A arrogância dos neófitos

Não fecho os olhos e silencio diante da arrogância titulada.[1] A postura arrogante na docência é agravada pelo doutorismo e outros títulos acadêmicos. As relações humanas no espaço acadêmico são, também, relações de poder. O poder docente, investido e legitimado pela instituição burocrática, nem sempre é praticado responsavelmente. A atitude arrogante é a sua face perversa, cujas vítimas são, em geral, os acadêmicos (mas também os funcionários, em especial os que desempenham as funções mais simples).[2] Essa prática caminha pari passu com o autoritarismo.

Contudo, a arrogância campeia livremente e não é exclusiva dos titulados nem do campus. O fetiche do diploma apenas a agrava, na medida em que expande o seu raio de ação e, portanto, as possibilidades de privilegiar ou prejudicar os outros. A vaidade e as atitudes arrogantes parecem inerentes ao ser humano e se manifestam em qualquer idade ou espaço. Meninos e meninas mimados são geralmente prepotentes[3]; determinados indivíduos, educados por valores de distinção vinculados ao grupo social que pertencem, são arrogantemente preconceituosos.

Tudo isso é muito humano e… irritante! Como também é exasperador as manifestações de arrogância observáveis entre os neófitos. Leitores de um livro só, de um único autor, consideram-se suficientemente “sábios” para criticar aqueles que não comungam das idéias que “pescaram” em tais leituras e adotam como verdades absolutas. Recusam-se, consciente ou inconscientemente, a ouvir a crítica; se é solicitado que analisem o pensamento oposto ao que acreditam ser a verdade, valem-se do discurso ideológico sem a preocupação de compreender. Em alguns casos, é suficiente os slogans e alguns conceitos memorizados para se acreditarem capazes e com o direito de desqualificarem os outros. Falta-lhes a humildade intelectual necessária para aprender e dialogar criticamente. Agem religiosamente, como os que se fundamentam no “livro sagrado” e não admitem a dúvida. Estes acadêmicos, a bem da verdade, seguem os exemplos de cima. Arrogantes ensinam a arrogância, ainda que travestida de ideologia!

Mas também há o arrogante ingênuo. Diferente do “ideológico” que se espelha no ideário do “profeta maior” e acredita piamente que representa o bem contra o mal e cumpre uma “missão” pelo bem da humanidade, o ingênuo age por vaidade apenas porque se acha inteligente. É um abençoado! Nessa ilusão de si mesmo, a leitura de fragmentos da obra de um autor específico, mais o que ouviu aqui e acolá, é-lhe suficiente para considerar-se quase que um gênio capaz de sobrepor-se ao clássico. Embevecido, não vê o ridículo da situação e descarta a atitude de humildade perante o conhecimento humano, fundamento necessário para o aprendizado e o diálogo crítico.

Quanto mais leio, mais me convenço de que sei muito pouco; que o meu saber é uma gota d’água no oceano do conhecimento universal humano. Quanto mais vivo, mais me admiro com a arrogância de certos jovens acadêmicos, pirralhos que mal sabem pronunciar frases articuladas e com sentido, e outros de qualquer idade, cuja verborragia ostentatória, pedante e superficial confundem com saber. Falam como se fossem os mais inteligentes de todo o universo. Também é exasperante a arrogância militante dos neófitos que agem como discípulos dos “profetas” maiores e menores, como papagaios a repetirem slogans e verdades “sagradas” que configuram um discurso ideológico auto-suficiente e tipicamente religioso. Apesar de tudo, tento compreendê-los e ser paciente. Afinal: “Homo sum, humani nihil a me alienum puto” (Sou homem, nada do que é humano me é estranho).[4]

__________

* Imagem: Francisco José de Goya y Lucientes. Asta su abuelo, da série Los Caprichos, 1799.
[1] Alguns dos textos publicados na Revista Espaço Acadêmico, por exemplo, expressam a minha preocupação e reflexão sobre as conseqüências desse tipo de comportamento.Ver: “Aqui jaz fulano de tal… e a sua superioridade”, REA nº 30, novembro de 2003; “Sobre a vaidade no campo acadêmico”, REA nº 45, fevereiro de 2005.
[2] A rigor, todos somos funcionários, servidores. A necessidade de distinção, porém, nos separa pelas funções que desempenhamos e isto se reproduz até nas entidades que, em tese, nos representam. Há quem se considere a nata, o supra-sumo no campus e que todos devem estar ao seu dispor. Aliás, esse tipo de argumento e atitude elitista fundamenta a antidemocracia no campus.
[3] Ver: “Meninas e meninos mimados”, publicado em 15 de setembro de 2007.
[4] Frase atribuída a Publio Terêncio, escravo liberto e poeta latino (cerca de 190-159 a.C.).

