Ziriguidum

Aos habitantes e freqüentadores da República Ziriguidum

Quando me tornei professor, logo percebi que falar dos alunos era o papo predominante entre os meus colegas. Antes das aulas e, especialmente, nos intervalos, os causos, comportamentos, etc., eram o assunto principal. Predominava, as reclamações, as referências maldosas e, muitas vezes, preconceituosas. Claro, havia as exceções – sempre há! Trabalhava, então, na periferia de São Paulo, no bairro do Guacuri, com turmas do ensino médio (teve um ano que peguei uma turma da 8ª série).

Talvez a “veia sociológica” tenha me ajudado a ver criticamente estas conversas de “alto nível”. Talvez fosse apenas um certo constrangimento em participar do “ritual”. Parecia-me mais proveitoso fazer outras coisas – como ficar na biblioteca, na época abandonada – ou simplesmente conversar com os alunos.

Logo percebi que os alunos também gostavam de falar sobre os professores e, geralmente, mal. Quem sabe por isso, entre outros motivos, tive colegas que aconselharam a não me misturar com os estudantes. Um até elogiou o meu jeito de ser, mas… A crítica vai da insinuação de demagogia à afirmação da ingenuidade, sem falar na concepção hierárquica do “nós” versus e acima “deles”.

Quando comecei a trabalhar no ensino superior, fui convidado para um churrasco com os alunos. Aceitei! Talvez tenha surpreendido alguns, já que tal convívio não fosse comum. Nestas oportunidades, as brincadeiras sobre “notas” e conversas sobre colegas professores são ensaiadas. Corta-se o papo, entra-se noutro assunto e pronto. O saldo geral é positivo. São nestes momentos que conhecemos um pouco mais nossos alunos, como indivíduos com histórias singulares. Na sala de aula tendemos a vê-los apenas como “alunos”. Ainda que queiramos ir além da relação formal, o tempo e espaço dificultam.

Não conhecemos nossos alunos e eles não nos conhecem. A relação pedagógica é uma relação de poder, mas também humana. No cotidiano da sala de aula terminamos por negar este duplo aspecto. Exercemos o poder sem afirmá-lo e transformamos uma relação intensamente marcada por vínculos humanos em uma espécie de rito no qual prevalece a transmissão de conteúdos entre “sujeitos pensantes” e “objetos receptores”.

Pedagogicamente, é importante fortalecer os laços humanos. Há limitações, abusos e nem sempre prevalece o bom-senso. Mas também há aspectos positivos. Sobretudo, não devemos esquecer a relação pedagógica expressa uma relação humana. Se conheço melhor meu aluno posso compreendê-lo mais efetivamente. Mais do isto: provavelmente perceberei qualidades que não são manifestas no espaço universitário. Por outro lado, também permito que ele me conheça melhor e, assim, perceba-me para além da função que desempenho.

De qualquer forma, permanece o costume que observei lá no início da docência. Por que esta necessidade em realçar o lado negativo e de falar mal dos outros nos corredores da vida? A fofoca parece um esporte nacional e, quiçá, global. Deve ter até mesmo uma função social! Não obstante, há espaços e relações que resistem e se mostram saudáveis, alegres e prazerosos, nos quais prevalecem o respeito mútuo e a afetividade.

Os reticentes, cujos egos inflados impõem barreiras visíveis e invisíveis ao convívio com os alunos, talvez mereçam a ilusão de que habitam o Olimpo. Isto os impedem de viverem experiências como a que me proporcionaram os habitantes da República Ziriguidum. Claro, isso não pode ser incluído no Lattes, mas não tem preço. Obrigado!

7 comentários sobre “Ziriguidum

  1. Esclarecedor, muito bom.
    Isso dá sentido pra prática da docência.
    O Olimpo é muito longe para nós (eu) habitantes “Planeta” – República Ziriguidum…
    Abraços

  2. acredito que a relação aluno-professor sempre será hierarquica em função da comodidade que essa relção de poder traz ao professor.não estou dizendo que a culpa é unica e exclusiva dos professores, porém não acredito que estes algum dia vão se misturar com os alunos.pelo menos dentro desse ambiente que inibe a açao do aluno, ainda existem raras excessões como você,parabens professor!!

  3. Texto bacana, Professor! Muitos poderiam ler e refletir. Concordo tambem com a Regina, há alunos e alunos / profs. e profs. E infelizmente, não podemos negar, que em muitos casos, não vejam a relação humana que pode se estabeler entre discente e docente, havendo sempre um jogo de interesses. Neste caso, limites são importantes, mas QUANDO POSTOS(ou impostos)NO MOMENTO CERTO!Abraços

  4. ola, Ozai, bela e generosa reflexao. concordo inteiramente e acho que o contato com os alunos sempre vale a pena. mas talvez isso também seja uma forma de discriminaçao, pois ha alunos e alunos, assim como ha professores e professores – nenhuma etiqueta da conta do humano.o canal de TV http://www.arte-tv.net passou quinta 27/11, 22H35, uma enorme e bela entrevista com Claude Lévi- Strauss, que esta fazendo 100 anos!… todas as emissoes de Arte podem ser vistas na internet ainda por alguns dias – vale a pena.abraço,Regina

  5. Paiiiiii…Da próxima vez vc me leva na festinha hein!!!!Vc é meu orgulho e me exemplo! E sempre será um espelho, principalmente se eu realmente decidir me enveredar por estes caminhos docentes!!!rsrsrsrs…BjusTe amo

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