O que fazemos com os nossos alunos?

Neste ano, tenho uma turma de calouros. Foram apenas três dias, a aula é semanal, mas já é possível ter um perfil. É uma boa turma, excelente. Pelo menos até aqui!

Elas e eles demonstram a curiosidade própria dos neófitos, são atenciosos, parecem dedicados e alguns já se mostraram interessados em desenvolver pesquisas acadêmicas. Atenderam prontamente à solicitação para que pesquisassem sobre alguns temas vinculados ao conteúdo das aulas e apresentar aos demais colegas. O objetivo é integrá-los cada vez mais, estimular a participação ativa e o hábito da pesquisa. Estou contente com o desempenho, especialmente pelo interesse manifestado e o esforço para aprender. Pelo menos até aqui!

É patente o contraste com outros momentos da minha práxis docente em que era visível a apatia e o desinteresse. Certa vez, cheguei a parar a aula para conversar com os alunos. Queria entender os motivos para tanto desânimo! O que ouvi deixou-me ainda mais preocupado, pois não era algo restrito à minha disciplina, e nem se referia à minha pessoa, mas dizia respeito à vida acadêmica e ao curso. Imagino que conseguiram superar essa fase, pois a maioria não desistiu e muitos deles deverão se formar.

Problemas pessoais e familiares, frustração das expectativas e etc. Há vários fatores que explicam essa involução. Em alguns casos, talvez seja imaturidade para escolher o curso, talvez faltem informações. Muitos se sentem pressionados a optar e, com o passar do tempo, a escolha pode se revelar equivocada. No entanto, mesmos estes poderiam ser conquistados para o curso. Por que desistem? Por que ocorre a evasão?

Em parte isso se explica por fatores que fogem à alçada do docente. Será, porém, que nós professores influenciamos? Será que nossas atitudes e o modo como praticamos o poder burocrático e a linguagem professoral contribuem para afastá-los de nós e do curso? Será, enfim, que colaboramos para aniquilar a curiosidade, disposição e interesse que os acadêmicos têm nos primeiros passos na universidade?

Talvez precisemos pesquisar e atentar para os motivos que levam à apatia e à desistência, especialmente a partir do 2º ano. De qualquer forma, a nossa responsabilidade enquanto professores das turmas iniciais é imensa. Ainda que involuntariamente, podemos ser decisivos para as opções da vida acadêmica dos nossos alunos. Podemos contribuir, por exemplo, para estimulá-los ou indispô-los com determinada área do saber. O meu desapego à Antropologia e, por outro lado, a afeição por Ciência Política, também tem a ver com as professoras que tive na graduação.

Será que todos nós temos consciência do significado e o que envolve trabalhar com as turmas dos primeiros anos? Será que estamos preparados para assumir essa responsabilidade? Claro, ter professores aptos a desempenhar a atividade docente é uma exigência válida para todos os anos da trajetória dos acadêmicos. Contudo, se cuidarmos bem do início já teremos dado um bom passo.

Quem sabe seja o caso de escolher, com mais carinho e cuidado, os professores que dão aulas para os calouros? Mas, como fazer isso? Por outro lado, por que poupar o aluno de viver diversas experiências, ainda que sejam traumatizantes? Afinal, a diversidade de situações é inerente à vida e contribui para a formação. O aluno, imagina-se, sobreviverá. Como nós, quando estávamos no lugar deles, aprenderão a adotar “estratégias de sobrevivência”. O problema é se não suportarem e desistirem.

Em suma, não é fácil ser aluno, especialmente no primeiro ano. Nós que vivemos com eles e elas essa experiência, e também convivemos com as situações observadas em turmas do 2º ao último ano dos cursos, devemos nos perguntar: o que fazemos com nossos alunos? Isso pode nos ajudar a errar menos e cumprir a nossa função.

15 comentários sobre “O que fazemos com os nossos alunos?