16 comentários sobre “A arrogância dos neófitos

  1. E esta arrogância acadêmica é legitimada quando os docentes universitários aceitam carreiras que qualificam o trabalho do professor que está no inicio da carreira como sendo 6 vezes inferior ao trabalho daquele que está no topo da carreira, como ocorre com atual carreira para as universidades federais. Com os adicionais e as bolsas a que os do topo da carreira tem acesso essa diferença torna-se abissal. Isto desvaloriza toda a carreira docente.

  2. Zoai, tu tem razão. Gosto muito de uma frase do Frei Beto” o homem pensa de acordo com o lugar onde seus pés estão” Quanto mais produzimos um saber militante, voltados transformação da realidade, mais podemos nos afastar da arrogância, que e típica do academicismo.
    Abraço.
    Lafaiete. Neves

  3. Texto incrível!
    Preciso lê-lo todo dia.
    Ainda não passo de mero “arrogante ideológico”.
    Nestas horas que eu vejo que minhas verdades absolutas não passam de meros castelos de cartas.

    Muito bom quando alguém nos abre os olhos e nos coloca diante do espelho.
    Obrigado!

  4. Meu amigo, você se superou nesse texto. É verdade que sua fala é sempre embasada naquilo que conhece profundamente que é a alma acadêmica. Concordo com a frase: “Arrogantes ensinam a arrogância, ainda que travestida de ideologia!” Mas acredito também ser uma questão de caráter deformado ou com formação familiar errada, pois quem tem caráter, mesmo sendo jovem, não se deixa levar por atitudes desumanas tão destruidoras mas encontradas em grande escala na academia e em toda a sociedade. É a famosa prática da “carteirada”, do “você sabe com quem está falando?”, que leva as pessoas mais despreparadas a se esconderem no diploma (muitas vezes comprado, pois existe a indústria de TCC, monografias, dissertações e teses) e nas frases feitas de um autor só, como você bem lembrou. Parabéns, amigo!

  5. Professor Ozaí,Muito interessante sua abordagem sobre esse e outros temas tratados no seu blog, sobretudo os direcionados a área da educação, que, ou contrário de ser um assunto restrito os “especialistas”, deveria ser amplamente discutido e debatido por todos, não interessando a autoridade do título. Alíás, será que esse “loteamento” no que se refere as áreas do seber, distinguindo quem é “competente”para tratar de determinado assundo, também não contribui para aprofundar os espaços de poder e a vaidade academica? Por que essa insistencia em jamais socializar o saber? Penso que um antidoto para as vaidades academicas seria retormarmos a máxima de Antonio Gramsci, de que o fato de uma multidão de homens pensar coerentemente a realidade é um fato filosofico muito mais relevante do que a descoberta, por um gênio filosofico, de um verdade que se constituirá patrimonio de poucos. Quem sabe ensinado isso sistematicamente nas universidades – voltando tb a questão de quem educa o educador – teremos chence de superar essa marca de nosso atraso cultural.Abraços,Ana Paula

  6. Grande Antonio,O seu xará, Prof. Antonio Cândido, costumava sempre repetir em sala de aula que dois requisitos são imprescindíveis a quem quiser dedicar-se às lides intelectuais e/ou acadêmicas: 1) Humildade; 2) Trabalho, muito trabalho.Podemos ver que o primeiro é “avis rara” em diversos ambientes do meio acadêmico, mormente em blogs, revistas virtuais, fóruns e listas de discussão. Nem entro no mérito do segundo requisito.Quanta soberba e arrogância!!! Quantos “donos” da verdade!!!. E falam as maiores asneiras com tom doutoral, seguro, altaneiro, infenso a críticas. Quando questionados respondem com agressividade e tentativa de desqualificar quem os questiona ou, apenas, deles divergeAgora, por exemplo: queria ver o que diriam hoje aqueles “doutores” que invectivam contra a interferência do Estado na economia quando vemos a intervenção do governo dos EUA no mercado financeiro, despejando 700 bilhões de dólares para tentar conter a crise. E os governos da França e Alemanha praticando o mesmo tipo de intervenção para sofrear o colapso do mercado global desregulamentado.. Queria ver o que diriam os “apóstolos” do mercado, aqueles que pregam a existência do auto-controle do próprio mercado em relação a si mesmo, quando vemos o mercado completamente descontrolado e precisando de interferência estatal para minimizar a bancarrota. Vemos a socialização do prejuízo, como antes víamos a privatização do lucro.Queria ver, enfim, o que diriam os fãs ardorosos da política e economia dos EUA e pastores do liberalismo, ao constatarmos a falência do modelo liberal (ou neo, ou pós-) de gestão econômica de mercados desregulamentados.Só queria ver, porque não verei: foi tal a empáfia e presunção desses “doutores” e “economistas” ao disseminarem sua apologia ao liberalismo econômico, que acabaram puxando o chão de sob os próprios pés, e agora não têm o que falar, o que explicar, o que argumentar. Estão recolhidos e solitários em seus obscuros gabinetes universitários ansiando por serem esquecidas suas teses.Cadê os liberais e defensores dos EUA? A crise comeu…O neoliberalismo é uma falácia, e as facécias de seus epígonos caem por terra. E agora, José? De quê adiantou tanta auto-suficiência “teórica”? Tanta “perspicácia” intelectual?Soberba, arrogância, presunção para suprir falta de argumentos e conhecimentos não levam a nada. Humildade e Trabalho, muito trabalho, dizia Antônio Cândido. Mas quase ninguém ouviu, nem aprendeu.Um abraço a todos.

