Geração “Look at me”

Tenho Orkut, MSN, vários blogs, grupos e participo de redes sociais: Café História, Plaxo, Unyk e Multiply. Mantenho vários emails e, claro, conta no YouTube, álbuns de fotos no Picasa e rádio na LastFM. Embora esteja próximo ao cinqüentenário, sou da geração Look at me (Olhe para mim).

A geração Look at me está exposta full time na Web. Ela faz questão de se mostrar. De certa forma, vivemos a época do Big Brother World. Basta conectar-se e todos nos vêem e podemos vê-los. A revolução tecnológica, que inclui celulares e câmeras digitais, possibilita uma verdadeira devassa.

Não faz muito tempo, ver fotos era uma atividade restrita à família e aos amigos mais próximos. Outro dia, fui à casa de uma família que não tem acesso à Internet. Após certo tempo, me trouxeram um monte de fotos para ver. Enquanto me mostravam as fotos, falavam sobre os contextos em que foram tiradas, quem eram as pessoas fotografadas, etc. Ela não tem câmara digital, mas já pensa em comprar.

Hoje, basta ter uma câmera digital e registramos as festas familiares, confraternizações, encontros com os amigos, as férias na praia, etc. Depois, quase que instantaneamente, as fotos são disponibilizadas nos fotoblogs, Picasa e, claro, no Orkut. Talvez vivamos a época de maior exposição e risco à privacidade.

As imagens são acompanhadas de palavras. A geração Look at me expõe sentimentos, declarações apaixonadas, comentários sobre as amizades, etc. Exibem o que deveria se restringir à intimidade das relações. Alguns aplicativos, como o BuddyPoke, representam situações íntimas e até mesmo ridículas. Namora-se pelo MSN, Orkut, etc. Tudo se torna público! Até é possível informar como está o estado psicológico e o que você está faz no momento. E somos estimulados a informar sobre estas coisas. Tudo com muito amor e bom-humor!

Os sites de relacionamento permitem a configurar e controlar quem tem acesso aos dados, fotos, vídeos, etc. Mas a geração look at me nem sempre tem a preocupação com a preservação da privacidade. O fundamental é aparecer, se mostrar. Nem sempre há o cuidado com o que se escreve e o que se deixa visível. Se antes expúnhamos nossas confidências e cotidiano apenas aos amigos mais próximos, agora temos dezenas e centenas de amigos virtuais. Muitas amizades e exposição, pouca intimidade.

Não obstante, tecnologia potencializa as possibilidades de comunicação. Na Internet descobrimos pessoas que há muito não víamos e somos descobertos. Tem-se, então, a chance de resgatar amizades e relacionamentos que se perderam com o tempo. Por outro lado, essas redes de relacionamento também possibilitam o fortalecimento dos laços virtuais, amizades que podem até mesmo se tornarem reais.

As redes de relacionamento virtuais, como o Orkut, transformam até mesmo a prática docente. Pedagogicamente, é importante que o professor conheça seus alunos e estes se deixam conhecer. Por sua vez, também nos expomos ao olhar perspicaz deles. Essa comunicação, ainda que virtual, contribui para fortalecer os vínculos necessários ao processo de ensino-aprendizagem. Outros recursos, como os grupos de discussão e o simples uso do email, também favorecem a relação pedagógica professor-aluno. Por outro lado, estes recursos nos permitem divulgar nosso trabalho, opiniões, produção acadêmica, etc.

São estes objetivos que me levam a aderir, embora de maneira crítica, à geração look at me. É por isso que mantenho os sites, além dos blogs e grupos. Tudo isso me dá muito trabalho, mas é parte da minha práxis docente. E gosto e tenho prazer com o que faço. Ainda bem que inventaram a Web!

15 comentários sobre “Geração “Look at me”

  1. Eu mesmo as vezes esqueço a senha de algumas contas( que não são poucas), mas acho uma idiotice as vezes encher o orkut de fotos ou contar a sua vida toda numa página de relacionamento, mas quem sou eu para condenar. Acho as vezes que não viveria sem essas contas todas, por exemplo tem primos que só tenho contato através do msn. e ainda esse sites ajudam a encontrar pessoas com os mesmos interesses que você, quantas pessoas legais eu conheci através do blog e orkut. Não dá nem para contar nos dedos.Ah, tô fazendo uma resenha crítica de um artigo do senhor (Os intelectuais diante do mundo: engajamento e responsabilidade), não garanto sair tão bom quanto é o artigo. passe lá no meu blog se puder. abraço.