  1. Olá Ozaí, tudo bem? Gostei muito do blog. A Kelly e o Henrique (amigos de Olga e Luana) que me apresentaram. Disseram que você se lembraria deles. peço licensa para deixar algumas reflexões. Pelo que percebi as preocupação de algumas pessoas que comentam seu blog (este texto específico) estão nos/as estudantes dos cursos de graduação. Mesmo percebendo que a discussão do texto publicado esteja girando em torno da docência nas graduações de universidades, resolvi escrever, pois a Educação é um assunto que toca todos/as. A reflexão sobre o que fazer com “nossos” estudantes me tocou, pois também acredito na Educação como práxis de transformação da realidade, onde podemos nos encontrar na comunhão entre pessoas que tenham objetivos semelhantes. No caso me refiro aos cursinhos comunitários e/ou populares onde posso ensinar e aprender em uma relação dialógica com os/as participantes. O cursinho popular que participo, fica localizado em um bairro empobrecido economicamente da cidade de São Carlos/SP. Apesar da distintas realidades (falo do foco dos comentários), acabamos tendo um grande problema com relação à evasão de estudantes que, muitas vezes precisam trabalhar o dia inteiro, estudar até às 23h e ainda pensame em entrar em algum curso de graduação. Coloco-me aqui a pensar com os/as comentaristas acima: qual a realidade das universidades brasileiras? Os/as docentes têm conhecimento das múltiplas realidades que estão inseridos/as seus estudantes? Tratam como cidadãos/as ao invés de números de registro acadêmico? Questionam em sala de aula (como muito bem colocado pela professora de Teologia) qual o papel que sua área de conhecimento deve ter em uma sociedade sempre excludente e marginalizadora? Colocam-se no lugar de seus/as estudantes, levando em consideração as diferenças étnico-raciais, socias, religiosas, econômicas, etc? Enfim, são apenas reflexões que seu texto e os comentários me trouxeram. Saudações e um grande prazer ter conhecido teu blog! Thiago

  2. É muito interessante a sua reflexão sobre os calouros. Muitas vezes me pego desanimado com o desânimo e falta de interesse dos alunos no primeiro semestre do curso. No meu caso a tarefa é mais complicada ainda, pois minha disciplina é de sociologia num curso de Administração de Empresas. Até que no início há uma certa curiosidade sobre o assunto, mas depois o contato com outras disciplinas mais “práticas” faz com que a temática social se transforme em coisas jurássicas.Você tocou numa questão interessante que é a falta de maturidade na escolha do curso. Parece-me que nossos jovens estão cada vez menos maduros quando entram na universidade. Na realidade não sabem o que querem e quando não desistem levam o curso mais por obrigação em relação ao investimento (curso pago).

  3. Professor ozaí, te convido para participar do blog do Curso de Direito:www.direitouem.blogspot.comabraço

  4. Mais preocupante do que isso é o que acontece nas escolas públicas: os alunos não tem praticamente nenhum estímulo pra estudar!! Poucos professores dão a cara a tapa, e o que acontece está ai… a grande maioria só termina o terceirão (o que já é um grande negócio!!) e simplesmente nem quer mais saber de estudar… lamentável, mas muitos sabem sem saber ler, escrever e tampouco falar direito…Já na faculdade as dificuldades são outras. No curso de Direito me lembro quando uma professora nos falou, no primeiro ano, para aguentarmos firme, que no segundo ano, finalmente, estaríamos estudando Direito, longe (nem tanto!) da Economia, Sociologia, Filosofia, bla´, blá, bla´…Outro dia conversávamos com uma professora deste ano (3º), e chegamos a conclusão que a grade do curso deve ser repensada: não só pelo fato de desanimar calouros, mas tbm porque no final do curso teríamos muito mais maturidade e conhecimento para entender coisas tão importantes ensinadas por aquelas matérias “invasivas” ao campo jurídico. Sinceramente, não sei qual seria a melhor escolha… acho que talvez no 2º ano: diminuiria a evasão de alunos no 1º ano, e estes já teriam uma base crítica para as matérias socioeconomicas a serem vistas no 2º ano. Penso que essa seria a melhor opção.

  5. Grande Antonio eDemais comentadores:gostaria de pedir a voces para aproveitarem o “gancho” do post e comentarem este tema focando o ensino médio. Sei que é tema recorrente.É que tenho vários conhecidos que lecionam no 2º grau aqui em Teresópolis, e todos, TODOS, são unânimes em apontar o diuturno desinteresse dos alunos em sala de aula, o generalizado trato desrespeitoso – e por vezes ofensivo verbalmente e até agressivo fiscamente – para com os professores, o gosto do corpo discente pelo vandalismo e depredação de equipamentos da escola, de carros dos professores… e isso tanto em colégios públicos próximos a favelas como escolas particulares caríssimas em bairros nobres.O que está acontecendo com a molecada? Está “todo o mundo” ficando louco? Por quê isso? De onde vem isso? Quais seriam as possíveis soluções? O que esse problema reflete? Teria causas sociais, econômicas e políticas? Ou suas causas são pedagógicas e psicológicas?É caso de polícia ou de manicômio?Sei de muita gente que parou de estudar por conta da violência existente nos colégios, e conheço 4 professores que deixaram o magistério por conta dessa mesma violência, e isso de 2 anos para cá!!!O que voces acham disso? Que fazer?Um abraço a você e a todos do blog.

