Carta a um pai

Caro Sr. Giuseppe Englaro, provavelmente jamais nos conheceremos e nem o Sr. lerá estas palavras. Porém, ao assistir as cenas sobre a transferência da sua filha, Eluana, e saber da tragédia que envolveu o Sr. e sua família durante os últimos 17 anos, senti a necessidade de escrever. Mais do que palavras, quero expressar minha solidariedade.

Também sou pai e, como tal, compreendo os seus sentimentos e a sua atitude. Coincidentemente, tenho uma filha que se chama Luana, o que me faz lembrar a sua Eluana. Se estivéssemos na mesma situação, seguiria o seu exemplo.

Não bastasse o sofrimento diante do acidente que vitimou a sua filha e, depois, vê-la numa condição vegetativa nestes longos anos, imagino o quanto também foi difícil enfrentar a tirania da maioria, o governo, a justiça e as autoridades religiosas. Admiro a sua luta para atender a vontade da sua filha e libertá-la.

O Sr. enfrentou e enfrenta muitas resistências. Mesmo depois que a justiça decidiu a seu favor, não lhe dão sossego. Li que o governo aprovou decreto-lei de urgência para barrar a decisão judicial e que o Papa apóia a campanha dos “defensores” da vida, os mesmos que tentaram impedir a transferência da sua filha e, agora, perturbam a sua paz nas imediações da clínica La Quiete de Udine. Eles, o Sr. Berlusconi e a Vossa Santidade, estão acima da justiça? Por que, então, não aceitam o veredicto?

Muitos deles são pais, mas será que ao menos tentam compreender sua dor como pai? Por que não respeitam a sua decisão? Eles se consideram defensores das ‘leis divinas’ e soldados que combatem por elas. São egoístas que imaginam salvar as almas obrigando os outros a seguirem seus princípios religiosos.

Que direito eles têm de se meterem em nossas vidas? Por que não cuidam das próprias vidas, filhos e das almas? Seria melhor que ficassem em silêncio respeitoso. Como disse o crucificado: “Eles não sabem o que fazem!” Se soubessem, eles respeitariam sua dor e sofrimento. Se eles soubessem, até o perdoariam – se isto fosse necessário.

Somos nós que devemos perdoá-los pela intolerância e intransigência; por quererem impor seus valores; por acreditarem que têm um mandato sagrado que concede o direito de desrespeitar o direito dos outros, um direito reconhecido até mesmo pela justiça.

Caro Sr. Englaro, reafirmo minha solidariedade e respeito à sua decisão.

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* Imagem: Eluana Englaro em foto não-datada divulgada pela família.
** ver o vídeo em http://cienciapolitica-dcsuem.blogspot.com/2009/02/italiana-em-coma-e-levada-clinica-para.html

8 comentários sobre “Carta a um pai

  1. Olá Antonio,Muito oportuno o seu texto, bem como a publicação posterior. A eutanásia, o direito de morrer, etc, são discussões relativamente novas justamente por causa dos avanços da medicina moderna. Isto é, há 100 anos atrás, por exemplo, pessoas dadas como mortas, como no caso dessa moça, estariam mortas. Não havia nenhum recurso para conservar seus corpos por tempo indefinido. Mesmo que ocorrido por uma fatalidade, elas estariam no seu direito pleno de morrer. Hoje, instituições e governos tiram o direito dos indivíduos, e legislam sobre ele como bem entendem. E não bastasse isso, vem a religião, com a prerrogativa de uma lei ainda mais superior, estabelecer leis e dogmas sobre as pessoas que, muitas vezes, nem promulgam daquela crença.De fato não é uma decisão fácil, mas acredito que as únicas pessoas que têm a mais acertada capacidade de escolha são a própria pessoa envolvida e seus familiares.Então, é usurpação de direito não podermos escolher. E se não temos a faculdade para tal escolha, que nossos familiares ou pessoas íntimas, falem por nós.Compartilho, mesmo, contigo o pensamento.Talvez a solução adequada num futuro próximo seja o de ao chegarmos à maioridade, assinarmos documentos legais de direitos básicos que autorizem, entre outras coisas: a doação de órgãos, a cremação, a eutanásia, etc, em seus respectivos casos. E será que virá mais alguma lei para, novamente, nos admoestar?

