Déjà vu! Um causo especial de “cola”

Hodiernamente, como diz o pessoal do Direito, ampliaram-se as possibilidades da cola. Mudam os tempos, mas mantêm-se as “estratégias de sobrevivência”. Os valores invertem-se: em vez de privilegiar o ensino-aprendizagem, há o risco de o professor investir o seu tempo a navegar pela Internet para descobrir se os alunos usaram o famoso CTRL C / CTRL V. Não quero me transformar em “fiscal do google” e, por extensão, dos discentes. Meu intuito é estimulá-los a utilizar a tecnologia a nosso favor, ou seja, em prol do conhecimento. Às vezes, porém, me deparo com situações estressantes e até mesmo hilariantes.

Recentemente, tive uma idéia que me pareceu ótima! Dividi a história do Brasil em períodos e solicitei aos alunos que escolhessem um deles e fizessem uma pesquisa sobre o ordenamento jurídico. Houve tempo e condições para pesquisar. Simultaneamente, estudávamos a teoria política de Karl Marx. Na data agendada, eles entregaram um trabalho acadêmico sobre o ordenamento jurídico do período histórico pesquisado, fundamentado no pensamento do filósofo alemão. O mais importante, bem claro, deveria ser a análise. O objetivo consistia em estimular a reflexão sobre o Direito nos diversos contextos históricos. Era possível que “colassem” (observei que, em alguns casos, as fontes da “pesquisa” são as mesmas, com repetições de expressões). Mas não seria tão fácil “colar” na argumentação e análise, a não ser que se aposte que o professor não lerá. Pelo menos foi o que imaginei!

Em muitos casos faltou o principal: analisar o ordenamento jurídico, amparando-se na teoria de Karl Marx. Compreendi os limites e reconheci o esforço. Nem recorri ao google para comprovar indícios do CTRL C / CTRL V. Houve um caso, porém, que me deixou intrigado: o(a) acadêmico(a) tentou expor o ordenamento jurídico do período escolhido e, na segunda parte, apresentou o que deveria ser a análise. Como em outros casos, não analisou e resumiu-se a expor o contexto histórico. Não atendeu, portanto, ao solicitado. Se fosse apenas esse fator, seria tolerável.

Iniciei a leitura da segunda parte já sabendo desse limite. À medida que avançava percebia algo familiar no que lia. Déjà vu! Não demorou muito para, como se diz na gíria, “cair a ficha”. A familiaridade com o texto tinha uma explicação tão simples quanto risível: o(a) acadêmico(a) honrou-me com a leitura e, conseqüentemente, a “cola” de parte da minha dissertação de mestrado. As minhas palavras estavam lá, com alguns cortes e certa montagem, mas com trechos inteiros em parágrafos contínuos. Reconheci-me e, para não ser injusto, fiz a averiguação. Eis a fonte: “Contribuição à história do marxismo no Brasil – I – Contextualização”. REA nº 54, novembro de 2005, disponível em http://www.espacoacademico.com.br/054/54pol.htm. Autor? Eu próprio!

Irritei-me, decepcionei-me, mas, por fim, até pareceu-me cômico, mas digno de reflexão. Fiquei a pensar: será que o texto foi lido ou simplesmente copiado e colado? Será que o(a) aluno(a) não percebeu a autoria? Mas está tão claro! Será que apostou que eu não leria e se lesse não lembraria o que escrevi? Será que acreditou que a “maquiagem” seria suficiente para despistar o leitor? Afinal, o que leva um ser humano adulto, inteligente, provavelmente com QI acima da média, estudante de um dos cursos mais concorridos no Brasil, a agir dessa maneira? Vai saber! Como escreveu Shakespeare, “há mais coisas entre o céu e a terra do que sonha a nossa vã filosofia”. O meu dilema foi, então, definir a nota: dez poderia parecer narcisismo! Que fazer?! Que você faria, caro(a) leitor(a)?

12 comentários sobre “Déjà vu! Um causo especial de “cola”

  1. É professor, podemos voltar a hierarquia colonial, onde o homem professor é esse o “ser” supremo distanciado dos alunos que os cercam. O que significa o termo “universidade”? Qual o papel do professor na formação da opinião critica do aluno? Será que existe uma sensibilidade do professor em reconhecer sua praxis, e contagiar o aluno ao metodo anti-burocratico? Não sei responder essas e varias outras perguntas que me encomodam, mas Ozai, sua liberdade e aproximação de relação professor/aluno é realmente motivadora e peculiar no meio academico burocratizante. Isso mostra o distanciamente dos professores, que, preferem continuar num reducionismo de provar a capacidade do individuo através de uma avaliação de 2hrs. Continue assim professor, pelo menos em nossas lembranças voçê sempre permanecerá diferenciado.

