Cooperativa de Produção Agropecuária Vitória (COPAVI)


Neste 17 de novembro, vivenciei uma experiência marcante: estive, pela segunda vez, na Cooperativa de Produção Agropecuária Vitória (COPAVI), localizada em Paranacity (PR), noroeste do Estado. A COPAVI foi fundada em 10 de junho de 1993. Em 19 de janeiro daquele ano, várias famílias ocuparam a área – cerca de 256 hectares – e deram início a uma história que completou quinze anos e tornou-se um símbolo da luta dos trabalhadores sem-terra. É um modelo de organização e gestão coletiva da terra.


A visita foi organizada pelo Prof. Alexander Hilsenbeck (DCS/UEM) e teve a participação dos estudantes dos cursos de Administração, Ciências Sociais, Educação Física, Engenharia de Alimentos, Filosofia e Zootecnia. Fomos recebidos por um jovem de 26 anos, o Alex, responsável por nos acompanhar e apresentar as atividades e dependências da COPAVI, bem como expor a sua história e do MST e responder às questões formuladas. A conversa se deu assim que chegamos e no período da tarde, após almoçarmos – cada um lavou os pratos e talheres que usou – e conhecermos as instalações. Sempre acompanhados pelo Alex, que, paciente e didaticamente, explicou-nos o funcionamento de tudo, como o setor de laticínio e o da produção do açúcar mascavo e a cachaça para exportação.

Durante a caminhada na “Terra Libertada”, assim como nos momentos dedicados especialmente ao diálogo, ficou nítido o desconhecimento de muitos de nós sobre a realidade social e política da estrutura agrária brasileira e a importância de experiências como esta na luta pela reforma agrária. As conversas ajudaram a romper eventuais preconceitos sobre o MST e os trabalhadores sem-terra. Por outro lado, também mostraram os impasses e limites de um sistema coletivista, tendencialmente autogestionário, porém inserido num contexto social em que predomina a propriedade privada – mesmo na maioria dos assentamentos do MST – e cujos fundamentos são a competição e o acúmulo de lucros.


Isto, é claro, reflete-se na COPAVI. Seus associados não estão isentos dos valores e condicionantes capitalistas. A cooperativa é parte de um movimento social e político, mas é também uma empresa – ainda que administrada coletivamente. Como tal, vê-se obrigada a interagir com o mundo à sua volta. Não se pode viver numa sociedade isolando-se completamente dela. A sobrevivência dos cooperados e dos seus filhos depende de relações sociais que contradizem os princípios que os orientam.
A visita foi uma verdadeira aula de administração, história, sociologia, política, etc. Iniciativas como esta merecem ser repetidas, pois desconstroem o mito de que o conhecimento legítimo é apenas o do campus e que só se aprende e se ensina no espaço da sala de aula. O que ouvimos, vimos e falamos neste dia foi, provavelmente, mais impactante do que várias aulas sobre o tema. Todos aprendemos com esta experiência.

Enquanto ouvia e observava me peguei a sonhar: e se o Brasil e o mundo fossem assim? Claro, como toda construção humana, há problemas e limitações. Porém, do ponto de vista social, estaríamos bem melhor. Será a COPAVI o gérmen de uma utopia social comunista autogestionária? Ou, pelo contrário, se restringe a uma “ilha” cercada por um oceano que a deixa existir apenas para envolvê-la em suas águas e mantê-la sob controle? São contradições e limites que parecem insuperáveis. Certa vez, comentando estas utopias, um aluno me disse: “É inexeqüível!” Será que ele está certo ou experiências como a COPAVI demonstram seu equívoco e comprovam que outro Brasil e outro mundo é possível? Neste caso, prefiro ser otimista, sem perder o senso da realidade. E você?

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A Revista Piauí fez uma matéria esclarecedora, assinada por Luiz Maklouf Carvalho, sobre a história e o cotidiano dos homens e mulheres, adultos e crianças, que habitam a COPAVI. Ver “O modelo Vitória”, disponível em http://www.revistapiaui.com.br/edicao_21/artigo_648/O_modelo_Vitoria.aspx. A reportagem também está disponível em versão áudio e pode ser acessada no site da revista ou: http://www.4shared.com/file/72656914/e6d56723/Questoes_Agrarias_parte_I.html e http://www.4shared.com/file/72657285/f4f96478/Questoes_Agrarias_parte_II.html
Essa contradição foi explicitada na fala do nosso anfitrião, o Alex, e também no discurso de outra personagem dessa história citada na matéria da Revista Piauí: “Sempre preferi a experiência coletiva”, disse Solange na varanda de sua casa. “Ela é mais eficiente para a produção e tem a grande vantagem de poder liberar gente para a mobilização do movimento: se a propriedade é individual, fica-se no dilema de tocar o lote ou tocar a luta.” Ela completa 46 anos neste junho, vinte deles no MST. “Nada é fácil por aqui, mas estamos mostrando que mesmo dentro do capitalismo é possível tentar uma sociedade diferente”, falou. Pensou mais um pouco, e complementou: “Ainda há muitos traços capitalistas na nossa forma de produção. Se quiser sobreviver, a gente tem que entrar no esquema do mercado. O ideal seria trabalhar direto com o consumidor, mas, para sobreviver, ainda precisamos do intermediário. É uma luta constante. E ainda temos famílias que não estão contentes.” As casas, benfeitorias, o produto das vendas, tudo é propriedade coletiva. “O sentimento do ‘meu’ está muito enraizado”, disse Solange. “É muito difícil passar a pensar no ‘nosso’.”
*** As fotos são de Alex Willian Leite.

