Cientista Social?!

Invariavelmente, a mídia recorre aos cientistas sociais – sociólogos, cientistas políticos e antropólogos – para que analisem determinados eventos sociais e políticos. Quando ocorre uma crise política, algum acontecimento que impacta e comove a sociedade ou nos períodos eleitorais, os cientistas sociais são convocados a analisar. Como os feiticeiros das sociedades primitivas, cuja função era decifrar os sinais e desvelar os mistérios da natureza aos não-iniciados, os cientistas expressam a autoridade e, portanto, a voz autorizada. Sua legitimidade repousa na apropriação do saber considerado científico, acessível aos doutos e reconhecido pelos pares.

Estes dias, ao recusar um convite para participar de um programa na TV, ouvi o argumento de que o cientista social tem a missão de disseminar o conhecimento. Como, então, em sã consciência, o “missionário do saber” ousa não conceder uma entrevista sobre o tema que o editor-chefe e/ou o jornalista consideram de fundamental importância? Claro, também imaginam que o entrevistado é a autoridade e tem o que falar. Aliás, parece que a mídia parte do pressuposto de que tudo é assunto da alçada do cientista social. O entrevistado ocupa o tempo-espaço que qualifica o veículo de transmissão e, por sua vez, este lhe oferece a oportunidade de ser percebido. A recusa significa uma espécie de sacrilégio, por não cumprir a “missão”, e uma forma de suicídio. Afinal, se o cientista social não aparece na mídia, não existe.*

Em que medida, porém, a palavra autorizada do cientista social expressa realmente a ciência? A sua autoridade assenta-se na presunção de que ele domina os saberes reconhecidos e legitimados. Os títulos acadêmicos acumulados comprovam-no. É verdade, também, que o esforço de leituras, estudo, pesquisas, etc., o colocam numa posição privilegiada. O convite também é uma forma de reconhecimento.

Mas será isto suficiente para conceder à sua fala o caráter científico da fala autorizada? Em certas condições, o discurso do cientista social não exprime mera opinião (doxa), como de qualquer outro cidadão minimamente informado? Se a sua palavra é a “doxa douta”, em que consiste a sua importância diante da opinião do “senso comum”? Quando o cientista social abre a boca e verbaliza algo que pode ser pronunciado pelo mais comum dos mortais, numa mesa de bar, por exemplo, deixa de ser doxa? Será que o “cientista social” está proibido de expressar o “senso comum”?

O doutoramento em Ciência Política não incide, necessariamente, sobre a prática política. O doutor poderá se revelar um péssimo político, despojado da virtù necessária à ação política. A leitura e conhecimento dos clássicos da política não garantem discernimento estratégico e consecução dos fins políticos. O simples vereador sem qualquer formação universitária pode se revelar mais capaz do que o melhor docente de Ciência Política. A opinião do político e do seu eleitor pode se mostrar mais acertada do que o discurso hermenêutico do cientista. E as teorias dos cientistas sociais podem fracassar diante do teste da realidade.

Em suma, a prática e a opinião sobre as questões políticas não dependem necessariamente de títulos e saber formal e acadêmico. O mesmo se passa em outras áreas do conhecimento. Hoje, a tecnologia oferece ao curioso e interessado a possibilidade de ter acesso a conhecimentos que, se não o torna especialista, produz as condições mínimas para o questionamento do saber especializado. Porém, a mídia e os “cientistas sociais” precisam enfatizar o saber autorizado, pois, além das necessidades intrínsecas a cada campo específico, é também uma forma de se impor sobre a sociedade.

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* Ver Jornalistas e Cientistas Sociais, publicado em 19 de julho de 2007.

7 comentários sobre “Cientista Social?!

  1. Nossa…que mentalidade niilista! Por isso acho que deveriam ter consultado alguém das “hard sciences”…afinal o que restará aos cientistas sociais no futuro, com posturas como a sua, é limpar o chão do laboratório deles…
    Realmente é melhor manter a postura de intelectual no topo da montanha (na web) do que jogar migalhas aos porcos, via mídia dominante.
    Repense seu lugar no mundo…contribua…
    Ou não…

  2. O que acho primordial é que os formados não possuem todo o conhecimento que alardeiam possuir. A universidade está cheia de cursos fracassados onde se estuda 4 ou cinco anos e se conhece somente 4 ou 5 professores que realmente valeram a pena: o resto é tapeação ou mediocridade. No entanto, o puxa-saquismo universitário não permite que os próprios tenham consciência disso. A cada dia surge uma nova pesquisa comprovando que o fracasso da educação nacional possui uma importante contribuição da má qualidade do ensino superior. Bom seu texto. Mas precisa ir além. Alguém tem que gritar para todos os lados que o ensino superior é somente 30% daquilo que alardeia. Como muitas instituições mais.