  2. oi,concordo que nossas vidas estão cada vez mais expostas, e acredito que deva piorar com os passar dos anos.tenho um blog mas não comento nada pessoal e sim assuntos da atualidades e dicas boas para serem aproveitadas.beijokas.www.maanupink.blogspot.comadoro seu blog.

  3. oi,concordo que nossas vidas estão cada vez mais expostas, e acredito que deva piorar com os passar dos anos.tenho um blog mas não comento nada pessoal e sim assuntos da atualidades e dicas boas para serem aproveitadas.beijokas.www.maanupink.blogspot.comadoro seu blog.

  4. E já vou dar um exemplo de um dos benefícios citados: Posso manter contato com vc professor, e “ser um aluno”, no sentido de aprendendizado, mesmo sem ser “oficialmente” seu aluno, o que é para mim muito bom.Quanto ao “senso critico” e a adesão a essa rede com essa perspectiva são muito importantes para não deixar que isso se torne uma exposição exagerada de si mesmo, ou caminhe nesse rumo.

  5. Gostei da postagem!Não tenho tido muito tempo para empregar no “look at me”, mas gosto de desabafar cyberneticamente!Bjs

  6. Olá Ozaí!Você viu a edição da Revista Sociologia com a capa sobre Big Brother?Apresenta esse querer ser visto, ser achado!Logo concluo meu trabalho e quero ter o prazer de receber suas críticas! Enviarei!Até!

  7. Caro Luís Henrique:digo-te que só fui comprar meu computador pessoal em 2005 (!!!), e por pressão insuportável e constante da minha esposa (ameaça de divórcio!) e da minha filha adolescente (ameaça de deserdar-me como pai!).Até lá resistia, não via tanta necessidade.Reconheço que hoje é ferramenta imprescindível,e que também preciso estar conectado. Utilizo bastante o e-mail (tenho 1 e-mail),o Word (sensacional! Já pensou se o Balzac tivesse o Word?) tenho acesso à Folha de S Paulo e Folha On Line rapidamente, troco artigos com alguns (alguns!) conhecidos, criticando-nos mutuamente. E só.Não uso MSN, não tenho Orkut, visito pouquíssimos blogs (e comento só em um, neste aqui) e não tenho celular (se tivesse, não saberia usar: são tantas as funções e recursos!!! E eu precisaria só de um telefonemazinho…)Em compensação, tenho um bom tempo pra fazer minhas leituras, meus estudos, escrever minhas idéias sobre vários temas organizadamente.Se não tivesse preguiça, poderia trabalhar num projeto de tese ou escrever bons artigos pra revistas virtuais rigorosas.Outro dia fiz uma encomenda numa farmácia próxima, pra entregarem aqui em casa. Preparava-me pra dizer meu telefone quando o cara pediu meu e-mail…E, logo que comprei o computador, minha esposa entrou na febre do MSN. Conseguiu alguns endereços, através desses vieram outros. Fez amizade com um cara legal. Muito legal, ela dizia. Batiam papo sempre. Até que descobriu que não era um cara legal, era uma garota que estava a fim de algo mais com minha esposa…..E minha filha entra no orkut de uma colega de colégio, e diz que a foto que está lá não é a da colega, mas de uma prima dela, que é muito mais bonita que a própria rsrsrsrsrsrs além de ter outros dados que não conferem com os reais, como idade, preferências musicais,atividades culturais, lazer, etcMas é isso aí, vamos tocando. Somos consumidores, não nos tornemos artigos de consumo rsrsrsrsUm abraço.

  8. O Eduardo tem a mais completa razão.Já vivi um tempo na ilusão de que ‘conhecia’ pessoas na internet (na época, era o ICQ, nem havia MSN). Foi uma grande decepção – o pior é que outras pessoas ‘estranham’ eu não ter MSN nem Orkut! Hoje quem tem acesso à internet sofre coerção social para fazer parte de sites de relacionamentos…Eu tenho uma história engraçada – no ginásio, estava eu e alguns amigos a fazer um trabalho em grupo. Como era bastante gente, resolvi catalogar nome, telefone e e-mail e distribuir os dados de todos em pedaços de papel para que todos pudessem facilmente entrar em contato uns com os outros. Não tinha acesso à internet na época, mas achei que alguns tivessem… tiraram sarro de mim: ‘meu, põe só nome e telefone!’ Que coisa, hoje as pessoas pedem o e-mail ANTES do telefone (celular, outra coisa que também dispenso)!

