Por que ler (auto)biografias?

para Eduardo Augusto Isii

Curiosidade? Simpatia política e ideológica? Identificação? Admiração? Busca de conhecimento histórico? A biografia funciona como uma ‘pedagogia do exemplo’? Influencia a formação intelectual e a personalidade? Se o leitor minimamente informado sabe que toda autobiografia e biografias são seletivas, isto é, expressam o olhar e a decisão do escritor, por que, afinal, lê? Uma vida não cabe num livro e há informações que não constam em nenhuma biografia e/ou autobiografia. O censor interno ou externo sempre estará à espreita.

E, no entanto, lemos. Talvez busquemos nos biografados exemplos a serem seguidos e, também, compensações em relação às nossas fraquezas, à nossa incapacidade de ser e agir como eles. Somos comuns, estamos distantes dos modelos retratados nas biografias e autobiografias de homens e mulheres excepcionais. Seres humanos assim são raros, por isso o relato das suas vidas nos atraem. Talvez no fundo queiramos aprender como romper com a mesmice. Ou apenas fugir do cotidiano que nos envolve. Quem sabe seja a necessidade, tão antiga quanto os gregos, de superar a finitude humana e, de certa forma, permanecer imortal e lembrado por gerações. Talvez, talvez!

Já li muitas biografias em minha vida e, pelo que lembro, não me fiz estas perguntas. Simplesmente lia. Provavelmente todas as respostas fossem afirmativas. No entanto, sempre mantive um olhar crítico em relação ao lido. A primeira biografia que li, lembro-me bem, foi de Karl Marx, editada sob a chancela do Instituto de Marxismo-Leninismo, anexo ao Comitê Central do Partido Comunista da União Soviética. Insuspeita, portanto! Naquela época, início da década de 1980, estava ávido por leitura e ‘ganhei’ a obra como brinde pela compra das obras escolhidas de Marx-Engels. Também ‘ganhei’ a biografia do líder máximo da revolução russa, por adquirir suas obras escolhidas em três tomos.

Na verdade, não li a biografia do fundador do marxismo até o fim. Tentei, mas não consegui. Na medida em que lia não me parecia que o biografado tivesse sido um ser humano de carne e osso, mas alguma espécie de divindade. Ainda que naquele tempo eu fosse muito religioso, e talvez por isto, dei a leitura por encerrada. Depois dessa tentativa nem sequer me dei ao trabalho de tentar ler a biografia sobre Lênin. Anos depois descobri o termo hagiografia e lembrei-me dessa experiência. Bem que esse tipo de obra poderia ser caracterizada como ‘Biografia de santo’.

Essa experiência precoce não me fez perder o gosto por biografias. A que mais gostei de ler foi sobre Olga Benário Prestes, de Fernando Moraes – não é por acaso que a minha filha se chama Olga! Também li a biografia de Trotsky escrita por Isaac Deustscher, a de Stalin de autoria de Trotsky, a de Ben-Gurion e as autobiografias de Eric Hobsbawm e Edward Said. É o que recordo, no momento. Tenho a autobiografia de Trotsky, “Minha vida”, mas até hoje não consegui ler. Recordo, ainda, que um amigo me emprestou o famoso livro de Adolf Hitler, Mein Kampf (Minha Luta), o qual cheguei a folhear, mas não tive estômago para ler.

O fato é que o meu olhar foi se tornando cada vez mais crítico em relação a este gênero literário. Um dos fatores que influenciou este estado de espírito, por incrível que pareça, foi o filme “Violação de Privacidade” (The Final Cut).* Passei a ser mais crítico em relação ao caráter seletivo, próprio do gênero. Mesmo assim, não abandonei completamente a leitura. Acabo de ler Memórias de um anarquista japonês, de Õsugi Sakae (São Paulo: Conrad, 2002). Foi essa leitura que me fez retomar essas reflexões. Afinal, por que e para que ler biografias e autobiografias?


* Ver “Morte e esquecimento!”, publicado em 20 de julho de 2007.

8 comentários sobre “Por que ler (auto)biografias?