  7. Fui lá no Café pra conhecer e li “Reflexões sobre o preconceito racial”, depois de ler este texto, penso:Ambas matérias tratam de preconceito, maneiras diferentes de se apresentar, mas sempre preconceitos e por cima de tudo, a cereja do bolo, Sra. Vaidade…Gosto de vir aqui ler, aprendo mais.bijok

  8. Reconheçamos nossa própria ignorância!Realmente, quanto mais lemos e conhecemos idéias, teorias, constatamos que não há limite ao conhecimento. Mas para a ignorância há limites. E, como Sócrates advertiu, devemos sabê-los.No entanto, muitos são os que preferem manter-se nos limites do que decidiu estudar, talvez por proteção, ao levantar muros contra a discórdia.E assim, mantêm-se nos muros da academia que, permite tais limites. Abraço.

  9. Ozaí, como sempre suas palavras são aquilo que várias e várias vezes penso sobre alguns de meus colegas, futuros arrogantes, e até mesmo meus professores!!!No entanto, fico espantado também como as coisas estão funcionando atualmente. Se formos estudar este tema profundamente, veremos que estamos produzindo pensadores que estudam cada vez coisas menores, se espcializando tanto que ao final de um doutorado percebem que sabem muito pouco sobre quase nada. Essa foi uma conversa em que tive com uma alemã. No começo não entendi muito bem, mas a Europa também sofre desse mal. Ela classificava alguns de seus doutorando como “Bá Idioten”… Eu nçao consegui traduzir, mas ela quis dizer dos idotas que está produzindo. Todos serão doutores das maiores universidades. Quando chegam as cadeiras de professores ou ao mercado de trabalho, comportam-se como patetas, verdadeiros profetas, donos da verdade, da luta superior do ebm contra o mal. Estudar é importante, no entanto, humildade e desconfiômetro, FUNDAMENTAIS!Abraços OZAÍ!Sempre ótimos temas para nossos comentários. Parabéns pelo blog.ABRASSSSSSSSSSSS

  10. A aprendizagem é uma troca incodicional, mas quando o emocional domina por se considerar um sábio ou cientista, termina prdendo a razão e partindo para um conflito. Sabe mais aquele que demonstra nada saber, mas sabe cuidar bem de suas ovelhas, e as alimenta com uma forma que haja uma percepção unida de dar e receber. Quando uso uma linguagem alta os meus alunos me advertem, na sala não tem somente súditos. Se o professor é Reis tá perdido. TOMA LÁ DA CÁ, sem arrogãncia.

  11. Caro Ozaí!!Concordo com todas as indicações que fez no seu texto. Percebo que o conhecimento para os estudantes,desde o Ensino Fundamental até Doutorado, perdeu o sentido próprio. Os mesmos consideram que estudar é importante porque vai levar à algum lugar. Neste sentido, o processo de ensino-aprendizagem ganha uma aparência mercantil, a preocupação com o título supera a preocupação com o aprendizado. A “politicagem” (a má política ou a política às avessas)perpassa todo este processo e impede que um processo virtuoso ocorra. E, penso que você toca num ponto vital ao dizer que a questão é “humana”, ou seja, não adiante jogar a culpa disto numa “entidade” ou instituição, principalmente se pensarmos na Universidade, onde aqueles que deveriam agir e pensar como os mais esclarecidos (detentores de um saber sistemantizado)agem como os mais inocentes ou ignorantes. AbsLeandro

  12. Espero que este tema seja desenvolvido através de artigos, e com o tempo, se transforme num livro. Agora vamos ver qual editora, universitária ou não, terá o privilégio de publicá-lo. Por fim, esperamos que ele possa ser incluído nas bibliografias de alguns cursos das Universidades e Faculdades.

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