Aprender com o professor negro Damião

para Ana Paula e Leonardo

A literatura, especialmente o romance histórico, é um excelente recurso didático para o aprendizado. Os tambores de São Luís, de Josué Montello*, é um ótimo exemplo. Ambientado no Maranhão da segunda metade do século XIX, este livro revela os costumes e a mentalidade da sociedade escravocrata maranhense e brasileira.

Ao ler esta obra aprendi mais sobre a história do Brasil do que as leituras que fiz na fase estudantil. Recordo das aulas de História do Brasil, no antigo ginasial e colegial, como uma coleção de datas e personagens. Eram ensinamentos factuais, algo para memorizar porque ia ‘cair na prova’. Não éramos estimulados a pensar sobre o significado desse passado em nossas vidas. A exceção que ficou em minha memória foram as aulas de História ministradas pelo professor Domingos. Seu método consistia em defender coisas escabrosas como a escravidão e, assim, provocar a turma. Um método no mínimo polêmico, mas que nos levava a pensar. Lembro que fui um dos mais exaltados e ele parecia divertir-se.

Os esforços do meu saudoso professor, não obstante, não foram suficientes para a superação de uma visão da história do Brasil que, na prática, excluía os negros. As elites daquela época imaginaram um Brasil branco e, assim, também contribuíram para ‘branquear’ a História deste país. Dessa forma, mesmo os setores identificados ideologicamente à esquerda aceitaram o ‘branqueamento’ da história do movimento operário no Brasil. Era essa história, focada nos imigrantes brancos, especialmente italianos, que eu repetia acriticamente nos cursos e palestras que dava por esse Brasil afora. Os negros sumiam dessa história. Quando muito, a referência à raça negra nos levava de volta ao período escravocrata.

Tive outros ‘professores’ que me fizeram compreender melhor essa face da história brasileira tão presente em nosso cotidiano. Agora, a literatura me premiou com outro mestre, com o qual aprendi muito: o professor Damião. Personagem central de Os Tambores de São Luís, Damião ensina a ver com maior acuidade e compreender o significado da escravidão na formação dessa nação. Acompanhando seu trajeto, sofrimentos, sonhos, decepções, inquietudes, dilemas e realizações, aprendemos a ver a realidade histórica sem maniqueísmo. Mérito do autor!

Realidade histórica e ficção confundem-se, mas não comprometem o caráter de romance da obra.** Arte e vida fundem-se de tal forma que o leitor, como num passe de mágica, transporta-se para o que lê e vive a vida dos seus personagens, identificando-se e torcendo por eles. Num vai-e-vem constante, o leitor retorna ao seu tempo, à sua realidade. Ele vê, então, o quanto o mundo dos mortos, daqueles personagens do século XIX, habita os corações e as mentes do mundo dos vivos. A percepção da presença do passado e o envolvimento do leitor com esse, ainda que romanceado, transforma a sua subjetividade e reafirma a necessidade de comprometer-se com o mundo dos vivos, a exemplo de Damião.

Deixe-se levar por ele pelas ruas de São Luís; deixe-se sentir os sentimentos do negro Damião; indigne-se como ele e tente compreender a mentalidade dos seus algozes. Todos eles são filhos de uma época e nós somos os seus herdeiros. Compreendê-los é também uma forma de nos conhecermos melhor, como indivíduos e sociedade.

Há, ainda, um significado especial: este livro me mantém vinculado a amizades construídas em minha trajetória e assinala “os bons momentos e as pessoas especiais” que guardamos no coração. Foi um dos melhores livros que li na minha vida. Depois de lê-lo, não sou mais o mesmo. É um daqueles presentes inesquecíveis que nos marcam pelo resto da vida.

__________
* MONTELLO, Josué. Os Tambores de São Luís. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2005 (668p.).
** Esse aspecto é salientado por Wilson Martins na apresentação da obra. Leia em “Literatura Política e Sociedade” <http://antoniozai.blogspot.com/2009/01/arte-do-romance.html>.

7 comentários sobre “Aprender com o professor negro Damião

  1. Olá, Profº Ozai. Muito interessante o seu Blog, e de grande relevância o artigo sobre Os Tambores de São Luís. Sou o cineasta carioca, Flávio Leandro, e comunico-lhe que o romance do Josué Montello será transformado em filme de longa metragem em 2015. Tentarei ser fiel ao máximo à narrativa do filme para que o filme tenha a mesma abordagem e natureza de informar e ensinar, muito latente no romance.
    Um grande abraços.
    Flávio Leandro
    http://www.cineastaflavioleandro.blogspot.com

    • Caro Flávio,

      boa noite!
      Obrigado por ler e comentar o post.
      Estou aberto às críticas e sugestões.
      Ótima notícia, desejo sucesso na realização do filme.
      Parabéns pela iniciativa.

      Abraços e ótima semana

  2. além de agradecer ao Ozai, acho que devo agradecer também a Leonardo e Ana. Descobrir um bom romance é tao bom como fazer uma viagem maravilhosa e, com Os tambores de Sao Luis, o duro é apagar a luz e fechar a cortina do mundo magico do Sao Luis do Damiao.com os agradecimentos de uma fiel leitora de romances, grande chave magica para desvendar o real.ReginaPS se algum dia for a Sao Luis, pedirei que também me guiem na sua cidade, esperando que ainda se possa ver o céu noturno tao bonito quanto o da noite do Damiao.

  3. Nossa. Incrivel e dá vontade de ler o livro.Achei interessante seu comentário sobre o professor. Gostaria de ser assim, em algum tempo espero dar aulas de história.Uma reflexão muito pertinente, “branqueamento da história brasileira”, vou pensar mais a respeito.Obrigadoe Parabéns professor.

  4. Bom sentir que São Luís continua presente em suas lembranças e reflexões. Obrigada por divulgar nossa ilha em seu blog. Espero qe possa retornar em breve para continuarmos o valioso diálogo iniciado.Abraços.Miriam.

  5. Caro amigo Ozaí,fico muito honrado que tenhas gostado do humilde presente e que este tenha inspirado este texto profundo que nos faz refletir sobre nossa história e nossa cultura. Saiba que a recíproca quanto ao sentimento de amizade é verdadeira…agora quando retornares a São Luís poderemos levá-lo para visitar as ruas e lugares que fazem parte desta obra fenomenal de um escritor não muito lembrado por maranhenses e brasileiros.Um grande abraço meu e de Ana.Leonardo Coimbra.

  6. Sempre admirei a figura do Josué Montello, mas nunca li um livro seu!! Agora creio que irei fazê-lo, pois estímulo já não mais me falta. Ozaí, aliás, quem é esse casal? Que são seus ex-alunos é bem perceptível… As marcas do “mestre” costumam impregnar o “discípulo”!Abraços em todosAbel

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