  6. Colegas: excelente discussao esta provocada pelo texto do amigo Ozai. De fato, ser professor e’ uma tarefa dificil, tendo em conta tantas variaveis que vao alem da sala de aula. Eu tambem, tem dias que desanimo. Mas depois, uma boa aula, uma boa discussao, e tudo fica melhor. Uma questao que Ozai’ levanta, que muitos alunos tem que optar por um curso sem ter tido experiencia, e’ um problema serio. Tambem tem a questao das “modas”, que ditam que uma disciplina e’ mais “interessante” que outra em diferentes tempos. Como professores, a luta contra estes e muitos tantos outros desafios e’ parte do dia a dia. Pena que a sociedade nao valoriza o nosso trabalho de forma suficiente.

  7. Talvez o meu comentário desperte críticas e possa ser considerado preconceituoso ou politicamente incorreto, mas atuo no 1o. período do curso de Pedagogia há alguns anos e a falta de domínio dos alunos das ferramentas intelectuais prévias às atividades acadêmicas sempre foi um problema. Este acentuou-se visivelmente agora com a adoção do sistema de cotas para ingresso na universidade. Recebemos alunos que nunca leram um livro completo…Fica difícil para o professor ensinar Filosofia, por exemplo. Onde ancorar os conceitos necessários a uma reflexão sobre os fins e valores da educação?Miriam Santos de Sousa – Universidade Federal do Maranhão.

  8. Ozai,O professor é um profissional de comunicação especializado em determinado assunto ou disciplina dentro de um contexto global multidisciplinar, ou seja, ele deve ter o conhecimento de sua matéria e de como ela se conecta com as outras do contexto. deve ser esclarecido ao aluno o que essa matéria representa na sua formação profissional acadêmica e na sua vida profissional.Vou dar um exemplo : fui professor numa escola de engenharia e durante três anos fiz parte da comissão de qualidade de ensino. A disciplina Cálculo está presente nos quatro primeiros semestres. Quase todos os professores de Cálculo eram formados em Matemática e alguns eram engenheiros que não exerciam a profissão, eram apenas professores.Quantos deles sabiam o quanto um engenheiro se utiliza de Cálculo Infinitesimal em sua vida profissional ? Nenhum deles. Eu além de lecionar também exerci a profissão de engenheiro químico e durante quarenta anos de vida profissional tive que calcular uma integral relativamente complexa. Fiz muitas outras integrais e derivadas muito simples que eram resolvidas “de cabeça”. Há engenheiros que morrem de velhos sem nunca terem feito um único cálculo infinitesimal durante a vida profissional. Por que ? Por que as fómulas já vem integradas ou foram transformadas em ábacos de fácil manuseio. Então por que se gasta dois anos aprendendo cálculo ? A resposta está dada no fato abaixo :Um dia um professor de Ciências Sociais que eram a parte humana do curso de Engenharia propôs fazer umlevantamento de quanto cálculo era necessário para uso nas outras disciplinas, comparando com o programa da disciplina Cálculo.Eu alertei ao professor que era melhor não fazer porque ia dar “merda”. Não obstante o meu aviso fizeram e o resultado foi assustador : era necessário às outras disciplinas menos de 40% doprograma da disciplina Cálculo.O quê fazer com esse incômodo resultado. Eu disse prá não fazer nada porque o objetivo da disciplina Cálculo é “fazer a cabeça” do aluno para a Matemáticacomo um modelador de raciocínio lógico quantitativo e não apenas de apoio às outras disciplinas, aliás o apoio às outras disciplinas estava contido no objetivo maior.Uma boa pergunta a ser feita a todos os professores universitários : Como é que o ser da aprendizagem, da faixa etária entre 18 e 25 anos aprende e apreende, quais as variáveis intervenientes nesse processo ?Como se distribuem e se compõem os vários papéis (dramaticamente) nessa interação multiparticipativa?