  1. Olá,Penso que é como em tudo: há boas e más biografias. Um dos melhores livros que li até hoja foi ‘Mamórias de Adriano’ de Marguerite Yourcenar. É um romance histórico em forma de biografia. Outro livro que gostei de ler foi uma biografia de Charles Chaplin. No entanto reconheço que algumas biografias não transmitem nenhuma mensagem.Ivone

  2. Para C A M I L A H A A S Evou contraditar o seu comentário acima. Vamos combinar o seguinte: sugiro que leia os seguintes livros:1)confesso que vivi – PABLO NERUDA2) Creio na Justiça e na Esperança – D PEDRO CASALDÁLIGA3) Marx – Vida e obra – LEANDRO KONDER4) Recortes – ANTONIO CÂNDIDOAí,depois de ler estes livros (ou alguns deles) veja se consegue escrever um comentário similar ao que escreveste acima.Falo isso numa boa, sem arrogância nem pedantismo: apenas quero ajudar pessoas a ampliar seus corações e mentes – como fizeram comigo há tanto tempo atrás.FELIZ DO POVO QUE TEM OS HERÓIS DE QUE PRECISA.Um abraço

  3. Questões de fato muito pertinentes Antonio. Para mim, pessoas, por mais extraordinárias que sejam, são pessoas normais iguais às outras. O que faz “grandes homens”? Seus feitos dizem-nos diferentes, e isso, aliado ao seu modo de pensar e raciocinar, os diferencia. No mais, todos os mortais são semelhantes. Esse aspecto transcendental, inumano, que você pontuou, é um artifício dado como forma de divinizar alguém que teve influência em algum campo, pela necessidade humana de criar heróis. O humano precisa acreditar naqueles que lhe parecem superiores, pelo exemplo que oferecem, pela necessidade de um modelo que permita acreditar que cada um pode ser melhor, pela nulidade da própria existência por vezes, pela falta de capacidade de fazer, etc, etc… No meu trabalho já vi pessoas com experiências de vida magníficas, e reparo, que se soubermos conhecer bem um indivíduo, qualquer um, todas as vidas teriam biografias que poderiam inspirar e ensinar alguém.Não canso de lembrar-me de Balzac quando penso em ler alguma biografia: “Não se encontra um grande número de homens, cuja nulidade profunda é um mistério para a maioria das pessoas que os conhecem? Um posto elevado, uma origem ilustre, funções importantes, um certo verniz de polidez, uma grande reserva na conduta, ou prestígio da fortuna são para eles como guardas que impedem às críticas penetrar-lhes a vida íntima. Essa gente parece-se com os reis, cuja verdadeira estatura, cujo caráter e cujos costumes não podem nunca ser perfeitamente conhecidos nem justamente apreciados, porque são vistos ou de muito longe ou de muito perto.”Falando em Hobsbawm, um livro interessante dele, que tem um contexto que podemos encaixar aqui é “Pessoas extraordinárias”.Sdç

