemplos que têm diante de si, aprendem a serem servis e tornam-se catedráticos na arte da dissimulação. O servilismo tende a se aprofundar na medida em que aumenta a concorrência para ingressar na pós-graduação e é reproduzida nesta.

Pressionados pela exigência de mais e mais produtividade, os docentes reproduzem o servilismo na relação com os órgãos superiores. Mutilam-se para atender as normas e regras burocráticas decididas por um grupo seleto de indivíduos, os quais agem como deuses no Olimpo, cujas decisões são imperativas e moldam a prática cotidiana da maioria. Esta se submete. A perda do senso crítico e submissão à ordem acadêmica talvez representem o efeito mais infausto e preocupante.

As diretrizes emanadas dos órgãos superiores, e acatadas incondicionalmente no campus, favorecem o intelectual especialista. Valoriza-se o saber burocratizado, disciplinado, prisioneiro de fórmulas e padrões tidos como de caráter científico. A forma passa a ser mais importante que o conteúdo. O discurso da interdisciplinaridade não suplanta práticas fundadas na especialização. Os critérios de avaliação desses organismos pressupõem consistência na área de pesquisa, ou seja, que os pesquisadores se atenham aos mesmos “objetos”, por anos, décadas…

Ao anuir com os critérios positivistas da medição matemática do saber, como se este pudesse ser verdadeiramente mensurado, numa clara rendição às áreas do conhecimento acadêmico que priorizam a quantificação e também aos princípios mercadológicos cada vez mais influentes no campus, acentua-se o “produtivismo”. Na medida em que se prioriza a quantidade, compromete-se a qualidade. Claro, há muitos interesses a defender e é melhor não colocá-los em risco. Prevalece a mentalidade burocrática e conformista. A mediocridade caminha de mãos dadas com o conformismo.

O resultado é um ambiente acadêmico cada vez mais estressante e deprimente, com indivíduos conformistas e apegados a interesses mesquinhos, fechados em feudos e lançados numa corrida desenfreada para conquistar status e recursos materiais. O sonho do sucesso, do reconhecimento dos pares, passa pela aceitação acrítica da ideologia produtivista. A “Casa de Salomão” imaginada por Francis Bacon tem mais o aspecto de um imenso “cemitério dos vivos”.

__________
* Versão adaptada do texto originalmente publicado na Revista Espaço Acadêmico, nº 88, setembro de 2008. Disponível na íntegra em http://www.espacoacademico.com.br/088/88ozai.htm
[1] Ver: WATERS, L. (2006) Inimigos da esperança: publicar, perecer e o eclipse da erudição. São Paulo: Editora da Unesp, 2006, -p.25.
[2] É preciso considerar o contexto em que ocorre este intercâmbio. A racionalidade instrumental que impulsiona docentes e discentes faz parecer que a troca é entre iguais e que é justa. Ver “A corrida pelo Lattes”, já citado.
[3] Bem diferente das experiências que tive com os meus orientadores, os quais respeitaram e investiram na autonomia e crescimento humano e intelectual. Ver “Maurício Tragtenberg e a Pedagogia Libertária: anotações sobre a experiência do fazer a tese”, REA, nº 36 maio de 2004, disponível em http://www.espacoacademico.com.br/036/36pol.htm

9 comentários sobre “Somos todos delinqüentes acadêmicos? – Efeitos e conseqüências (5)

  1. Existe gente de todo tipo, que vivem as mais variadas situações. Existem, é claro, pessoas que se tornam dependentes dos mestres. Mas conheço poucas assim… pelo menos no meu círculo de amizades não tem ninguém (quase ninguém…). Vai muito da cabeça da pessoa e da situação. Eu mesmo, sou muito dificil de me vender. Se meu futuro depender disso, posso vir a ter problemas. Mas creio que nada se compara ao talento e, sobretudo, ao esforço.

  2. Existe gente de todo tipo, que vivem as mais variadas situações. Existem, é claro, pessoas que se tornam dependentes dos mestres. Mas conheço poucas assim… pelo menos no meu círculo de amizades não tem ninguém (quase ninguém…). Vai muito da cabeça da pessoa e da situação. Eu mesmo, sou muito dificil de me vender. Se meu futuro depender disso, posso vir a ter problemas. Mas creio que nada se compara ao talento e, sobretudo, ao esforço.