  2. Amigos/as só há maneira de contribuirmos com os estudantes: assumirmos que a metodologia para pesquisa cientifica não é tarefa de um/a único professor/a e tarefa de todo o corpo docente.Infelizmente já vi colegas que não conhecem ou ignoram as normas e aprovam a cola.Eu sou professora de metodologia e mesmo em minhas aulas de outras matérias reforço que os estudantes usem o manual da instituição. Quando pego plágio seja de livros ou internet, devolvo o trabalho e dou uma chance; quam colar novamente dou zero.Percebo que o maior problema é a preguiça mesmo.Um abraço,maria Newnum

  3. rapaz,cheguei ao teu blog agora, e cai na tentação de escrever um comentário sem ler os que o fizeram antes de mim.me perdoa a chatice, mas algo me chocou.imagino o que deva ser ouvir cousas como o que escreveu ‘não interessa o nome…’se só de ler já dá um aperto no peito, imagino ouvir isso de um aluno.um sentimento estranho, como que se estivesse no trem lotado da central com as palavras de bauman na mente. mistura de nojo, raiva, estímulo,…

  4. não me parece que seja caso de pura displicência, nem de tentativa de malandragem. mas de falta de conhecimento sobre o quê é um trabalho acadêmico.em tempos atuais, os blogs, os recantos das letras, o fácil acesso a artigos (google scholar, etc.), as wikis (que não têm que assine os artigos) e afins, acabam tornando público e a a mão o conhecimento (ou o alcance), ao mesmo tempo em que se deixa de respeitar os direitos autorais. por mais inusitado que seja o causo, trata-se de uma afronta ao bom senso, além de transgressão dos direitos de propriedade intelectual, de Berna, e por aí vai…ou seja, o aluno não tem a mínima intimidade com publicações acadêmicas, posto que poderia muito bem citar teu trabalho, fazendo as referências devidas. aí sim, neste caso, seria motivo de orgulho.entretanto, além de desconhecer os procedimentos, sequer há (houve) a curiosidade de procurar sobre. isso sim, me parece, é o mais lastimável. Abraço