  9. É, Ozaí, a coisa é séria. Em outras praias, em contatos com profissionais dedicados ao ensino fundamental, tenho dito que “não gostar de escola”, tanto quanto “não gostar de estudar”, não são atributos “genéticos”, ou seja, quem ensina às crianças a “não gostar” é a própria escola, seus profissionais e suas práticas. Nem sempre percebemos o quanto somos “persuasores anônimos”, como nomeia Umberto Eco em seu “Apocalípticos e Integrados”. É importante (especialmente para nós, os professores) não nos descuidarmos do fato de que, qualquer que seja nosso espaço de atuação, nossa responsabilidade social é sempre muito maior do que podemos imaginar.

  10. Caro Ozaí, Vou fugir da discussão no âmbito da competencia profissional, afinal, isso já é um pressuposto, para ser professor é necessário deter certo conhecimento sistematizado. Acredito que o professor, em todos os âmbitos, tem que mostra-se humano. Isso não quer dizer ser “bonzinho”, mas sim, compreender como funciona a vida real, que corre as margens da vida acadêmica. Tem professor que parece viver numa “realidade paralela”. A partir do momento que o aluno perceber que você se importa, que você conhece uma determinada realidade (seja na prática ou na teoria), haverá identificação. Daí em diante o professor poderá até cobrar mais.As experiências vivenciadas ao longo da vida se constituem num grande mecanismo que pode ser usado em benefício da aula e do aluno. Talvez esse, além claro das incontáveis qualidades intelectuais, seja seu diferencial caro Ozaí. AbsLeandro (PS – eu não me esqueci do livro,é que ultimamente estou meio “enrolado”).

  11. Ozai, bom-dia. continuando a reflexao que você propoe no blog, eu gostaria de chamar a atençao sobretudo para o comentario da professora de teologia. a contribuiçao dela é importante justamente por redirecionar os alunos, ajuda-los a confirmar ou mudar uma escolha, forçosamente imatura e improvisada. talvez o papel mais importante dos professores do primeiro ano inclua esse, de reflexao aberta.um abraço,Regina

  12. Esse primeiro ano de socias possui uma imensa sorte, sorte de pegar um dos professores mais competentes da UEM, e que mais fazem os alunos se interessarem pelo curso, digo por experiência própria, pois grande parte das minhas dúvidas em relação à abandonar ou não as ciências sociais (agora estou no terceiro ano). Foi por conta de professores que ou pareciam que o que mais queriam na vida era mantes distancia dos alunos, e do ofício de dar aula, ou seja por que demorou para pegar um professor que me desse gosto para a ciência política, por que aparentemente há uma preferencia do departamento, e uma valorização apenas da antropologia, enquanto que a ciência política, uma das deficiências do departamento da UEM sempre ficou em terceiro plano, levando os alunos que preferem essa disciplina ao hábito de abandonar, ou então não desenvolver plenamente o seu potencial. Sorte ao primeiro ano, e que saibam aproveitar a dádiva de aprender com o professor Ozaí

  13. Ozai, lindo texto… Eu e meu marido Steve tivemos o privilégio de trabalhar com turmas que só ficam conosco por um ano e só depois disso decidiam se iriam dar sequencia ao curso, no caso Teologia. Sempre sentimos um grande peso, na decisão dos alunos/as e na vida deles/as.Tivemos vários casos que no final do ano, alunos/a vinham nos agradecer e dizer que por conta de nossas aulas, tomaram a decisão de desistir desse curso e procurar outro. Ainda hoje fazem contato conosco e dizem como foi importante nossa participação em suas vidas.Evidente que o fato de lecionarmos para uma instituição particular sem a loucura de correr de uma universidade para outra para garantir um salário no fim do mês nos permitia tempo para tratar nossos/as alunos/as com todo cuidado.Mas não é isso que acontece com a maioria dos/as docentes. Mesmo quem leciona exclusivamente numa universidade pública é sobrecarregado, com orientações, pesquisas e publicações… Aí Fica difícil.Um abraço,Maria Newnum

  14. Ser professor é uma enorme responsabilidade, não apenas pela competência intrínseca (e naturalmente exigida) na matéria, mas também pela didática, ou seja, pela maneira como transmitimos o conhecimento aos alunos.Devemos tornar a matéria atraente, vinculá-al à vida real, fazer com que eles se sintam parte do problema que tratamos.Um pouco de modéstia, e outro tanto de auto-crítica, sempre ajuda…

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