Crise, qual crise?

A Panasonic, empresa japonesa, anunciou a demissão de 15 mil trabalhadores e fechará 27 das suas unidades no mundo todo. A Pioneer, também do Japão, irá fechar fábricas na Europa e EUA e demitir 10 mil funcionários. Diariamente, a mídia divulga notícias como essas e a quantidade dos trabalhadores atingidos pela crise cresce assustadoramente.

No Brasil, o governo tenta manter o otimismo. O Presidente Lula, em discurso, alertou para os “terrorismos” que contribuem para disseminar o pânico. Foi categórico: “Não na nenhum razão pra gente ter medo dessa crise”.* Na TV, a propaganda diz que os paranaenses respondem à crise com trabalho. Crise, que crise? Parece até coisa dos catastrofistas de sempre, da turma do “quanto pior melhor”, dos pessimistas incorrigíveis.

Estatísticas e discursos não nos dão a exata dimensão do seu significado. Os anúncios de demissões em massa podem ser passivamente assimilados. Escutamos, lemos, vemos e voltamos à rotina. Quer mesmo saber o que é a crise? Converse com um trabalhador que perdeu o emprego. E não precisa ir ao Japão, aos Estados Unidos ou Europa: os desempregados estão aqui.

Parafraseando o escritor Gabriel García Márquez, a crise é a “crônica de uma morte anunciada”. Ela faz parte da lógica do funcionamento da sociedade. Ela mata esperanças, aniquila projetos de vida. O capitalismo é o Drácula moderno, o vampiro que se alimenta do sangue do trabalho vivo. Porém, mais sedento que o personagem de Bram Stoker, não se limita a consumir as energias vitais dos trabalhadores. As crises ceifam vidas e sonhos.

A realidade é mais complexa que a literatura. Portanto, é preciso naturalizá-la. O sofrimento de milhões de trabalhadores desempregados é reduzido à estatística. O trabalhador torna-se fator econômico, como o cálculo empresarial. As coisas parecem “naturais”. O consumo cai e provoca a queda das vendas; os produtos acumulam-se nos pátios das empresas e estas se vêem obrigadas a diminuir a produção. É preciso demitir. Tudo muito “natural”. Não, não é natural.

Engordar, empanturrar-se de trabalho vivo quando os tempos são de “vacas gordas” é parte da lógica do sistema. Do pequeno e médio empresário à empresa multinacional, a lógica perversa que mantém a máquina em funcionamento tem o mesmo fundamento: o lucro. Ao primeiro alerta de que não mais será possível manter a taxa de lucro, as facas já estão afiadas para degolar “empregos”.

Seres humanos são lançados à desesperança e retiraram-lhes as condições para a sobrevivência. E o lucro gerado na fase de crescimento? A empresa investiu, seus diretores e acionistas consumiram-no, etc. Agora, os trabalhadores são chamados para dividir os prejuízos e pagar a crise. A sociedade torna-se refém do ‘grande Drácula’ e é chamada para salvá-lo pela injeção de dinheiro público.

E nós com isso? Nesses tempos, a estabilidade no emprego e a segurança salarial são essenciais. Isso aumenta a nossa responsabilidade, especialmente com os mais atingidos pela crise. Em momentos como esse, a pergunta sobre a função social das instituições públicas torna-se ainda mais premente. Precisamos refletir não apenas sobre a crise, mas também sobre a nossa postura diante da realidade social.

7 comentários sobre “Crise, qual crise?

  1. Grande Antonio,Você demorou a tocar neste tema. Estava esperando.Só que na minha opinião não é “crise”: o termo mais apropriado é “rombo – grandes especuladores e mega empresas multinacionais (ou transnacionais) especularam seus lucros no mercado imobiliário norte-americano numa aventura típicamente capitalista, e se deram mal. Perderam seu ervanário.. Agora, exigem que os governos interfiram no mercado (cadê o dogma do mercado livre ?) e cubram seus prejuízos com dinheiro público. Senão, param a produção e demitem. Em suma, chantageiam, porque ameaçam provocar uma convulsão social.Ou seja, os lucros são privados (olha o dogma da propriedade privada aí), mas os prejuízos devem ser socializados.Cadê os liberais que sempre pontearam neste blog vociferando a favor da liberdade de empresa e contra as eventuais regulamentações governamentais nos mercados? Cadê os arautos escatológicos da propriedade social privada? Cadê? O que eles têm a dizer sobre o pacotaço do Obama de U$ 875 bilhões pras empresas que especularam e perderam?Por que se calam? Por que se escondem?Queria ver um desses vetustos economistas liberais traçar um paralelo entre a crise de 29 e a “crise” de 2008: estou curioso pra ver o que diriam.Em 1929 foram as empresas que realmente quebraram após um frenesi especulativo e os capitalistas ficaram na sarjeta. Ninguém pagou a conta deles.Em 2008 as mega-empresas não quebraram, mas o cidadão comum é que paga a conta vai pra sarjeta.Alguém discorda e fundamenta a discordância?Um abraço a você e aos amigos do blog. (OS – vou te mandar ua charge eloqüente sobre o tema) emeksenas@uol.com.br