  9. Grande Antonio eDemais comentadores:Vi no “post” e nos comentários que com ele concordam no todo ou em parte uma racionalização e justificação quanto à utilização da vasta gama de meios e recursos da internet. Por que essa necessidade de racionalizar e explicar-se?E ficaram pontos importantes apenas mencionados genericamente: afinal, por quê devemos usar os “recursos internéticos” de maneira crítica? No quê, exatamente, se constitui essa maneira crítica? Como e em relação especificamente ao quê aplicá-la? E para quê utilizar tantos e todos os “recursos”?Quanto ao meu comentário, digo que:1) NÃO DEVEMOS CONFUNDIR O REAL COM O VIRTUAL: ninguém conhece ninguém e nem dá-se a conhecer pelo Orkut ou MSN. Pelo virtual orkut, por exemplo, você apenas vê a imagem da pessoa que a PRÓPRIA PESSOA faz de si mesma ou quer passar de si mesma, vê aspectos que ela seleciona para “divulgação”, geralmente superficiais e desimportantes, ou até inverídicos, e sem a possibilidade de você questionar ou completar. É uma via de mão única. O seu “conhecimento” dela é passivo. Você não vivencia a pessoa. Pelo real contato pessoal VOCÊ faz a imagem da pessoa por elementos que ela te transmite concretamente. Tem contato com a pessoa real, e não somente com a imagem dela. E é uma via de mão dupla. O seu conhecimento dela é ativo. E passa a ser, de fato, relacionamento: as pessoas vivenciam uma à outra. (isso é perigoso, politicamente!!!)2) NÃO DEVEMOS SUBSTITUIR O REAL PELO VIRTUAL: uma coisa é enviar um milhão de e-mails aos parlamentares de Brasília protestando contra a alta do custo de vida. Outra coisa é um milhão de pessoas cercando os prédios do Congresso protestando contra a alta do custo de vida. Uma coisa é criar dezenas de blogs e grupos e sites e comunidades contra o descaso do Estado pela educação e saúde públicas. Outra é fazer uma passeata na avenida principal da cidade contra o descaso do poder público pela educação e saúde públicas.Ou vocês acham que o Collor teria sido defenestrado do Alvorada pela vociferação de comunidades do Orkut ou pela indignação dos blogs ou pela enxurrada de e-mails? Por que a minha intimidade é mais importante que os extermínios em Capão Redondo? Por que meus sentimentos e preferências pessoais interessam mais do que a fome no Vale da Ribeira? Por que o meu mundinho é mais vibrante que as favelas da Baixada Fluminense? E não é Andy Warhol quem está rindo de todos nós: são as bolsas de Nova Iorque, de Londres, Frankfurt, Tóquio…e não é Stálin que está bem feliz com tudo isso: são o G-7 e o Forum de Davos.Chamando a mim a responsabilidade pelo que eu disse acima e respondendo à pergunta que formulei no primeiro parágrafo, penso que as pessoas estão precisando racionalizar e justificar o intenso uso que fazem da vasta gama de “recursos internéticos” justamente porque essas pessoas transformaram em recursos o que são apenas meios, ferramentas, e estão confundindo o real com o virtual e substituindo o real pelo virtual. É preciso, portanto, racionalizar, explicar, justificar…afinal de contas,é preciso ser “correto politicamente”, não é?Blogs, grupos, fóruns, MSN, Orkut, sites, e-mails… – as pessoas aplicam tanto tempo nisso que não sobra tempo para elaborar projetos pessoais e profissionais mais profundos, engajar-se concretamente em atividades mais consequentes, envolver-se pessoalmente com questões mais espinhosas. E surge o receio de lidar com pessoas reais e de estar em locais geográficos reais. E vem o bloqueio para desacomodar-se e sair da frente do computador em seu gabinete, enfim. Ir para as ruas. Sair pra vida. Abraçar as pessoas. Juntar-se ao mundo, enfim (e como isso é perigoso, politicamente!!!)Pois os “recursos internéticos”, com sua intensa, crescente e exclusiva utilização, com ou sem senso crítico e/ou discernimento, atomizam uma sociedade, individualizam o ser social, segregam as pessoas, desmobilizam grupos sociais, privilegiam a imagem e a superficialidade, tornam a necessidade do próximo só dele, aliás, tornam o próximo distante e tomam-nos tempo para atividades mais concretas, solidárias e conseqüentes. Atividades onde se lida não com a imagem, mas com a “coisa” em si e com pessoas reais, atividades onde se necessita ir além da superfície e da aparência. Acho que não preciso dizer quem estimula esse estado de coisas e a quem favorece esse comportamento e quem se beneficia desse “modus operandi”, politicamente.Novamente peço desculpas pelo tamanho do comentário: é que não vou aderir à superficialidade e “objetividade” exigidos pelos “recursos internéticos”, nem vou limitar-me a imediatez imagética da virtualidade “on line”. Nem vou espalhar este comentário por outros blogs, sites, orkut, etc… Pois o “look at me” é, na verdade, um “nowhere for us”. Mas poucos dão-se conta disso, e isso torna-os inofensivos, politicamente.Um abraço a todos.

