Cenas da Metrópole

A mulher negra caminha com dois cães poodles. É manhã ensolarada e está quente. Lembrei do pupi, o nosso cachorrinho. Um pensamento me assaltou e o meu lado “politicamente correto” o repudiou. Na dúvida, perguntei se os poodles eram dela. Ela confirmou o que imaginei: “Não, são da patroa”. Observo que leva sacos plásticos para recolher as sujeiras deles.

Estava num bairro de classe média da capital paulistana e não é muito comum que pessoas negras o habitem. Claro, há exceções. Lembro da minha amiga, negra e doutora pela PUC, que morou nas proximidades da cena; recordo de como ela sofreu por “ousar” habitar o mesmo espaço de indivíduos bem-sucedidos que se consideram cultos, mas revelam-se profundamente preconceituosos. Aquela moça bem que poderia ser moradora do bairro e dona dos animais e, então, meu pensar irrefletido teria revelado o preconceito que habita em nós, mesmo quando procuramos combatê-lo. Pensativo, sigo o meu caminho. E a moça negra, que faz o seu trabalho, segue o dela.

No outro dia, em frente ao TUCA, vejo outra cena que me faz lembrar o que vivenciei na véspera: uma mulher branca, loira, bem vestida e aparentando ser da classe média paulistana, passeia com um enorme cachorro, cuja raça não conheço. De repente, o animal pára e se prepara para aliviar-se. O seu tamanho indica que a sujeira será bem maior do que a feita pelos poodles. Curioso, observo qual será a atitude da mulher! Ele termina o “trabalho” e ela recolhe o “produto”. “Uma demonstração de cidadania a la TV Globo”, pensei. Este pensamento me fez rir.

Fiquei a matutar, pois neste caso não tive dúvidas de que o cachorro pertencia à mulher loira. E, novamente, recordei da mulher negra. Será que, em ambos os casos, fui preconceituoso? Porém, tranqüiliza-me o fato destas cenas aguçarem a minha sensibilidade e reflexão sobre a realidade das desigualdades sociais e raciais. Por outro lado, mostrou que estou vigilante em relação às atitudes e manifestações cotidianas que expressam preconceitos.

Refletindo sobre estas cenas, paira uma dúvida: como posso ter sido preconceituoso ainda que de maneira involuntária? Se pecamos em pensamento, devemos ser perdoados pois nem todos os pensamentos são controláveis. Será que introjetamos a culpa que não é nossa? E se o fazemos nos sentimos culpados ao pensar o que não deveríamos ter pensado. A dúvida talvez seja uma forma de redimir-se perante a culpa herdada do nosso passado colonialista e racista. Não fosse isso, cenas corriqueiras como esta não fariam a menor diferença.

São Paulo é, por excelência, a cidade dos contrastes. Nas ruas, ônibus, metrô, etc., vemos cenas que chamam a atenção. São absurdos incorporados ao cotidiano da grande metrópole, na qual os indivíduos diluídos na multidão nem mais percebem. A impressão é que não há estranhamento, que tudo parece muito “normal”.

Mas nada me pareceu “natural” ou “normal”. Nem mesmo o choro convulsivo da moça no ônibus que me levava de volta ao repouso, após um dia de atividades na PUC. Ela atendeu a chamada no celular e começou a chorar, seu choro foi aumentando até tornar-se perceptível aos demais passageiros. Pensei em me dirigir a ela, mas não sabia o que falar e fiquei com receio de mais atrapalhar do que ajudar. Podia ser uma notícia muito ruim ou quem sabe apenas uma discussão com o namorado. De qualquer forma, o ônibus chegou ao destino e ela se perdeu do meu olhar no turbilhão de gente no vai-e-vem do terminal. Fiquei a refletir sobre a influência da tecnologia na vida humana. Em outros tempos, ela não choraria em circunstâncias como esta, pois não havia celular. Coisas da modernidade e da cidade grande, coisas do ser humano!

9 comentários sobre “Cenas da Metrópole

  1. Meu caro Ozaí! Meio atrasada para tecer meus comentários em relação às cenas que descreves e me perdoa, este cotidiano que me é tão particular, não é exclusivo deste meu lugar! Causa até um certo estranhamento, dizer que o preconceito é exercido por todos, consciente ou inconscientemente, e ainda em qualquer lugar. O importante é que se perceba isso e que se admita,sem hipocrisia, essa verdade que queremos mudar. Então, só assim eu vejo possível deixar para o passado esse sentimento de culpa pelas desigualdades tão iguais.Que bom que se perceba isso! Que bom que são os diferentes olhares que exprimem semelhantes reflexões! Que bom que os amigos são até mais que amigos! E que dádiva é o choro daquele que percebe a dor. Chorar é melhor que nada sentir, nada exprimir…SaudaçõesNelza

