Maurício Tragtenberg: a difícil arte do elogio

Participei do evento “Maurício Tragtenberg – 10 anos de encantamento”, realizado nos dias 3 a 5 de novembro, na PUC/SP. Foi uma honra e tenho imensa alegria em participar deste momento em que familiares, amigos, ex-alunos e orientandos, admiradores, etc., se reuniram para homenagear e discutir a obra do mestre.

Não é fácil falar sobre os que deixaram marcas indeléveis em nossas vidas. Como controlar as emoções quando a admiração e a estima encontram-se no tênue limite entre a manifestação de estima e o culto à personalidade? É possível, quando falamos e escrevemos sobre os que gostamos e admiramos, evitar a apologia?

Se os vivos não conseguem impor limites à maneira como sua obra é incorporada por leitores, interpretadores e eventuais discípulos, a obra dos mortos fica à mercê das interpretações e usos dos epígonos. O legado das celebridades periga se tornar um bem simbólico disputável no mercado. O alcance da influência da obra dos intelectuais de relevo coloca o problema da apropriação e sacralização do seu discurso. Sua herança pode transformar-se em argumento de autoridade e objeto de disputa e corre-se o risco do autor ser alçado ao status de profeta, fundador de uma ordem sacerdotal. O ‘discípulo’, membro desta ordem fictícia ou real, posa de “guardião da autoridade da mensagem” e tem a pretensão de delimitar o que é verdadeiro — ou seja, sua interpretação sacerdotal da obra do mestre — instituindo as dualidades entre as leituras legítimas e as ilegítimas. Como alerta Bourdieu, “o eu sacerdotal deriva sua autoridade do profeta de origem”.

Todo autor cuja obra ganha destaque arrisca-se, ainda que não seja a sua intenção, a conquistar discípulos. O reconhecimento do seu valor e a merecida homenagem comporta duplo perigo: reprodução acrítica e a bajulação intelectual – fenômenos nem sempre perceptíveis pelos que os praticam. A repetição de conceitos, frases e fórmulas, pode parecer o meio correto para a preservação da mensagem legada; a lisonja pode se confundir com a estima. De qualquer forma, é compreensível que assim seja: muitas vezes, constituem formas de sublimação da dor que sentimos com a perda daquele que consideramos o mestre.

A atitude idólatra do discípulo concede ao texto um caráter dogmático e hagiográfico. Isso dificulta o debate científico e tornam imperceptíveis a riqueza da sua obra e os caminhos apontados pelo autor. A melhor homenagem que podemos prestar a um autor é, a partir do seu reconhecimento, tentar ir além dele – tarefa dificílima e nem sempre possível. Por mais que gostemos de um autor, por mais que o respeitemos, devemos superar a relação de encanto e manter a postura crítica: o contrário é desqualificá-lo. A estima não deve ser confundida com a bajulação.

A veneração não é o melhor caminho para se analisar ou homenagear um autor. Há momentos em que é preciso praticar, à maneira freudiana, uma espécie de assassinato da figura paterna. Isso significa romper com a tendência de transformar homens em heróis, em tratar a sua vida e obra de maneira hagiográfica e de subtraí-los do mundo dos homens comuns, repletos de acertos e erros. Não é fácil: corre-se o risco da incompreensão e de ser declarado infiel.

As homenagens são necessárias e uma maneira eficaz de não se impor a segunda morte à qual todos estamos sujeitos: o esquecimento. Porém, ainda que necessárias, cobram o preço da emoção. Quanto maior o envolvimento emocional maior o tributo que pagamos. Os homens e mulheres não são apenas razão, mas também sentimentos. Em certas circunstâncias, o equilíbrio entre razão e sensibilidade é muito difícil – e ainda bem!
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Ver “A arte do elogio”, resenha à obra “Maurício Tragtenberg: Uma vida para as Ciências Humanas” (São Paulo: Editora da UNESP, 2001), organizada por Doris Accioly e Silva e Sonia Alem Marrach, publicada na REA 23, abril de 2003, disponível em http://www.espacoacademico.com.br/023/23res_mt.htm
BOURDIEU, Pierre. Economia das trocas lingüísticas: o que falar quer dizer. São Paulo: EDUSP, 1996, p.160.

2 comentários sobre “Maurício Tragtenberg: a difícil arte do elogio

  1. ozaí. a apresentação de todos lá na UEL ontem foi maravilhosa, obrigado pela colaboração! Comecei a conhecer o tragtenberg pelos seus textos. um abraço libertário/antiburocrático 😉

  2. Meu caro Ozai,Gostaria, em primeiro lugar, de cumprimenta-lo pelo elogio e pelo empenho em prestar uma homenagem ao nosso mestre comum, uma pessoa invulgar, nao apenas intelectual, mas do ponto de vista simplesmente humano. Ele certamente fez diferença em nossas vidas, e para melhor, no plano intelectual, no plano argumentativo, no plano do ceticismo sadio que devemos conservar sempre em relação a toda e qualquer autoridade, a todo saber “revelado”, enfim, em relação às “vacas sagradas” da academica, que ele gostava de desmistificar.Tenho porém uma observação a fazer, enquanto acadêmico e enquanto cidadão brasileiro.Se eu tivesse ficado apenas na academia, eu provavelmente faria um elogio que você fez ao nosso mestre comum.Como porém, eu fui para o mundo do trabalho, para o universo das fabricas e escritorios de nosso capitalismo deformado, como depois sai do Brasil e conheci um pouco do mundo exterior, dos socialismos e capitalismos REAIS, eu me permito dizer algo muito singelo.Tragtenberg foi sem duvida alguma um grande acadêmico e um grande intelectual, que nos enriqueceu a todos com seu conhecimento imenso sobre a obra de grandes intelectuais (Marx, Weber, Nietsche, Lenin, Gramsci, e muitos outros).Mas, ele foi APENAS um intelectual, e dificilmente conviveu com o mundo empresarial, o mundo dos neg[ocios, como a esfera governamental, a não ser como observador distante e bastante crítico.Posso assim dizer dizer que ele poderia encantar platéias acadêmicas com sua verve poderosa, mas que ele estava profundamente equivocado quanto á natureza do capitalismo e do mundo real das transações mercantis, que ele conhecia de ium ponto de vista puramente intelectual (e portanto falho).Acredito que ele prestou um grande serviço a tantos jovens, como eu e você, que nos beneficiamos de seu grande conhecimento histórico e teórico. Mas, quanto ao mundo real, ele esteve infelizmente distante, muito distante. Pessoas como ele, que vivem no mundo puramente acadêmico, podem fazer um sucesso limitado a esse universo restrito, mas estão profundamente desadaptadas para interpretar o mundo real e sobretudo para interagir com ele e procurar melhora-lo.Os profundos sentimentos anticapitalistas e antimercados exibidos por intelectuais de academica como Mauricio Tragtenberg produziram um enorme dano prático ao Brasil: a incapacidade que tem a classe intelectual de contribuir positivamente para a melhoria de um sistema capitalista deformado, como é o nosso, mas ao qual estamos inextricavelmente ligados e com o qual temos inevitavelmente de conviver.Esta é a minha opinião sincera sobre o Mauricio, a quem estimei profundamente e a quem devo tanto em termos de enriquecimento intelectual e conhecimento histórico.Paulo Roberto de Almeida

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