Estética da violência

para Guilherme Neves
Capão Redondo localiza-se na Zona Sul, a cerca de 25 km da Praça da Sé, marco zero da capital paulistana. Os dados estatísticos apontam para as péssimas condições de vida da maioria da sua população, mais de 200 mil habitantes em condições estruturais precárias e uma realidade social e econômica que se traduz em altos índices de violência.

O cotidiano das crianças, jovens e famílias que habitam o Capão Redondo é relatado em Capão pecado, de FERRÉZ (RJ: Objetiva, 2005, 149p.). No livro, esse pedaço de terra na cidade de São Paulo parece fazer parte do “inferno dantesco”. “Um lugar com deveres, e sem direitos, mais para campo de extermínio do que para casa. O índice de morte é mais de 15 por mês, mas não se engane, nasce muito mais que isso por aqui. Treze, 14, 15 anos, já vi um de 16 anos com três filhos, e o primeiro era do próprio padrasto” (p.133).

Capão Redondo, Capão pecado, Capão inferno. “Aqui, as histórias de crime não têm romantismo nem herói”, escreve Mano Brown. Na contracapa, o texto que apresenta o livro é claro e revelador: “O Capão é um lugar abandonado por Deus e batizado pelo Diabo. É miséria, violência, droga e morte. É o retrato dos “mano”, das “treta” que a moçada faz para se virar – e cada um se vira como pode. É o fim da linha. Usando a linguagem do gueto, alimentando-se daqueles personagens tão reais e sem futuro, Ferréz construiu uma narrativa original. Capão Pecado, seu livro de estréia, provocou o leitor ao revelar o cotidiano da periferia. Como o próprio autor afirma: “Capão é um livro de mano para mano. É ácido e violento. É m grito.”

Ao contar a história de Rael, um jovem que sonha em ser escritor, Ferréz “expõe os códigos de uma das comunidades mais violentas de São Paulo”. Sua obra tornou-se um best-seller da literatura marginal, uma literatura dos escritores da periferia, desconhecidos do grande público e, em geral, desconsiderados pela mídia cultural. O objetivo dos autores é dar voz aos excluídos, eles atuam em suas comunidades e buscam estimular o pensamento crítico. Com a publicação de Capão pecado, Ferréz ganhou notoriedade e se tornou um dos autores mais importantes nesse campo literário. Isso também fortaleceu o projeto político-literário vinculado à literatura marginal.

Em Capão pecado, a violência dá o tom, do início ao fim. Não há lugar para a esperança. Todos os personagens parecem predestinados a não acertarem. O “anjo safado”, o “chato do querubim”, parece ter decretado que ia “ser errado assim”, como diz a música do Chico Buarque. Nem mesmo o mais certo dos personagens, Rael, rapaz estudioso e trabalhador, escapa à predestinação. Como um anjo caído, vítima de uma realidade violenta e opressora, prostra-se diante da fatalidade. Não podia dar certo!

O livro tem o mérito de denunciar a realidade em que vive grande parcela da população brasileira que habita as periferias das grandes e médias cidades. O Capão Redondo se reproduz por este Brasil afora, no cotidiano de milhares de seres humanos que não tiveram a sorte de nascer em bairros ricos ou da classe média. Porém, o relato de pura violência, humilhação e desesperança corrobora a perspectiva fatalista. O determinismo sócio-biológico dá a tônica. Parece não haver escapatória!

Com uma linguagem impactante e virulenta, parece que seu intuito é manter o leitor em estado de choque permanente. Em determinados trechos, a violência parece pulsar. As palavras podem ser insuportáveis aos espíritos mais sensíveis. Não se sai ileso de uma leitura dessas. É um livro que nos faz sentir mal, mas nos faz pensar se a realidade retratada na ficção é mais cruel do que, desculpe a redundância, a “realidade real”. Eis a estética da violência!

4 comentários sobre “Estética da violência

  1. Sempre me questiono quanto a esses livros que falam sobra “a realidade” de um determinado local, porque em muitos momentos encontra-se sobre um forte exagero com tudo o que circunda o tema do livro. Seu último paragrafo encerra com o essencial de uma grande leitura dessas: “É um livro que nos faz sentir mal, mas nos faz pensar se a realidade retratada na ficção é mais cruel do que, desculpe a redundância, a “realidade real”. Eis a estética da violência!”Incrivel! Certamente vou tentar ler o livro (tentar porque não sei quão sensivel eu sou a esse tipo de literatura e muitas vezes recuei quando “doia demais”) e falou muito bem professor, o fundamental é refletir e comparar, a realidade do livro com “a realidade real”.