  10. È por isso, meu caro Ozaí, que as análises que reduzem a web ao superficiaismo narcisista são generalizantes e reducionistas. Não resta dúvida de que o look at me favore a emergência de um sujeito que, embrenhado no universo rizomático, sofre perda da interioridade. Mas, e a comunicação? e a democratização do saber? Eu, particularmente, me considero um exemplo vivo de que a net é um aliado do saber,pois fiz amizades e li coisas que seriam impensáveis sem ela. Valeu pelo texto!

  11. Caro Ozaí, Meus pensamentos a cerca deste assunto são muito próximos aos seus. Contudo, ainda resisto a exposição de minha privacidade. Concordo, a web trás infinitos benefícios a sociedade e nós professores não devemos nem podemos ficar alheios a este processo. Só atento para o fato de que a web trás um incontável número de informações que podem, ou não, transformar-se em conhecimento. É preciso cuidado, ou uma postura crítica como salientou, com a web. Caso contrário podemos nos perder em meio a tanta informação, ficando com a pseudo impressão de que detemos determinado conhecimento.

  12. pois é, e com tudo isso, você detém também os recursos tecnologicos para generosamente fazer chegar até longinquos leitores essas belas reflexoes de hoje, que sao a carta de Paulo Freire, o Menestrel e o Classe média – obrigada, mais uma vez. talvez a gente tenha o direito de ser complementar e eu possa ficar para tras em termos de inovaçoes midiaticas (o primeiro paragrafo do blog me deu vontade de ir saindo de mansinho, com preguiça de acompanhar todas essas inovaçoes de nomes barbaros – orkut, e sabe Deus o que mais…) modestamente, acho normal que meus alunos sejam muito mais competentes do que eu tanto em termos de informatica quando em conserto de carros, cozinha asiatica e outras performances que me escapam.em compensaçao, a reflexao pedagogica do Paulo Freire certamente vai influir na preparaçao das minhas aulas para amanha.um abraço,Regina

  13. Já dizia Bob Dylan: The Times Tey Are A-Changing, é estranho pois um dos avanços que a saída da igreja da vida das pessoas, o individualismo tão defendido por capitalistas, o Estado e todos que amam seu umbigo, tem hoje em dia que conviver com essa falta de privacidade tremenda. Mas é só para ingles ver isso, pois afinal não passa de uma representação justamente de individualismo, quanto mais eu me esponho mais popular eu sou, e mais bem aceito, e por todos, e mais oportunidades de crescimento em cima dos outros eu tenho. São tempos diferentes, mas não superamos nosso complexo de cuidar do umbigo. O google por exemplo conhece mais de mim, do que eu mesmo, e se isso acontece acho que estamos cada vez mais inseridos em uma realidade do livro de 1984, perdemos tanto nossa individualidade, que nosso pensamento passa a ser modificado na base dele, evitando que pensemos algo contra o sistema, onde quer que Stalin esteja, ele deve estar bem feliz, e Andy Warhol concerteza rindo de todos, que estão cada vez mais preso dentro de sua sombria previsão na qual todos os homens teriam seus 15 minutos de fama.

  14. Concordo com voçê Ozaí, embora o mundo digital nos impulsiona em larga medida a expor nossa intimidade, as comunidades e grupos virtuais nos possibilitam a acessar ou encontrar assuntos e/ou pessoas jamais acessíveis em outras épocas. Portanto, sem manter a postura crítica também pertenço a esta geração.

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