Quanto vale a vida?!

No filme Live! (Ao vivo!)*, do diretor Bill Guttentag, a vida vale 5 milhões de dólares. O filme relata a história de Katy Coubert (interpretada por Eva Mendes), diretora de um programa da TV cujo objetivo é conquistar recorde de audiência. A idéia é produzir um programa baseado no jogo da roleta russa, algo capaz de superar os reality shows e impactar a sociedade. O jogo é conhecido: um revólver, seis concorrentes, uma bala, um morto. Eles sabem que um não sobreviverá. Os que saírem ilesos receberão o prêmio e transformarão suas vidas. Aos familiares do morto restarão apenas as lamentações e a dor, mas nenhuma recompensa financeira.

Os de espírito mórbido poderão se deleitar com o espetáculo da morte. Na verdade, é o tipo de tensão que muitos precisam e encontram no rol dos programas oferecidos pela TV. A tese de Katy Coubert é que o público busca algo assim e ela apenas atende aos anseios deste, mas de uma forma que justifica o que oferece. O argumento é que o prêmio proporcionará uma vida nova – e as histórias dos escolhidos para participar da roleta russa parecem confirmar. A vida que se esvai com a bala que dilacera a cabeça do “sorteado pelo destino” não tem qualquer importância. A atenção volta-se para aquele que seria o próximo a apontar a arma para a própria cabeça e apertar o gatilho. Enquanto o corpo jaz no auditório, todos festejam.

Por que ter dó do morto? Não foi sua livre escolha? Eis o principal argumento para convencer as vozes dissonantes que poderiam impedir o programa. Se a liberdade é plena, tenho o direito de dispor do meu corpo e, em público, colocá-lo em risco. Quem tem o direito de impedir a minha opção se esta é a minha liberdade?

Como é comum aos reality shows, o público tende a se envolver com os personagens, seus sonhos e dramas. O risco é passar a torcer para um deles e perder o senso crítico. Por outro lado, o filme representa uma vigorosa denúncia da TV, o que esta representa, os interesses que envolvem e o vale tudo para ganhar audiência e, assim, garantir os anunciantes. É interessante como Katy Coubert convence os representantes das empresas. A venda dos produtos que comercializam é muito mais importante do que a vida humana; se a morte é um componente necessário para a propaganda e a realização dos lucros, paciência! É a sociedade de consumo que dá sustentação a coisas desse tipo.

Isso, porém, é apenas um dos aspectos. Como argumenta a diretora do programa Live!, a identificação das multidões pela morte é antiga: a morte de gladiadores no coliseu romano, a queima de corpos nas fogueiras da inquisição, enforcamentos, cabeças decepadas pelas guilhotinas na França pós-revolucionária, execuções de escravos negros em praça pública, etc. O cumprimento da pena de morte no mundo moderno, a banalização da violência na TV com a transmissão ao vivo, e à exaustão, de casos como o das meninas Izabela e Eloá. Da antiguidade à modernidade, eis as multidões em êxtase diante da morte transformada num evento extraordinário e espetacular. De onde vem essa identificação?

Quanto vale a vida? Cinco milhões? Mais? Ou nada? Depende das circunstâncias. Há quem seja capaz de matar pelo simples prazer da ação, sem qualquer recompensa financeira. Outros se colocam a serviço dos que não tem coragem de matar, mas tem dinheiro para contratar e pagar. Cotidianamente, muitos esvaem suas energias vitais a troco do suficiente para sobreviverem. Morrem a cada dia para prolongar a vida, ainda que esta seja miserável. As justificativas para a morte são muitas, até mesmo políticas – olhemos para o que acontece na Faixa de Gaza! Nem sempre é uma escolha feita em plena liberdade. Mas vale a pena ganhar cinco milhões se isto significou a perda de uma vida?

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* Live! (Ao Vivo!), EUA, 2007. Direção: Bill Guttentag. Elenco: Eva Mendes, David Krumholtz, Jay Hernandez, Jeffrey Dean Morgan, Katie Cassidy, Eric Lively, Rob Brown, Monet Mazur, Andre Braugher [Drama, 96 minutos]

7 comentários sobre “Quanto vale a vida?!

  1. devia existir um programa assim realmente,no filme eles todos podem morrer mas tambem ganhar 5 milhoes!

  2. Se programas sensalionalistas persistem isso se deve exclusivamente á sociedade que dá audiência pra programas deploráveis.

  3. Caro Ozaí,É deprimente ver o nível dos programas de TV, o que não ocorre só no Brasil. Mas, se este tipo de programação persiste é porque grande parte da população garante a audiência. Alguém poderia dizer que isso deve ser relacionado ao problema social que devassa a sociedade brasileira. Concordo, mas acrescentaria um problema moral, talvez pior do que o social. Não podemos confundir a formação moral do indivíduo com a formação intelectual (educacional) do mesmo. Você comenta que, segundo o filme, as pessoas devem ter liberdade para escolher entre a vida e a morte. No caso citado não vejo onde está o livre arbítrio, afinal a motivação da morte é uma necessidade financeira. Liberdade e liberalismo são duas coisas muito diferentes. Vivemos numa democracia onde há uma pseudo liberdade.Se é que se pode chamar isto de democracia!Abs.Leandro

  4. Infelizmente essa e a realidade na Faixa de Gaza, eles viveram os últimos dias em um show de realidade macabro, onde suas mortes e agonias eram acompanhadas ao vivo em horário “nobre”, é impressionante parar e refletir para essa tremenda banalização pela qual a vida humana passa, uma matança como a de Gaza, movida como parte da campanha eleitoral de Israel.

  5. Nossa,isso não é natural. Não,não pode ser!Mas enfim, o que vemos de manhã até a noite em nossos meios de comunicação, nada mais que são uma roleta russa que vai rodando, rodando até que também nos mata pelos noticiários escandalosos. Sinto por dentro algo me pressionando, me torcendo por dentro, que até quando estou fazendo minhas refeições vou ingerindo, mas será que digerindo bem os alimentos? Realmente estamos ajudando na audiência desses tipos de programas. Me perdoe, pois acho que fugi do tema, mas essa tem sido a minha roleta russa, seja em casa, no carro e por aí vai.

  6. Caro Ozaí,Excelente comentário. Gostaria de reproduzi-lo no meu blog, você permite?Um abraço.Alberto Moby

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