Somos todos delinqüentes acadêmicos? – Concluindo… (6)

Passaram-se cerca de três décadas. Será que a situação denunciada por Maurício Tragtenberg foi superada?[1] Claro, as circunstâncias são outras, a sociedade e a universidade passaram por mutações. Parece-me, entretanto, que as observações de Maurício Tragtenberg permanecem atuais. Mesmo no nível puramente empírico é possível notar situações e atitudes que demonstram a permanência e intensificação dos aspectos que ele identificou como próprios da delinqüência acadêmica. Persistem práticas e atitudes delinqüentes e com o agravante de que parecem naturalizadas e aceitas como necessárias e “normais”. Perde-se a capacidade de escandalizar-se e encontram-se argumentos racionais para legitimá-las.

Não é fácil resistir à pressão pela adaptação. Vivemos a contradição da obediência à autoridade racional burocrática, às exigências inerentes à sobrevivência pessoal e acadêmica e, simultaneamente, a consciência da necessidade de negar e criticar o campo do qual somos partes. Eis o paradoxo do intelectual que, apesar de tudo, insiste em não se submeter. Nesses momentos, devemos nos mirar no exemplo de intelectuais como Tragtenberg, Bourdieu e Edward W. Said, entre outros, que mostraram a possibilidade de sobrevivermos sem fazer o sacrifício do espírito crítico e da liberdade, ainda que saibamos dos limites e dificuldades. Como escreveu Said (1993, p. 90):

“Em outras palavras, o intelectual propriamente dito não é um funcionário, nem um empregado inteiramente comprometido com os objetivos políticos de um governo, de uma grande corporação ou mesmo de uma associação de profissionais que compartilhem uma opinião comum. Em tais situações as tentações de bloquear o sentido moral, de pensar apenas do ponto de vista da especialização ou de reduzir o ceticismo em prol do conformismo são muito grandes para serem confiáveis. Muitos intelectuais sucumbem por completo a essas tentações e, até certo ponto, todos nós. Ninguém é totalmente auto-suficiente, nem mesmo o mais livre dos espíritos”.

A exigência da adaptação é forte. Os inadaptados são vistos como um tipo em extinção. No reino do vale tudo na competição por prestígio e vantagens materiais e financeiras, a recusa só pode ser caracterizada como ingenuidade própria dos tolos. Não advogo o auto-isolamento ou uma atitude do tipo “ludista”, mas sim a necessidade de manter a lucidez e usar os meios que a própria universidade oferece, e o nosso trabalho intelectual, para combater o poder e as ilusões dos conformistas. O sentido da vida, e do viver, é mais profundo do que as fúteis vaidades e sonhos consumistas que acalentamos. É preciso tirar o véu que encobre a realidade e resistir aos devaneios de uma existência vazia de significados. É possível ser e agir diferente; é necessário resistir aos “inimigos da esperança”!

__________
* Versão adaptada do texto originalmente publicado na Revista Espaço Acadêmico, nº 88, setembro de 2008. Disponível na íntegra em http://www.espacoacademico.com.br/088/88ozai.htm

[1] Sugiro aos interessados a leitura na íntegra do texto de Maurício Tragtenberg, disponível na edição citada na bibliografia, na reedição pela Editora Unesp (2004) e também em http://www.espacoacademico.com.br/014/14mtrag1990.htm.

Referências

BOURDIEU, P. (1974) A economia das trocas simbólicas. São Paulo: Editora Perspectiva.

__________. (2000) O Poder Simbólico. Rio de Janeiro, Bertrand Brasil.

__________. (2004) Os usos sociais da ciência: por uma sociologia clínica do campo científico. São Paulo: Editora UNESP.

FROMM, E. (1977) TER ou SER?! Rio de Janeiro: Zahar Editores.

ORWELL, G. (2005) Dentro da baleia e outros ensaios. São Paulo: Companhia das Letras.

SAID, E. W. (2005) Representação do Intelectual: as Conferências Reiht de 1993. São Paulo: Companhia das Letras.

TRAGTENBERG, M. Sobre Educação, Política e Sindicalismo. São Paulo: Editores Associados; Cortez, 1990, 2ª ed. (Coleção Teoria e Práticas Sociais, vol 1).

