Volta às aulas!

Quando comecei a dar aulas na EE General José Artigas, em Diadema (SP), conversei com um colega mais experiente. Queria que ele me ajudasse, afinal eu estava no começo e ele já estava na estrada há muito tempo. Ele me aconselhou: “Sua função na sala de aula é passar o conteúdo, não importa o que ocorra. Portanto, procure abstrair o ambiente, fixe seu olhar num ponto da parede, concentre-se e exponha a matéria”.

É óbvio que não segui este ‘conselho’, nem me parecia possível agir dessa forma. O que o meu colega não percebia, ou simplesmente não fazia questão de levar em conta, é que a aula não é uma relação física com a parede ou com um ‘ponto imaginário’, mas sim com indivíduos de carne e osso, seres humanos cujas histórias são específicas e diferenciadas e com subjetividades inerentes a cada caso. Indivíduos que tratamos genericamente pelos conceitos de ‘alunos’ e ‘acadêmicos’, o que também expressa uma forma de abstrair o fato de que são peculiares.

Dar aulas é uma relação humana, com todas as características e dificuldades que encerram o convívio entre docentes e discentes. Pressupõe respeito mútuo. Este é um critério mínimo para a convivência civilizada. É preciso respeitar para ser respeitado. E não devemos confundir temor com respeito à ‘autoridade professoral’. O respeito deve se fundar na relação humana em si, no reconhecimento deste simples fato.

A docência também é uma relação de poder. Quanto mais tivermos consciência dessa realidade, maior a probabilidade de atentarmos para as exigências éticas da responsabilidade docente. O professor que abusa dos instrumentos de poder que tem em mãos, das sanções formais ou informais, comete injustiças. Ele pode prejudicar o desenvolvimento intelectual e até mesmo provocar traumas psicológicos. Por isso, é necessário buscar a justa medida, ter a humildade de reconhecer erros e abandonar a arrogância.

A atividade docente exige um envolvimento que extrapola a sala de aula. Ao nos comprometermos com corpo e alma na práxis docente, o risco é que ambos padeçam. O corpo sofre pelo esforço físico e alma se emociona e pode adoecer. Mas há também as alegrias que compensam e curam. A minha experiência, até o momento, confirma.

É com este espírito que recomeço o ano letivo. Sinto-me feliz por voltar às aulas, amo o que faço. São novas turmas, outros acadêmicos com suas particularidades, expectativas, esperanças e sonhos. Várias subjetividades e histórias de vida. Conhecer novas pessoas, estabelecer novas relações, renovar o desafio de ensinar-aprender. Parece uma retomada da rotina docente: ler, preparar aulas, dar aulas, atender alunos, orientações, etc. Mas é diferente, pois são outros seres humanos.

Neste ano há um fator especial: os ‘calouros’. Lembro-me do primeiro ano na Fundação Santo André, no ABC paulista, onde cursei Ciências Sociais. Tudo era novidade e isso estimulava ainda mais a curiosidade. Cada aula, professor, tema e autores e teorias estudados eram sempre algo novo. Parece-me que esta fase inicial é fundamental na nossa formação. Alegra-me poder compartilhar desse período da vida acadêmica dos meus novos alunos.

A volta às aulas renova as minhas esperanças quanto às potencialidades humanas de superar-se e crescer intelectualmente e enquanto indivíduos críticos capazes rejeitar a naturalização dos fatos e do viver em comunidade. Espero contribuir para a formação humana e crescimento intelectual deles. Isso, é claro, aumenta a minha responsabilidade.

Quem deseja ensinar, deve reconhecer que não sabe tudo e estar disposto a aprender. Novo ano e novas turmas significam também novas possibilidades de aprender. Aposto nessa direção!

4 comentários sobre “Volta às aulas!

  1. Prezado professor Ozaí,A leitura do seu texto me instigou a entrar na sala de aula renovado. Bem sabemos que a docência é extremamente prazerosa, todavia o que nos desgasta está fora dela, em outros setores. Parabéns pela sensibilidade com que retrata a realidade em que atua. Trata-se de uma virtude que, infelizmente, poucos têm.

  2. Prezado professor Ozaí,A leitura do seu texto me instigou a entrar na sala de aula renovado. Bem sabemos que a docência é extremamente prazerosa, todavia o que nos desgasta está fora dela, em outros setores. Parabéns pela sensibilidade com que retrata a realidade em que atua. Trata-se de uma virtude que, infelizmente, poucos têm. Petrúcio

  3. Que comentário justo e certo Ozaí. De fato, ser professor é uma das mais difíceis atividades humanas comentou outro o próprio Ministro da Educação Fernando Haddad. O detalhe das diferenças individuais devem ser conhecidas e respeitadas por quem se arvora a ser um bom educador eu diria. E mais, descobrir as inteligências múltiplas suas(do(a)professor(a), e de seus alunos(as), hoje é uma obrigação para a aula ser cada vez mais viva, plural como o ensino e aprendizagem o exigem nesses tempos neoliberais, onde o capital insiste em sufocar o lado humano seja na escola, na universidade, no ambiente de trabalho. Nós, com certeza teremos sempre como desafio e missão não permitir o lado humano, em todas as instituições e organizações, ser ignorado, ser mecanizado. E tudo começa na sala de aula.Rose Palmeira, professoraFortaleza-Ce

  4. Caro Ozaí, Primeiramente, gostaria de parabenizá-lo pelas palavras. Reforçando o que disse, acrescentaria que um professor com essa mentalidade, mesmo se não tiver um grande aparato intelectual, pode alcançar melhores resultados do que um colega melhor preparado intelectualmente. Afinal, quando se está preocupado com o ensino-aprendizagem o como ensinar, talvez seja tão importante quanto o conhecimento do conteúdo em si. E isso perpassa pelo relacionamento humano, principalmente, se pensarmos no Ensino Fundamental (anos finais) e Médio. Por favor, em nenhum momento disse que o conhecimento, entenda-se titulação, não seja importante. Disse apenas que é preciso um “algo mais”. Abs

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