  2. Passei por experiência semelhante esses dias, assistindo ao filme Gomorra, também baseado em um livre que trata sobre o crime organizado. No caso desse livro e filme, a realidade retratada é a da Itália na região de Napoles, e o que espanta é a semelhança entre as realidades brasileiras e italianas nos bairros mais desfavorecidos, e a necessidade que leva os jovens ao crime organizado, ou mesmo a necessidade de se sentir com o poder na região, garanto que ninguém entra para uma espiral de violencia tão grande por que quer. As pessoas são levadas a isso, e dificilmente vivendo nessas comunidades consegue se isentar dessa realidade. Triste ver essas dispariedades gritantes de nossa realidade, enquanto o jovem do Jardins, de Higenópolis, ou do Morumbi, que pode pagar uma faculdade particular, entra em uma pública, e faz de sua vaga ociosa, pois não sabe o que quer da vida, somente quer comprar as drogas, do pobre de Paraisópolis que foi obrigado a entrar no tráfico por falta de oportunidade, escolariedade, e pelo seu próprio perfil, as vezes descendente de negros, e que não pode entrar em uma universidade, pois não pode pagar, pois na pública dificilmente entra. Triste viver em um país com tal realidade

  3. Grande Antonio, Belo texto, bem escrito. Excelente e necessária a divulgação de “Capão Pecado”.Só pra arrematar o que você diz:1) A desregulamentação do mercado ao sabor dos interesses capitalistas e a propriedade social privada (ou privatizada) abrem a brecha para a institucionalização da violência: não se trata mais “apenas” de crime organizado, mas do surgimento de um verdadeiro poder de polícia (ou repressão) paralelo ao do Estado – gangues urbanas, quadrilhas de traficantes, contrabandistas de armamento pesado de última geração, milícias em morros e favelas e periferias…É como se houvesse outra sociedade civil à sombra (ou no lado escuro) da “nossa” sociedade civil, com seu próprio mercado de produtos (drogas, armas, jogo, lenocínio, “pedágios”, “proteção”, órgãos humanos para transplantes, mortes encomendadas, seqüestro de crianças para adoção de estrangeiros, exportação de carne humana, exploração da pornografia infantil, etc) e seu próprio poder de polícia.2)O sistema capitalista, em sua evolução lógica acelerada pelo progresso tecnológico, tornou-se exponencialmente predatório (do homem e da natureza) e selvagem, criando uma margem de excluídos que cresce e logo tornar-se-á o próprio núcleo social ao invés de margem.É aí que se desenvolve uma “outra vida”, aí é que grassa a violência. É um “outro mundo”…RESUMINDO: a violência institucionalizada do poder paralelo ao Estado é a outra face da moeda do capitalismo neoliberal globalizado. E sua tendência é engolfar-nos a todos, mais dia, menos dia (isso, se não destruir o planeta antes).3)Que os vetero-economistas neoliberais emitam suas últimas e falaciosas verberações (se é que as têm ou se atrevem, ainda): a própria lógica intrínseca do capitalismo globalizado precisa do “outro lado” para realizar-se e o fomenta para que se dê a acumulação originária. É a lógica interna do próprio sistema. Por isso, políticas públicas, políticas sociais, Estado de Bem-Estar Social, inclusão social, regulamentação de mercados, regulamentação da propriedade privada – tudo isso é contabilizado como despesa a ser eliminada. Educação, Saúde, Moradia, Transportes para a massa: isso não dá lucro, diminui a acumulação originária, impede a realização do lucro em capital. Não que os capitalistas sejam uns demônicos cruéis e calculistas. É simplesmente a lógica do sistema.Dada a falência comprovada do neoliberalismo em política e da propriedade social privada em economia ( pela direita ) e diante do fracasso do burocratismo totalitário estatal ( pela esquerda ) resta-nos chorar nossos mortos enquanto buscamos alternativas que venham a promover e implantar uma verdadeira democracia. Democracia política e econômica. Não a “democracia” capitalista, mas a única e possível autêntica democracia: a democracia socialista. Quem sabe? Enquanto isso…Um abraço a você e aos amigos do blog. emeksenas@uol.com.br

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