  2. Sem apelar para a riligião puramente dita, mas tudo depende da fé da pessoa. Ao considerarmos as palavras de Cristo, quando disse que se tivermos fé do tamanho de um grão de mostarda, poderemos até mesmo mover os montes, sou levado a crer que para Deus nada é impossível. Por que seria impossível ela sair do coma se até um monte pode se mover? Claro, nesse tipo de situação muitos preferem se calar. Eu prefiro me calar, mas não devo. Devo dizer no que acredito. Insisto que enquanto crermos somente no possível, o impossível nunca ocorrerá.(não ouso criticar a decisão do pai dela, apenas afirmo a minha opinião).

  3. Assistindo ao filme “Menina de Ouro “esta semana, me remeteu a grande polemica do direito de um ser humana decidir que outro acabe com seu sofrimento que todos sabem nao ter mais jeito,angustia desse pai que alem de nao ter apoio da sociedade para findar com esse sofrimento incabivel de sua filha tao amada e querida ,ainda tem que lutar por tantos anos contra a justiça que se diz saber o que é certo sentindo-se dono dos nossos atos e direitos de ir e vir.Sera que nao se colocam no lugar desse pai ?Porque o aborto na Europa é permitido?Se estam tirando uma vida do mesmo jeito,so que por rasoes diferentes ,pois ha maneiras de ser evitada a gravidez.Onde esta a consciencia dos governante cuando aprovam a :pena de morte ,o aborto etc.?Precisamos saber que cada individuo tem seus prorios limites e decidir por eles.

  4. Prezado Ozaíjá é mesmo tempo de o mundo e as pessoas deixarem a hipocrisia de lado e ver e sentir os acontecimentos de forma humana e objetiva,nem sempre ver de forma sentimental é humano.Como sempre, assino em baixo seu texto tão humano”Caro Sr. Englaro, reafirmo minha solidariedade e respeito à sua decisão”.Sempre sua leitora,Neide Pessoa

  5. Belo texto, ótimo para se refletir em tempos tão conturbados como os nossos, e até para testarmos nossos limites de militância política, pois o assunto que poderia render um acalorado debate, seria apenas uma imensa de tempo, e um desrespeito gigantesco para a família da garota.

  6. Prezado Ozai,Ha meses atras, a revista http://www.retors.net aceitou um texto meu sobre a morte de meu pai num hospital de Sao Paulo, e sua manutençao na UTI durante um tempo que nos pareceu infinitamente longo, ja que nao tinhamos esperança de que ele voltasse a ser o que era. Mesmo assim, nosso sofrimento nem de longe se compara ao desse senhor italiano.Meu texto esta em francês e nao tenho coragem de traduzir – se o escrevi, foi para dar testemunho, mas foi muito duro e nao tenho coragem de recomeçar. Uma vez publicado, graças ao interesse dessa otima revista, o luto esta cumprido e deixo a outros continuar falando da nossa perigosa tecnologia atual, que mantém a morte em compasso de espera.RETORS, nas palavras de suas editoras, Sarah Cillaire et Monika Prochniewicz, « nasceu da vontade de tornar acessiveis aos leitores franceses textos de autores estrangeiros ainda inéditos na França. » Além disso, a revista aceita eventualmente relatos de temas que julga pertinentes, desde que traduzidos em francês.A pagina da revista para ler meu depoimento sobre o tao controvertido tema da eutanasia éhttp://retors.net/spip.php?article135um abraço,Regina

  7. Meu prezadoDe uns tempos para cá, venho me obstendo de ler ou ouvir certas noticias, mas de um certo tempo, também, leio muito rapidamente sobre esse caso. Será que minha abstinência é por covardia? Ou será que estamos tão violentos que nos acovardamos diante de tudo que passa pela nossa retina? Estamos sempre com os rostos virados para o lado? Mas como ia dizendo, resolvi ler sua página quando o assunto é esse em pauta. Minha dor por esse pai aumentou ainda mais, já quase que chegando ao meio de seus comentários. Me deu uma dor no peito e um sentimento de covardia que não sei nem explicar. Obrigado por me fazer abrir os olhos para as coisas da vida.Pedro Buenobuenp.pedro@gmail.com

  8. Belo texto, tão profundo quanto a situação inédita que vive esse pai. Transmite não só um respeito sentimento de solidariedade, mas um profundo sentido de reflexão sobre a vida, sobre a moral, sobre a liberdade humana.Como é triste viver numa sociedade de intolerantes, de desrespeitadores da vontade pessoal, da liberdade individual, da dignidade humana, enfim. Como podem ser fanáticos alguns pretensos humanistas…

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