  2. “Reféns do Grande Drácula moderno”Nossa, e que expressão seria melhor para descrever o capitalismo e a relação dele e os trabalhadores com a crise.

  3. Professor estava analisando a postura da midia em relaçâo a crise, além dos noticiarios que permanecem “imparciais” vejo alguns programas trazerem consultores de negocios sim aqueles profissionais que ganham a vida com palestras motivacionais, que tentam fazer com que nós compreendamos que se estamos desempregados é pela nossa falta de “capacitação”, a crise está aí mas se você perder seu emprego de mais de vinte anos porque não mudar de profissão? Isto é posto todos os dias culpabilizando o próprio desempregados, reflexões reais da falta de segurança nos investimentos empresariais, na forma como são dividios os lucros e a necessidade de estarem preparados para uma crise com reservas das grandes empresas nada é dito. O que mais me marcou foi a fala de um desses consultores para um gerente finaceiro de mais de vinte anos de serviço: “Olhe você tem que tentar um emprego senão conseguir em sua area pense em outras possibilidades, você pode ser um taxista , garçom….” Sem desmerecer estas profissões mas anos em um emprego toda a preparação e experiência desse trabalhador? Tudo que ele fez em termos de lucro para a empresa? Como ficamos em uma crise? Nada humanizada a situação nos reduz a numeros de contenção de despesas.

  4. É preciso destacar duas coisas pertinentes a realidade brasileira em tempos de crise financeira mundial:1) Os empresários tem se aproveitado da crise para chantagear os trabalhadores para que eles aceitem reduzir seus direitos e salários para que salvem seus empregos. Estão acontecendo muitas “demissões preventivas”, que estão ocorrendo antes das empresas sentirem sinais reais de diminuição de produtividade. 2) A crise financeira é a crise do neoliberalismo. O dogma neoliberal fracassou. Dizia-se que o Estado só atrapalhava a eonomia. Agora são os empresários que correm para pedir ajuda ao Estado.Tendo em vista estas duas questões, cabe afirmar a defesa do trabalhador em primeiro lugar. Já que os empresários querem tanto a ajuda do Estado por meio de mréstimos e toda a sorte de ajudas, deve ser exigido deles que só sejam ajudados mediante o compromisso com a manutençao dos empregos e dos direitos dos trabaladores. Os trabalhadores nao podem pagar por uma crise que não criaram. Cabe ao Estao mediar este momento para assegurar os direitos dos trabalhadores.

  5. Não vou dizer que a crise não exista, mas não no volume que ocorre no Brasil, aqui ela está sendo utilizada em um projeto político da elite, para eleger um candidato(José Serra), e corrigir o erro de 2002, quando deixaram um “operário”, um homem do povo assumir. A crise nesse caso veio no momento perfeito, só acho que as coisas podem ter mudado nos últimos 6 anos, e apesar de todo o terrorismo midiático que todos vêem nos principais meios de notícias nacionais. Mas uma coisa eu digo, se tem um setor que nem sente a crise é o dos super bilionários. Enquanto isso a população que vive a verdadeira realidade do mundo capitalista, sofre e muito com essa crise.

  6. Seria ingenuidade de minha parte acrescentar alguma coisa nesse excelente comentário. Somente digo que os semeadores do pavor, tudo por questões de interesses comerciais e principalmente políticos, no momento que sentirem que o nó que eles não imaginavam té-los no pescoço, em breve eles próprios poderão abertá-los, fasendo a vez do seu carrasco.

  7. Interessante como a crise econômica transfere para os pobres o ônus da recessão. Não vi nenhum empresário sem salarios, ou passando fome, o contrario, esta recebendo dinheiro do governo. Dinheiro este que poderia ser investido em saúde, educação etc. De fato, a crise legitima uma concentração de renda.

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