  5. Estimado Ozaí:Acabo de ler os últimos 2 posts.Fiquei muito intrigado ao ler as palavras escritas à 7 séculos.Pensei em minha formação acadêmica.Por conta do ativismo estudantil fiz três colégios diferentes.Concluí o ensino técnico com o desenvolvimento de um software para cadastro de livros em bibliotecas. Mas o que mais me agradava na computação era a editoração: criar livros. Por isso eu fiz um manual do software mais bonito e importante do que o próprio software… eu explicava como foi feito e como funcionava. Diagramei na forma de um livreto/brochura… Gastei semanas fazendo ele… Numa época em que eu usava o micro do estágio… Não tinha computador em casa.A primeira reação da professora foi perguntar se eu tinha copiado ou mandado alguém fazer.Foi terrível.Na universidade minha primeira experiência não foi das melhores. Tentei fazer FATEC São Paulo, mas a luta contra os planos do Covas me formara em greve, da qual fui muito bem… Mas minha formação final se deu na Fundação Santo André (nessa semana, ufa, terminei uma DP que me amarrou por um ano)…Lá eu ví pessoas que saiam da fábrica e dormiam na sala de aula.Eu ví colegas que pararam o curso porque não tinham sequer o dinheiro da condução.Eu ví gente que passa horas de pé num ônibus tentando chegar atrasado e tendo que sair das salas mais cedo.Eu ví estudantes dívidindo xerox para ler livros. Ví colegas comprando edições da tosca Martin Claret, tentando ler clássicos das ciências sociais naquelas edições deformadas.Eu ví um tipo de herói anônimo que conquista um diploma pela qual tenta pagar (na maioria das vezes leva consigo uma dívida por anos) que sempre é esquecido.Quantos destes não tombaram de depressão e desânimo por se sentirem frustrados por não conseguirem aprender?Certa vez na FATEC, já como diretor do C.A. XXIII de Abril, um companheiro, que havia sido do CA no final da ditadura e na reconstrução da UNE me explicou: “A FATEC é uma faculdade assentada sobre ossos, sobre os ossos de milhares que vieram para cá tentar uma faculdade e foram destruidos, literalmente tiveram suas formações assassinadas pela tortura de uma faculdade que não ajuda seus estudantes a terem as condições para ir até o fim…”Quem come dog de 1 real todos os dias… sabe que não há aparelho digestivo que resista.Alguns se matavam para fazer os trabalhos.Outros com mais tempo, solidários, no sentido proletário da palavra — no melhor do mov.operário estadunidense e do velho socorro vermelho — se esforçavam em ajudar amigos enforcados pela combinação trabalho, família, faculdade, horas de sono — quando nâo militância organizada.Ví uns que simplesmente compravam trabalhos.Fui salvo diversas vezes, frente ao esgotamento, pela solidariedade de camaradas, no sentido mas stricto-senso da palavra.Muitas vezes, num grupo, cada um pega aquilo que gosta ou que pode para fazer. E confiamos uns nos outros para chegar onde for possível chegar.E todo estudante e submetido a uma contradição brutal e dilacerante: quer aprender, mas prefere que o professor falte.Lembro da ausência de um professor numa disciplina. Lutamos, reivindicamos e conquistamos… Quando houve a reposição… Poucos apareciam… Alternavamos quem ia para assinar a lista para a sala.Qual a razão? A exaustão. O cansaço. A fome. O sono. O desejo de namorar… tudo isso oprimindo o estudante trabalhador…Deste modo, defendo o plágio? O Ctrl-C / Ctrl-V?Não…Mas sinto que o problema está colado nas condições.Lembro de ter lido uma edição da revista Veja dos anos 70 onde uma dirigente do DCE Livre da USP que reivindicava que todo estudante universitário deveria ter as condições que possui um estudante da Academica Militar das Agulhas Negras.Lá “O Aluno receberá durante o curso um vencimento mensal, assistência médica, odontológica e psicopedagógica. Receberá também fardamento, alimentação adequada e disporá de alojamento.” Uma bolsa/vencimento de “aprocimadamente R$ 630,00”. (http://www.epce.g12.br/concurso.php?w=32)Será que não está ai a solução dessa dificuldade?Não que toda universidade deva ser uma Acadêmia Militar, mas ao contrário, que toda universidade tenha tal assistência estudantil, que permita ele se dedicar aos estudos e produzir livremente sua elaboração e estudo?A escola do Francisco Ferrer, questionava os métodos de avaliação opressores, que pouco avaliavam.Eu tendo a pensar que a estupidez também ajuda nesses fatos como o narrado por você.Mas acho que as condições que criam essa deformação são as maiores responsáveis.É ai que está a RAIZ.Desculpe a mensagem tão longa.Um forte e fraterno abraço,– Alexandre Linaresalexandrelinares@gmail.comESTUDO E PESQUISA:www.gpopai.usp.brPOESIA:www.adesonradospoetas.rua507.comPOLÍTICA:www.juventuderevolucao.org”Buscar a verdade e dizê-la”Jean Jaurès

  6. Kharis kai eireneCaro Ozaí, infelizmente essa é uma prática cada vez mais comum nos trabalhos e pesquisas entre os acadêmicos. Não apenas entre os tais, mas também em “candidatos a escritores”. Sou professor e avaliador de obras de algumas editoras, e, infelizmente, fico irritado com a quantidade de obras que usam indevidamente textos da internet. Alguns de meus alunos na faculdade sofrem do mesmo “espírito” que perturba a vida acadêmica. Estou fazendo um curso acadêmico com alguns professores, fico também incomodado em ver como nossos colegas usam instrumentos ilegais para realizarem os exames, como o comportamento dos mesmos imitam os alunos do ensino fundamental.Precisamos de mais ética entre os acadêmicos.Um abraçoEsdras Bentho

  7. Caro Ozaí,Estou fazendo um curso na UFRJ sobre o uso de mídias na educação. Gostei imensamente da temática abordada por você e resolvi enviá-la aos meus colegas de curso, pois fará parte de nossa pesquisa.