5 comentários sobre “Cooperativa de Produção Agropecuária Vitória (COPAVI)

  1. Olá Ozaí.Primeiramente gostaria de parabenizar pela iniciativa. achei bstante interessante trazer até nós uma experiência tão maravilhosa.Eu não pesquisei, mas gostaria de saber se esta experiência já foi catalogada e se alguém ja escreveu algum artigo científico sobre isso. Merece estar em um banco de experiências interessantes. vou até comentar aqui an ONG que trabalho sobre esse projeto. (www.polis.org.br)Também gostaria de dizer que fico maravilhado quando vejo experiências locais que dão realmente certo. Entrentanto sempre gosto de afirmar e reafirmar que estes cidadãos consguiram ter resultados positivos através do planejamento e de um orçamento bastante rígido. Nada acontece por acaso, ainda mais nestes dias em que a internacionalização da economia não perdoa até mesmo os grandes bancos norte-americanos.Espero que vários vejam este post e que possam contribuir para o desenvolvimento dos municípios mais necessitados.Grande abraço!

  2. Que coincidência! No dia 20 de novembro estive em uma comemoração de 15 também relacionada a uma cooperativa – COPAVA – Cooperativa de Produção Vó Aparecida. De início, por meio de uma emocionante mística, os cooperados mostraram a difícil e importante história da Copava, bem como do assentamento rural, que fica na região sudoeste paulista. Não tenho dúvidas, que experiências como essas mostram possibilidades de um outro modo de produzir a vida.Edvaneide

  3. A COPAVI pode ser uma ilha hoje em dia, mas é difícil saber o que vem pela frente, realmente há duas linhas de pensamento, a otimista na qual algum dia a COPAVI deixará de ser uma ilha para se integrar num todo que não seria nossa realidade, e a pessimista na qual ela será engolida pelos desejos materiais individuais. O grande problema do capitalismo ao meu ver é justamente isso dar vazão ao individualismo do qual tiramos nossas satisfações materiais. Enquanto essa necessidade de fazer bem somente ao “meu ego”, existir a utopia de um mundo melhor e sem desigualdade sempre existirá, é preciso mudar a cabeça de todos antes de tentar mudar o mundo dentro do próprio sistema, e isso ficou bem demonstrado com o desvirtuamento da revolução russa, e o chamado “socialismo real” implantado no leste europeu, ou mesmo na China e seu peculiar “comunismo de mercado”, a situação não é boa, e para aqueles que vê apenas uma via pessimista, a vontade que dá e de deixar um aviso para te acordarem quando o carnaval chegar.

  4. Caro Ozaí, Alguns anos atrás tive a oportunidade de visitar a COPAVI. Como vc também fiquei pensando nas possibilidades da expansão da pequena propriedade em nosso país. Afinal, não adianta nada batermos recordes de exportação em algumas monoculturas, que só são rentáveis a partir do latifúndio, se esta riqueza não se socializa, e, consequentemente, gera mais concentração. Bom, fugindo dessa questão econômica, acredito que o “espírito do capitalismo” (individualismo, a ambição …)também é um entrave considerável ao cooperativismo. Digo isso levando em consideração a vivência de meus pais, que já na proximidade da velhice conseguiram passar da condição de lavradores à de agricultures, conseguiram comprar um pequena propriedade. Hoje colhem os frutos de uma espécie de mutirão que se estabeceu entre os porcenteiros e pequenos proprietários de sua região. Fugindo da monocultura, se ajudam no plantio, cultivo, colheita e entrega de frutas, verduras e hortaliças. Porém, mesmo visualizando a melhora na qualidade de vida destas pessoas, outras famílias que vivem em condições parecidas preferem sucumbir sozinhas, tendo por fim, na maioria das vezes, a periferia das cidades de nossa região, passam da condição de auto-gestores de seu próprio trabalho à condição de proletários. A propósito, tomaram banho de cachoeira?Abs

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