VICENTE, F. G. D. “Latindo atrás do Lattes”. REA, nº 73, junho de 2007, disponível em http://www.espacoacademico.com.br/073/73vieira.htm

WATERS, L. (2006) Inimigos da esperança: publicar, perecer e o eclipse da erudição. São Paulo: Editora da Unesp.

3 comentários sobre “Somos todos delinqüentes acadêmicos? – Concluindo… (6)

  1. Olá, AntonioLer seu texto me ajudou a entender uma espécie de angústia que, ultimamente,assalta-me com uma freqüência nunca antes percebida nestes meus quase 21 anos de docência em universidade. Angústia (talvez) fora de tempo e lugar, mas visceral e inevitável.Ver-nos nas linhas e entrelinhas do seu texto não é, convenhamos, agradável…Mas, é fato. Vi a mim e a meus pares, de longas duas décadas, ali espelhados. De frente, de costas, às avessas. E nem pensei naquela proposta de “assumir a carapuça”, mas nos efeitos da pressão, opressão, acomodação, rendição, submissão e outras palavras de efeito similar. O salutar cuidado em preservar a ética (ou seria mera pusilamidade?) nos tem impedido de nomear, em inúmeros outros textos/manifestos/protestos de igual natureza, “os interesses econômicos e políticos individuais e corporativos” que movem as universidades nas quais nos movemos.E cada uma delas tem suas particularidades e… INTERESSES. Mas, obrigada, sobretudo, pela conclusão de que “é necessário resistir aos ‘inimigos da esperança'”. Muito prazer. Um abraço. Nancy Assis

  2. Grande Antonio,Temos a tendência de ver a atuação do intelectual restrita apenas à universidade, ao mercado bibliográfico e à imprensa. Acontece que seu âmbito de atuação tem um horizonte bem mais amplo, pois ele é também cidadão, e pode, portanto, estar comprometido com causas sociais – isto é que dá sentido à sua vida e diretriz ao seu pensamento. Creio que o verdadeiro intelectual não deveria contentar-se em ser apenas um profissional e acomodar-se aos gabinetes acadêmicos, pois ele tem condições para desenvolver sensibilidade e comprometimento sociais, e atuar junto a mobilizações de classe/organizações populares principalmente emprestando sua formação e sua voz aos que não as têm, aos que estão na periferia da sociedade, aos que foram excluídos, aos que são perseguidos. Se o intelectual tiver uma prática acrescida à sua vida de pensamento estará cumprindo seu papel social, além de constantemente dilatar/enriquecer/alterar seus horizontes teóricos. Um intelectual engajado promove a encarnação de seu pensamento.Como exemplo, cito Paulo Freire Alfredo Bosi, Leonardo Boff , Frei Betto e Antonio Cândido, que não substituíram o chão da gente comum pela cátedra ou pelo púlpito. E haveria muitos outros a citar, os amigos do blog podem lembrar..Houve intelectuais que nunca pisaram na academia, como Gramsci, Rosa Luxemburgo e Lênin. Houve aqueles que trabalharam em condições políticas adversas por um período de suas vidas, como Marx, Lukács, Adorno e Horkheimer, Marcuse e Benjamin – e nunca acomodaram-se às ordens vigentes, nem usufruíram das benesses dos poderosos de plantão.A prática da vida aliada à teoria inerente à profissão proporciona um diuturno “feddback” à produção intelectual, evita o dogmatismo, estimula a humildade, impede a “posse” da verdade, combate a arrogância, inibe a soberba, e, principalmente, coíbe a elucubração de teses mirabolantes e asininas que distorcem a realidade ao invés de explicá-la. A maioria dos intelectuais vive “in abstracto”, daí sua paixão pelas polêmicas estéreis e pendengas inócuas, de sua atenção voltada a temas comezinhos e seu apego a um prestígio roto e ilusório. Querem somente poder expressar seu pensamento “democraticamente”, e esse pensamento pode ser qualquer coisa, pois está desvinculado da realidade, da prática de vida, do engajamento: é um pensamento “descarnado”, um fantasma que sequer precisa de exorcismo.Abraço a todos.

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