As palavras do pai de Eluana

Recebi vários comentários sobre o texto “Carta a um pai”, também publicado no Portal Mhário Lincoln do Brasil e Café História. Tento entender os argumentos dos meus leitores, especialmente daqueles que discordam e recorrem à religião. Pensei em responder, mas pareceu-me melhor deixá-los entregues à própria crença. Considero, porém, que a melhor resposta é a de quem sofreu diretamente esta tragédia. Reproduzo abaixo, portanto, as palavras de Beppino Englaro, pai de Eluana, em entrevista ao UOL Notícias*:


“Morta há 17 anos”

Desde o primeiro dia, nós não pudemos entrar em contato com nossa filha. Assim, para nós, ela está morta desde 18 de janeiro de 1992.

O pior momento foi quando os diagnósticos e as provas definitivas estavam prontas, em janeiro de 1994, quando, em resumo, se verificou que [Eluana] não reagia e que não havia mais solução. A situação de minha filha era essa: estado vegetativo permanente. É esse o estado dela até hoje.

Esperança de sair do coma

Desde o início, a ciência médica sabia bem pouco sobre a situação em que se encontrava Eluana. Ninguém era capaz de dizer nada. Não se trata de esperança. Se trata de ver a realidade com a sua concretude dos fatos. E o fato é que ninguém sabia nada e o desconhecimento era total. Assim houve a evolução que ela teve, que foi a piora de sua situação. Isso é desumano porque não existe na natureza o estado vegetativo permanente. A medicina é que acredita [no estado vegetativo permanente], com a sua intervenção para reanimação em algumas situações.

Isso deve estar claro para toda a humanidade: o estado vegetativo permanente é o último recurso de um procedimento de reanimação em determinadas situações que não pode ser excluído. Não se pode dizer não a esse recurso de terapia em um primeiro momento.

Liberdade pessoal e imposição médica

Eu sempre acreditei que a liberdade é fundamental. Mas quando ocorreu o incidente, me dei conta que há outros que se dispõem das vidas das pessoas. Eu nunca sonhei que um médico pudesse dispor da vida de Eluana como dispôs. Eu não sabia. O que ficou claro a partir de 18 de janeiro de 1992 é que a vontade pessoal não é capaz de mudar a vontade da sociedade.

Eluana não queria uma vida vegetativa”

Eu dei voz à minha filha. Eluana conhecia bem essa situação [de estado vegetativo permanente]. E ela disse claramente “não” à intervenção médica para reanimação sem resultados concretos. Disse “não” ao estado vegetativo permanente como último recurso. Eu não sabia que os médicos tinham esse poder de criar essa situação. Não sabia que o estado da medicina fosse tão limitado. E que a parte jurídica fosse assim complexa.

Porque para ter acesso aos príncípios de direito na Itália foram necessários 5.750 dias, ou seja, de 18 de janeiro de 1992 a 16 de outubro de 2007, quando uma sentença da Cassazione (a Corte de justiça italiana) deu a possibilidade de que Eluana não fosse mantida em vida nessas condições e que ninguém teria poder de manter outras vidas sem limite. Foram precisos 5.750 dias para ter esse direito, que eu acreditava já ser claro e cristalino em janeiro de 1992.

Pressão da Igreja

A Igreja não faz parte dessa questão. Eu não faço parte de nenhuma confissão religiosa.

“Eluana era o esplendor da vida”

Minha filha era simplesmente o esplendor da vida. Sempre foi, do seu nascimento até o momento do acidente. Era uma criatura simplesmente esplêndida. Todos falam dela com esses termos.

Conselho ao Brasil e ao mundo

Eu não sei como é a cultura da vida no Brasil, o código moral, a ciência e a consciência dos médicos brasileiros. O que posso dizer para qualquer pessoa do planeta é que não se deveria desconhecer o poder dos médicos e dos magistrados em determinados momentos.

__________
* Edilson Saçashima e Thiago Varella. “Minha filha morreu em 1992, diz pai de italiana em coma há 17 anos”. UOL Notícias, 05.02.2009, disponível em http://noticias.uol.com.br/ultnot/internacional/2009/02/05/ult1859u643.jhtm

Um comentário sobre “As palavras do pai de Eluana

  1. Caro Ozaí, tudo bem? Espero que sim, com você e os seus.Escrevo-lhe para dizer que li o seu texto no blog e para dizer também o quanto sinto pelo sofrimento por que Eluana e sua família passaram, pela disposição de outros. Como disse o Sr. Englaro, esse estado vegetativo deve encontrar uma solução, mas não no caso dela, que seria permanente até o final. Eu sinto muito não poder dar um abraço nele hoje, mas eu espero que ele tenha um pouco de vida pelo tempo que resta.Sobre a carta dele, eu penso que, por mais que expliquemos, esse poder, que nunca deverá ser subestimado por ninguém, não pertence só aos médicos e aos juízes, pois, como ele mesmo disse, “…a vontade pessoal não é capaz de mudar a vontade da sociedade”.Sobre as crenças das pessoas, ah… dá um desânimo tão grande!… Então, você não pode fazer nada… Você não consegue discutir sobre certos assuntos, refletir sobre questões maiores…Um abraço e tudo de bom,Vanja

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