  3. Caro Ozaí.Sei que deveria ter perguntado isso antes. “Inês é morta”, diria o poeta.Mas o fato é que vou prestar vestibular para Ciências Sociais.Isso porque, enquanto cursava Administração na UEM (curso que abandonei esse ano), me identifiquei muito com as disciplinas de Filosofia, Sociologia, Antropologia e Política. Daí resolvi mudar para Ciências Sociais.A pergunta é, e pode responder sem falsa modéstia: O que eu posso esperar do curso de Ciências Sociais da UEM?

  4. Olá Antonio,É muito interessante a sua proposta para uma conversa acerca da epistemologia. Acredito que precisamos cuidar para que a ciência não se transforme em uma religião cheia de dogmas à semelhança de outras. Embora Platão tenha dado o entendimento de opinião à doxa, Husserl (e outros) mais recentemente, colocou como “crença com suposição”. E, sabemos que nossas teorias partem de suposições. Isto é, antes do amparo científico, elas eram suposições, hipóteses. Assim, as doxai são imprescindíveis para o conhecimento. São elas que permitem e impulsionam a discussão, o diálogo. E o diálogo move nossa Sociedade do conhecimento, seja no bar, na universidade, na televisão, nos livros, em qualquer lugar…Muitas vezes as doxai partem do empirismo, e ele não é menos importante que os métodos e as técnicas. Acredito que precisamos estar abertos a tudo (no sentido amplo), pois o saber não tem limites, mas se não serve para nada, se não traz benefício para um indivíduo, um grupo, etc, ele acaba no fatalismo de Leibniz. E sabe-se lá o que ainda vamos “descobrir”? Quais os rumos da humanidade? Mesmo o saber especializado comete erros, será que não na mesma proporção que comete o senso comum? Sdç

  5. Grande Antonio, na minha opinião você deveria ter aceitado o convite e ido à TV, só para aproveitar a chance de falar lá tudo o que você diz aqui no blog. Já pensou?Iria pegar o pessoal de surpresa, na contramão. E o telespectador – quem sabe?- veria acender-se uma luz.Uma pena você não ter ido. Foi uma chance de ouro…

  6. Professor eu acho complicada essa questão, mas fica parecendo que qualquer intelectual quando acorda toda manhã, tem que vestir um manto e se transformar em um intelectual. Ele deixa de ser um ser humano comum quando entra para a universidade, para tornar-se uma entidade superiora, que pode explicar toda a realidade humana. A mídia nos vê assim, tanto é que sempre chama algum especialista, como forma de avalizar a notícia e transforma-la em algo sacramentado como verdade. O problema é que isso tornou os intelectuais reféns dessa idéia de aparecer na mídia, e ser conhecido do grande público, o que pode render livros vendidos, ou outras chamadas para comentar as notícias e sacramenta-las como verdades. E isso faz com que o intelectual pense como um superior do homem comum, e isso aumenta o fosso existente entre o intelectual e o homem comum. Ao mesmo tempo isso faz com que dentro da comunidade acadêmica, cada vez mais você tenha que vestir o manto de intelectual todo o tempo que você está fora de sua casa, esquecendo, que dono do saber ou não, ele é apenas um ser humano como todos os outros, podendo errar, mas ele só pode comentar dentro do conhecimento dos livros e dos autores, e não pela sua vivência no dia-a-dia, essa como não é comprovada por livros, deve ficar guardada para os raro momentos em uma mesa de bar, ou para dentro de sua própria casa. E uma vez que você aceita comentar o assunto para a televisão, provavelmente o que você disser, será editado, ou você só fala o que o editor chefe do jornal quer ouvir, por tanto você falar é uma decisão política muito forte, e não vai ser falando no jornal local que você irá criar opinião crítica ou desalienar a população. Acho que o problema maior está em não passar esse conhecimento filtrado para o grande público, e sim gastar mais tempo em idéias para diminuir o fosso que nos separa do mundo real.

  7. Voce sabe, Ozai, que a natureza tem horror ao vazio. A midia também. Entao, fico imaginando quem teria ocupado o lugar que você recusou preencher e se nao teria sido melhor ir la e dizer o que você pensa. Como acho as suas idéias importantes – e nem por isso as sacralizo – gostaria de ter ouvido o que você tem a dizer. Acrescento que o altar que consagra todas as doxas atualmente é a televisao, e para isso nao é necessario ser cientista social ou qualquer outra coisa. Nao sei porque, ela nunca conseguiu a legitimidade que a NET, por exemplo, ja tem. Você, que é cientista social, talvez pudesse me esclarecer. Um abraço,Regina

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