A arte de escrever

Arthur Schopenhauer (1788-1860), o filósofo do pessimismo, nos legou reflexões acerca do ato de escrever, ler e pensar criticamente. Em “A arte de escrever” (Porto Alegre: L&PM, 2005), estão reunidos os seguintes ensaios: “Sobre a erudição e os eruditos”, “Pensar por si mesmo”, “Sobre a escrita e o estilo”, “Sobre a leitura e os livros” e “Sobre a linguagem e as palavras”. Sem ter a pretensão de resenhar, destaco alguns trechos que podem contribui para a reflexão sobre a arte de escrever:

“Antes de tudo, há dois tipos de escritores: aqueles que escrevem em função do assunto e os que escrevem por escrever. Os primeiros tiveram pensamentos, ou fizeram experiências, que lhes parecerem dignos de ser comunicados; os outros precisam de dinheiro e por isso escrevem, só por dinheiro” (p. 55).

Hoje, escreve-se pelo Lattes, pela pontuação e, portanto, pelo produtivismo que garanta as melhores condições na disputa dos editais e recursos materiais e simbólicos no campo acadêmico. Ou seja, salvo as exceções, escreve-se por escrever.

“O estilo é a fisionomia do espírito. E ela é menos enganosa do que a do corpo. Imitar o estilo alheio significa usar uma máscara. Por mais bela que seja, torna-se pouco depois insípida e insuportável porque não tem vida, de modo que mesmo o rosto vivo mais feio é melhor do que ela” (p.79).

“A afetação no estilo é comparável às caretas que deformam o rosto” (Id.).

“Em todo caso, o estilo não passa de uma silhueta do pensamento: escrever mal, ou de modo obscuro, significa pensar de modo confuso e indistinto” (p.84).

“Assim, a primeira regra do bom estilo, uma regra que praticamente se basta sozinha, é que se tenha algo a dizer. Ah, sim, com isso se chega longe!” (id.).

“Quem tem algo digno de menção a ser dito não precisa ocultá-lo em expressões cheias de preciosismos, em frases difíceis e alusões obscuras, mas pode se expressar de modo simples, claro e ingênuo, estando certo com isso de que suas palavras não perderão o efeito. Assim, quem precisa usar os artifícios mencionados antes revela sua pobreza de pensamentos, de espírito de conhecimento” (p.85).

“Em contrapartida, um bom escritor, rico em pensamentos, conquista de imediato entre seus leitores o crédito de ser alguém que, a sério, realmente tem algo a dizer quando se manifesta; é essa atitude que dá ao leitor esclarecido a paciência de segui-lo com atenção” (p.85-86).

“Pessoas de talento (…), dirigem-se realmente a nós em seus escritos, e por isso são capazes de nos animar e entreter: apenas eles combinam as palavras com plena consciência, com critério e intenção” (p.88).

“Quere escrever como se fala é tão condenável quanto o contrário, ou seja, querer falar como se escreve, o que resulta num modo de falar pedante e ao mesmo e ao mesmo tempo difícil de entender” (p.91).

“… deve-se evitar toda prolixidade e todo entrelaçamento de observações que não valem o esforço da leitura. É preciso ser econômico com o tempo, a dedicação e a paciência do leitor, de modo a receber dele o crédito de considerar o que foi escrito digno de uma leitura atenta e capaz de recompensar o esforço empregado nela” (p.93).

“Quem escreve de maneira displicente confessa, com isso, antes de tudo, que ele mesmo não atribui grande valor a seus pensamentos” (p.112).

As citações são do ensaio “Sobre a escrita e o estilo” e, claro, não anula a necessidade de ler na íntegra todos os textos reunidos na obra citada.

Embora não simpatize com o tom elitista e pessimista dos escritos deste filósofo alemão, penso que permanecem atuais e contribuem para o aprendizado dos interessados pela arte de ler, pensar e escrever. Sugiro a leitura crítica de “A arte de escrever”.