  4. Grande Antonio,nossa história individual é composta por nossa história pessoal (única, própria, original) e por nossa história pública (a história do nosso tempo). Nem todos entendem que os eventos públicos fazem parte e marcam nossa história individual. Isso acontece até de maneira inconsciente.Homens há cuja história pessoal é tão rica, vasta, intensa, ativa, profunda; tão comprometida com a justiça social e a solidariedade com os empobrecidos, tão imbuída de fomentar o crescimento do próximo como pessoa humana, que se confunde com a história de seu próprio tempo. Essas vidas precisamos conhecer.É comum focarmos nossa história apenas em nós mesmos, ignorando ou “selecionando” aspectos da história pública –porém sem nos comprometermos com ela, sem perceber que ela também nos diz respeito e integra nossa história individual.Biografias, auto-biografias, testemunhos, depoimentos, memórias daqueles que fundiram a história pessoal com a história de seu tempo só nos enriquecem. Através da vida de uma grande pessoa perscrutamos toda uma época, nos integramos à Humanidade, e mergulhamos fundo em nós próprios.Uma boa biografia de uma grande pessoa acaba sendo a nossa biografia também.Antonio Cândido, Pablo Neruda, D. Pedro Casaldáliga, Albert Camus, Pedro Nava, Rosa Luxemburgo, D Paulo Arns, Henfil, Olga Prestes, Victor Jara, Giordano Bruno, Mauro Duarte, Salvador Allende, Jack London, Schindler, Cervantes, Drummond, Thomas Mann, Picasso, Camilo Cienfuegos – inclusive Marx e Lênin, que você citou, e eu ainda acrescentaria o Che – são os nomes que me ocorrem de pronto. Há tantos outros…Todos, é claro, com erros e acertos, falhas e grandezas, porque apesar de grandes não deixaram de ser humanos.Conhecer a vida de pessoas desse calibre (seres humanos elevados à última potência) é conhecer a história de uma época e também conhecer melhor a nossa própria história pessoal, porque certamente alguns cantos escuros e empoeirados de nosso ser que sequer imaginamos serão espanados e iluminados.Não sejamos aleijados existenciais: abramo-nos à história do nosso tempo e da humanidade para vivermos em plenitude a nossa própria história pessoal.Ler boas biografias ou memórias de grandes homens e mulheres é um passo para isso.Abraço a você e aos amigos do blog. Desculpem a extensão do comentário: é que eu não poderia deixar as idéias pela metade. Agradeço àqueles que tiveram a paciência de ler até o fim. emeksenas@uol.com.br

  5. Caro Ozái, Penso que a biografia ou a autobiografia não é muito diferente de outros livros, principalmente os de época (fontes históricas). Afinal, eles esboçam um determinado posicionamento ideológico, uma visão de mundo, um olhar sobre si mesmo ou sobre o outro que pode, ou não, diferir do que encontramos em determinadas obras. Penso que, tanto as obras de cunho memorialista, quanto as de cunho biográfico podem nos ajudar. Como você salienta em seu texto, o que é preciso é olhar de uma maneira diferente sobre elas. Abs

  6. oi! eu adoro ler biografias, mas é claro que sempre temos que ter um olhar crítico. Gostei da biografia de Mendel… o esforço dele para dar certo suas experiências com as ervilhas são, de fato, uma lição.É engraçado mas eu tenho uma biografia publicada…na época fiz como desabafo. Hj não faria daquela forma, isso significa que eu mudei muito em relação à todos os acontecimentos… Encaro tudo de maneira mais “madura” digamos.Meu livro se chama: Diário da filosofia da solidão e muita gente depois que lê me pergunta: o que fará agora que todos sabem de vc? rsrsrrsmas.. é isso, as biografias as vezes podem ajudar.AbraçosRozenilda

  7. Eu li mta biografia e autobigrafia, poucas foram escritas em com uma visão critica ou de autocritica.Resolvi deixar de lado a leitura de tais livros, principalmente, com o questionamento que era melhor viver, fazer e buscar (com os demais) mudar a cidade ao meu redor.O que não posso esconder é a importância da leitura de uma autobigrafia,escrita por Howard Zinn (http://ldopaeditora.wordpress.com/), professor de História dos EUA, que teve um influência e volta e meia me alimenta de esperança. Sabe, li o livro do anarquista japonês. não gostei, espera mais sobre o anarquismo ou o envolvimento do autor com as lutas, fui com outra expectativa.AbraçoMaikon kwww.vivonacidade.blogspot.com

  8. Olá Ozaí:Lendo seu texto, me lembrei da primeira biografia que li, uma do Lenin, daquela editora tosca, Martin Claret, nela, para você ter uma idéia, o Trotsky era apresentado como dirigente menchevique… Lembro que parei de ler ela por isso. Até porque a citação era da autobiografia do Trotsky, que foi escrita muitos anos depois da revolução…As autobiografias são mais divertidas, pois acho que é possível medir a envergadura de uma pessoa pela forma que ela trata a si mesma.Por isso acho que a autobiografia do Victor Serge, “Memórias de um revolucionário” um dos livros mais importantes que já lí.

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