Como escrever?

Certa feita fui inquirido sobre o ato de escrever. Num exercício de auto-ironia pensei: “Quem sou eu para dar lições sobre como escrever!” É certo que, por dever do ofício, arrisco-me constantemente. Na verdade, gosto de escrever, mas sem grandes pretensões. Conto com a benevolência e a crítica dos leitores. Às vezes, modéstia à parte, até recebo elogios. Reconheço, faz bem ao ego. Contudo, sempre estou vigilante, pois, como nota o poeta Mario Quintana:

“Se alguém nota que

estás escrevendo bem,
toma cuidado: é caso de
desconfiares… O crime
perfeito não deixa vestígios.”

Se fosse o caso de aconselhar, diria: “Leia, leia muito, especialmente ficção!” A leitura, além propiciar a fruição, a reflexão crítica e estimular a imaginação, contribui para o domínio e enriquecimento do vocabulário. Escrever é, sobretudo, trabalhar com palavras. O hábito de ler ajuda, mas não é suficiente. Diz-se que aprendemos a nadar, nadando. Da mesma forma, aprende-se a escrever, escrevendo. Escreva, escreva bastante. Exponha-se, arrisque-se!

Também é de grande valia ter o domínio da língua e das regras gramaticais. E, claro, ter o dicionário ao alcance. Porém, o exímio conhecedor da ortografia não é, necessariamente, um escrito profícuo. Títulos acadêmicos também não garantem a excelência da escrita (a minha experiência como editor de revistas comprova-o).

Para escrever é preciso ter idéias e informações. É necessário, portanto, pesquisar e ler bastante. Muitas vezes, uma frase, um parágrafo ou uma página escrita, sintetiza esse esforço, o qual deve ser contínuo. O leitor pode nem tem idéia sobre o quanto é árduo escrever, mas é imperioso respeitá-lo.

Algumas atitudes contribuem com o candidato a escritor. É preciso ser claro e simples. A complexidade na linguagem é, em geral, um exercício de arrogância, de pose acadêmica, relacionado à necessidade do intelectual em querer firmar-se pelo status. Como alerta Wright Mills:

“Escrever é pretender a atenção dos leitores. (…) Escrever é também pretender para si um status pelo menos bastante para ser lido. O jovem acadêmico[1] participa muito de ambas as pretensões, e porque sente que lhe falta uma posição pública, com freqüência coloca o status acima da atenção do leitor a quem se dirige. (…) O desejo do prestígio é uma das razões pelas quais os acadêmicos escorregam, com tanta facilidade para o ininteligível.”[2]

O estilo empolado trai o pretenso erudito. A verborragia atrapalha. Se as palavras não comunicam o pensamento, atestam o fracasso. O pressuposto, nem sempre observado, é que se escreve para ser lido. Ora, deve-se, na medida do possível, facilitar a compreensão do leitor. Alguns escritores têm a incrível capacidade de estimular a desistência dos seus leitores.

Por outro lado, escrever com clareza não significa adotar o simplismo como norma, mas sim evitar complicar desnecessariamente. Muitas vezes, especialmente no campo acadêmico, mais confunde-se do que explica-se. A complexidade nem sempre é uma exigência da exposição do tema, mas expressa o intuito não-declarado de se fazer passar por inteligente. Como o discurso professoral, parte-se do pressuposto de que quanto menos compreendido mais distinto do comum dos mortais. Ao escrever é necessário ter em mente a quem nos dirigirmos e adotar o estilo adequado ao perfil do leitor potencial.

Escrever, enfim, não é uma tarefa simples. Exige mais do que as habilidades formais e acadêmicas. Escrever bem é um objetivo a ser constantemente perseguido. Requer a humildade de reconhecer-se em permanente aprendizado. Afinal, não é todo dia que surge um Machado de Assis, um Balzac, um Dostoievski, etc. Ler suas obras é um bom começo.
__________
[1] Mas também o “velho acadêmico” sem criatividade que, por arrogância ou falta de criatividade, procura impressionar pela erudição.
[2] MILLS, C. Wright. A imaginação sociológica. Rio de Janeiro: Zahar, 1982, p. 235.

16 comentários sobre “Como escrever?

  1. Grande Antonio,existe algo de cômico no reino da rede.Até mesmo num “post” sobre como bem escrever aparece comentário mal escrito e cheio de erros gramaticais vários e primários. Tão mal escrito que não há redação. Texto sem redação. Seria cômico, além de irônico.Um abraço tragicômico a todos.

  2. Concordo com Thiago: escreveu bem!!!!Vou indicar seu texto para os meus alunos da pós. Estamos trabalhando com o exercício de escrever um artigo.Rita Cristiana – João Pessoa/PB

  3. Edno Araujo – SP.ednoaraujo2008@yahoo.com.brProfessor, gostaria que me autorizasse as publicação deste teu texto COMO ESCREVER? no site http://www.autores.com.br onde tenho uma página.É um site com altissimo indice de leitores e jovens escritores, como eu, que necessitam de orientações tão maravilhosas como esta que você nos brinda.Um forte e fraterno abraço.Edno Araujo.OBS: Claro, o seu texto será respeitado na integra, assim como sua autoria.Antecipadamente agradeço.Edno Araujo.

  4. Paulo Oliveira de Santos-SP:Estou particularmente interessado em iniciar a atividade de escrever. Isso sempre esteve em meus planos pessoais, mas devo confessar que fico “congelado” para iniciar a atividade.Já tentei algumas vezes, porém acabo me desistimulando.Gostei da sua colocação sobre a “como escrever” e resolvi pedir a sua opinião, ou melhor, seu conselho para “descongelar”.O que posso fazer (ou devo fazer) para levar avante essa empreitada?Obrigado pela atençãoabraçoPaulo

  5. Um dos meus maiores problemas na hora de escrever é justamente controlar a verborrogia, mas isso é algo a ser feito com o tempo, não se nasce um Machado, mas com tempo dá-se para chegar pelo menos ao pé dele hehe, abraços professor.

  6. Ozaí,Eu ia escrever sobre tudo isso que você disse, mas fui poupado;)Você mandou bem! Ontem mesmo eu convidei meus alunos a fazer da revisão dos artigos da Wikipedia um “laboratório textual” para a escrita. E agora vou convidá-los a ler também o teu texto.Abraços e bom domingo

  7. Azevedo da cidade de Ribeirão Preto São Paulo comenta:Quem diz amar a Deus e não amar o próximo é um mentiroso sempre ensinou as Escrituras através do Evangelho de São João. Da mesma forma afirmo: escritor que diz não ler bons autores, não ler muito, mas; muito mesmo não é escritor. Para bem escrever tem que muito ler.

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