  8. A melhor solução que eu ví até hoje para esse tipo de problema é deixar um amplo espaço para o aluno escolher o tema do trabalho dentro da disciplina. Quando o aluno escolhe o que estudar, ele se motiva. Do contrário, é necessário conseguir convencê-lo de que o que se propôe estudar vai realmente ser importante, realmente fazer falta. Se não se consegue convencer o aluno, ele vê o curso somente como tempo a ser cumprido e obrigações eventualmente a serem sabotadas.

  9. Só tenho medo de ter passado que eu estava defendendo o aluno, longe disso, o que ele fez foi muito errado, mas esse é um exemplo que nos ajuda a criticar o positivismo dentro da universidade, e essa busca pela melhor nota, para mostrar-se o melhor aluno perante a sociedade. O sistema é óbvio não nos isenta da culpa por colar, mas acho que o modo de produção tem lá sua culpa

  10. Eu imagino que um fato como esse deve deixar qualquer professor arrasado, embora eu saiba que isso é resultado desse mundo capitalista, no qual todos nós devemos sempre nos portar como se vivêssemos em uma selva, na qual todos temos que dar o melhor de si mesmo, para sempre estarmos na frente de nosso semelhante. Colar na faculdade é apenas mais um capítulo dessa realidade. Não conheço os motivos desse aluno, mas provavelmente colou, para conseguir a melhor nota, para ficar bem aos olhos da sociedade, mostrar-se melhor em relação aos seus amigos e familiares. O que é claro não passa de um motivo ridículo, mas totalmente inserido em uma realidade onde todos os dias devemos ser melhor que os outros. Ainda mais inserido em uma instituição tão positivista quanto uma universidade pública, se a realidade já é tão horrível eu imagino o que aconteceria caso certos setores da elite aprovem as reformas neoliberais trabalhistas e tributárias que apenas aumentariam a competição entre os brasileiros, imagina se seguido disso as universidades e escolas adotarem os métodos de competição entre as universidades e a meritocracia pregados por uma certa revista semanal.

  11. Professor, sei que você é muito dedicado nas suas aulas e tem um grande apresso, ou melhor, acredita muito nessa nova geração de alunos das Ciências Humanas em geral, no meu caso, aluno de Ciências Sociais. A liberdade dada por você na busca do conhecimento autônomo pelo aluno é uma característica ÍMPAR que muitos não sabem valorizar como se deve. Dificilmente encontram-se professores que conseguem ligar o conteúdo de uma disciplina com os interesses particulares dos alunos. Fazer o aluno pesquisar e dentro daquilo que se apresenta como novo (conteúdo da disciplina) vincular algum tipo de interesse particular é uma maneira muito interessante de realizar o processo de formação. Quando informados sobre apresentação de seminários e as análises políticas de obras literárias como formas de avaliação, também tivemos a liberdade de escolher sobre aquilo que iríamos falar e que obra poderíamos analisar, porém sem deixar a perspectiva central da disciplina vigente de lado, POLÍTICA IV!!! É muito triste que pessoas não saibam valorizar uma forma de avaliação que ao invés de amarrar os alunos às terríveis e insuficientes quatro horas de prova os liberte para a pesquisa daquilo que os interessa de maneira mais efetiva (isso não quer dizer uma liberação do contato com todo o assunto da disciplina, mas sim uma escolha sobre aquilo que chama mais atenção, que desperta mais interesse, e para realizar essa escolha o indivíduo deve entrar em contato com as diversas vertentes, teorias, explicações, textos, etc.). A pesquisa, em minha opinião, é algo delicado, lento e trabalhoso que não abre espaço para “COLA”, afinal, toda a perspectiva de autonomia de uma pesquisa se perde no momento em que você utiliza-se de outro sem dar a ele o devido respeito, e pior, roubando idéias e colocando como suas (aspas bem colocadas resolveria este problema). Respondendo a pergunta, sugiro um ZERO, bem redondo, afinal, fica bem claro o desprezo pelo trabalho do professor e pelo o próprio processo de formação desse indivíduo (a). Se pessoas inteligentes (acadêmicos) não conseguem ter certo discernimento do que é uma pesquisa e o respeito que se deve ter pelo trabalho acadêmico é sinal de um grande processo de banalização que a Universidade vem sofrendo, ou seja, a fuga da idéia de uma instituição que prima pela formação e construção de novas e grandes idéias. Como futuro professor, espero, não quero dedicar horas do meu dia realizando pesquisa no GOOGLE, seria o mesmo que dizer: O meu trabalho não está valendo nada!!!!!!Felipe, 3° ano de Ciências Sociais!!!!

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