  2. Olá,Li seu texto e os comentários.Como é interessante a leitura particular de cada um de nós. Cada olhar…Cada refletir… Cada expressão…Uns destacam o preconceito, outros a influência da tecnologia. Outro fala de “amigos , mais que amigos”…E da dor do ser que chora?Abraços.Mônica

  3. Muito Boa Ozaí. São Paulo tem dessas. Ainda acho que São Paulo é uma das cidades mais democráticas do mundo. Apesar de ter um histórico de preconceito e evolução pautada na vontade de alguns políticos biônicos e da especulação mercado imobiliário.Eu acho que você não foi preconceituoso, apenas deu azar! rs!Aqui em São Paulo a gente brinca quando alguém se depara com uma situação dessa:”É, este momento foi igual Coca-Cola Zero; POR ESSA VOCÊ NÃO ESPERAVA!”hehegrande abraço!

  4. Caro professor Ozair, Deveras percebo o quanto existe uma sisudez exemplar em seu escrito. Uma denotação clara sobre a exemplaridade trágica da pertubação de cada ser humano, como situação extrema de uma realidade adversa, que obriga o homem a ver melhor a sua essência. Um apelo à responsabilidade dos que enxergam, focalizando-se no texto a gravidade e a confusão do mundo atual, em que a imcapacidade aparece muito bem empregada como o desvario da humanidade, portanto como metáfora da falta da razão nos homens. Jose Saramago ja dizia:”Cegos que vêem, Cegos que, vendo, não vêem”.(SARAMAGO, José. Ensaio sobre a cegueira: romance. São Paulo: Companhia das Letras, 1995.p.310).Obrigada pela excelente reflexão… PARABÉNS!Abraços luso-brasileiro,Francisca

  5. Olá Antonio,Achei em particular muito sensibilizante esse texto. A forma com que usaste as palavras e exemplos para falar sobre o tema.Ao nosso redor sempre existem pessoas preconceituosas, e não só na questão de raças. Esse ponto que você levantou, entretanto, faz pensar: acabamos sendo nós preconceituosos sem o saber, sem perceber? Parece que nosso cérebro nos prega peças mesmo. Acredito que isso se deva a um condicionamento de informações de ordem social que recebemos desde a infância. Essas informações ficam registradas e moldam nossas concepções e por isso precisamos estar sempre atentos e nos questionando continuamente para não sermos levados a pensamentos que não são nossos e estão ultrapassados.É triste que neste século, após mudanças tão profundas na abordagem racial, ainda prevaleça a caracterização de “coisa de branco”, “coisa de negro”, “coisa de amarelo”. O ponto mais importante da globalização, a meu ver, é justamente esse estreitamento, ou mistura de raças, costumes, religiões, etc. Acredito que por meio disso possa crescer a tolerância e a compreensão entre os povos… Espero que sim.Sdç

  6. Paulo César Machado Pereira – BH/MGPrezado, tive contato com a sua crônica pela remessa de uma querida amiga, mais que amiga… Seus escritos reforçam meu pensamento, e prática, de que, talvez, a melhor virtude do ser humano seja a sua luta incessante contra os preconceitos, todos e quantos nos sejam clara e/ou aberta, ou dissimulados e/ou covardemente apresentados.Obrigado. Paulinho

  7. Ótimo texto professor, mas São Paulo não é somente uma cidade de contrastes, ela é a cidade que melhor representa nosso país, um país de contrastes, nos quais uma pequena elite se mantem com o poder há mais de 500 anos, enquanto a maior parte da população faz mágica para sobreviver com o salário mínimo, ou então com menos que isso, e os programas de redistribuição de renda. São Paulo também representa o afastamento das pessoas, talvez uma das características mais degradantes da metrópole é de que as pessoas por conta da vida corrida, ou mesmo com medo passe a se importar menos pelos seus semelhantes, é como se em uma metrópole nós voltassemos ao Estado de natureza hobbesiano, onde temos que agir contra nosso vizinho antes de ele agir contra a nós, e novamente São Paulo talvez represente novamente um exemplo claro dessa situação.

  8. SHALONADONAI! Será que essa Metrópole tem vida? o quadro é um tanto desolador, isso não é Metrópole, mas um deserto humano, bem que ainda existem corações que se tocam e assim realizam o milagre da conexão da vida, com o Criador. Mesmo que possamos nomear essa localidade, pelo menos podemos buscar armas que vem a garantir uma vida digna, onde o amor possa florescer. DEUS É AMOR.Mesmo para os informdos ou os incrédulos do milagre de Deus.

  9. Ozaí, Belíssimo texto! Fantástico! Imagino que seus leitores possam, em larga medida, se identificar com ele. Acho que seu conteúdo expressa um pouco do que cada um de nós pensamos e que você, com a maestria de sempre, tornou consciente.Aproveite a parte final, sobre a influência da tecnologia em nossas vidas, para criar outro post. Valerá a pena! Obrigado pela leitura agradável que você me proporcionou no final do sábado. Abraços e bom domingo!Roberto.

Comente!

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s