  3. Lendo seu texto na Revista Espaço Acadêmico, lembrei de Umberto Eco, em Apocalipticos e Integrados. Grande Umberto.Parabéns pela manifestação em nome de muitos de nós, não-delinqüentes. Não, nem todos são. Felizmente. Continuamos na luta.Hilda Alevatowww.nestuff.blogspot.com

  4. Ozaí, realmente é impressionante o descompasso entre a produtividade e a recepção dos trabalhos. Um colega que fizera um PIC antes de mim, me alertou: “Voce se esforça durante um ano, trabalhando sobre um tema, para depois ele se perder no “arquivo morto” da UEM. Acho, inclusive, que seu trabalho seja enterrado sem que ninguém tenha lido, além de seu orientador, é claro”. Tenho conversado com muitos colegas acerca das monografias, e poucos estão satisfeitos com seus orientadores. De forma geral, o orientadores não incentivam e não orientam os academicos no sentido de produzirem um trabalho mais “sólido”, mais requintado, que possa inclusive, tentar alguma publicação. Pelo contrário, os orientadores incentivam os academicos a não terem maiores pretensões, mas a fazer o “feijoãozinho com arroz” para se formar. Incentivam um trabalho superficial, que seja tão somente “quadradinho” e burocrático, para cumprir a exigÊncia do curso. O sistema é em essencia positivista. Só importa a produtividade (ou sua aparencia), sem preocupação com qualidade. Aliás, ao que parece, os números são a qualidade padrão de nossas instituições de ensino, mesmo e sobretudo a universidade.

  5. È verdade, Ozaí, que muitos academicos se dispõem a taquigrafar o que seus orientadores “determinam”. E apesar disso, podem se tornar bom pesquisadores, absorvendo a forma de trabalho e mesmo de reflexão de seu orientador. Duro é quando nós escolhemos um tema de pesquisa e de reflexão que nenhum orientador se interessa. Sofri isso na pele. Então, ainda que algum professor se apiede de nós, fazemos um trabalho praticamente solitário, e não encontramos nenhum interlocutor, senão os próprios autores que estudamos. E fico pensando, como esses professores, que não se interessaram por discutir nosso tema, se comportarão diante de nós na banca? A desvantagem e o risco que corremos em fazer uma pesquisa “independente” é muito grande. Mas, é correr esse risco e trabalhar dobrado e solitariamente, ou aderir ao clientelismo da política academica.

  6. Faz alguns dias que não tenho tempo para ler quase nada além de coisas do trabalho, mas o e-mail desta postagem me deixou curiosa.Assisti a um filme por esses dias chamado “Um longo caminho”. Quando Takata visitou uma aldeia chinesa a procura de ajuda para concretizar seu objetivo, ele se surpreendeu com pessoas simples que o ajudavam por ajudar (por bondade vamos dizer). Reconhecemos que essa nobreza de ação não existe mais, especialmente nas culturas dadas ao culto ao estrelismo. Em todo canto que se vai há pessoas assim, almejando virar estrelas em suas respectivas profissões, e isso não é diferente no meio acadêmico. Ninguém mais faz coisas por fazer, sem interesses ou por altruísmo, um médico não trata do doente pelo sacerdócio da sua profissão, um político não representa seu município por dever pátrio, um escritor não escreve um livro para levar conhecimento ou emoção… todos os profissionais fazem o que fazem hoje, para ganhar um “prêmio” e manter a máquina industrial da economia moderna.Estou sempre puxando conversa com as pessoas (sem querer, meu 1/4 de descendência italiana é que manda), e a maior relutância na reciprocidade da conversa está justamente nas pessoas dadas a esse estrelismo. De duas uma, ou eles falam para converter o outro, ou se fecham para não dar a “honra” de compartilhar suas palavras. É isso no meio acadêmico, tanto quanto em qualquer outro meio. E quando há grupinho disso e daquilo, chefe daqui e dali é tão fácil excluir quem não se encaixa. Como ninguém quer ser excluído, todos querem beber do “maná celeste” das estrelas, servilismo sim é o que mantém o séquito (e o reino).Infelizmente, não parece haver perspectiva de mudança. Nenhum movimento individual ou coletivo parece fazer ver que a premissa está falha. Não, o saber não pode ser medido. Nossas teorias, escolas, regras, governos envelhecem com uma rapidez tão grande, e as pessoas ainda estão brigando por posições ambíguas, querendo aprovação. É de Paulo Freire a frase: “Ninguém ignora todo, ninguém sabe tudo. Por isso aprendemos sempre”.

  7. “O resultado é um ambiente acadêmico cada vez mais estressante e deprimente, com indivíduos conformistas e apegados a interesses mesquinhos, fechados em feudos e lançados numa corrida desenfreada para conquistar status e recursos materiais”Triste mas ainda devem ter alguns a se salvar…

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