__________
Ver a série “Somos todos delinqüentes acadêmicos?”, publicada a partir de 06 de setembro de 2008 neste blog. Também disponível na Revista Espaço Acadêmico, nº 88, setembro de 2008 <http://www.espacoacademico.com.br/088/88ozai.htm>

6 comentários sobre “A arte de escrever

  1. DÁLCIO disse…obrigado pela sugestão, caro professor. Schopenhauer pode tratar do assunto porque escreve maravilhosamente. Li seus “Aforismos para a sabedoria de vida” e “Como vencer um debate sem precisr ter razão”. A quem for ler este último, sugiro desconsiderar a longa e fraca introdução escrita por Olavo de Carvalho. Abraço

  2. Olá Ozaí! Fazia tempo não passava por REA e seus “meandros obrigatórios” assim como este blog.Agora de computador novinho em folha adicionei esta página aos favoritos pois aqui sempre haverá um providencial vitamínico do intelecto.Adorei estas do Schopenhauer! Muito bom para leitores que como eu nunca se desligam de tentar o sonho de verter-se um pouco pelas palavras escritas. Fica o abraço da sua leitora de Laguna S. Catarina. Fatima

  3. bom-dia, Ozai, muito interessantes esses “trechos escolhidos” de Schopenhauer. nao conhecia; nao sabia que a questao de como escrever (como se fala ou nao) era tao antiga. em todo caso, os conselhos selecionados por você nao sao em nada elitistas, sao mais é muito pertinentes e atuais.obrigada por abrir mais esta “janela para o mundo” (ao qual voltou o sol neste começo de primavera – la vou eu para o parque da Plage Bleue, que nao tem praia nem é azul, mas é um belo parque paisagistico, antiga pedreira tranformada em lagos e jardins, e onde as arvores ja cresceram o bastante para dar uma ilusao de natureza – a gente fazemos o que podemos…)um abraço,Regina

  4. Grande Antonio,Chamou-me a atenção neste post sua alfinetada no Lattes. Mais uma rsrsrs. Há algum tempo acompanho sua “bronca” – e a de outros colegas seus – em relação ao Lattes. Penso, porém, que a mesma crítica que voces fazem ao Lattes deve abarcar as dissertações de teses, de Mestrado e Doutorado, que são produzidas anualmente aos montes. E os livros intelectualmente irresponsáveis, rançosos e preconceituosos, que são publicados por docentes universitários.Realmente, várias e variadas fontes do meio acadêmico dão-me informações de teses absurdas e desnecessárias, de artigos inúteis, sem argumento nem fundamento, publicados diuturnamente. Especialmente na “media” eletrônica- mas também o mercado editorial está cheio de superficialidades descartáveis.Entretanto, existem também as teses oportunas, necessárias, úteis que são defendidas. E os artigos importantes e urgentes, publicados em revistas universitárias sérias e rigorosas.E livros bem pesquisados/fundamentados/argumentados, fruto de um trabalho intelectual honesto.Nem tudo o que está no Lattes é lixo, embora muita coisa que está lá não passe de um monturo. E nem tudo que é publicado é puro narcisismo e falácia, embora saibamos que os mesmos campeiem lépidos no meio acadêmico.Acho, porém, que generalizar é perigoso. E a administração universitária necessida de alguns parâmetros de avaliação, de critérios objetivos para distinguir os bons profissionais universitários, aqueles que realmente trabalham, pesquisam e são úteis à sociedade, daqueles que simplesmente estão “enconstados” na cátedra, seja exibindo-se superficlamente disseminando suas falácias e facécias, seja apenas ganhando “algum” no mole, anonimamente.Um intelectual trabalha, deve produzir, e divulgar o que produz.Como avaliar a produção de um intelectual?Através do que publica e onde publica, das teses que defende e onde as defende e sob orientação de quem.Não há outro jeito.Agora, que há falácias travestidas de teses e/ou artigos, as há às pencas. Cabe ao público universitário e à sociedade em geral separar o joio do trigo.Generalizar é perigoso, Antonio, muito perigoso – e injusto com a boa, honesta e inteligente produção intelectual, que também está no Lattes.Um abraço, e a todos do blog.

  5. Confesso que entro em algumas críticas do autor, embora uma das que eu mais achei crítica, que é escrever por escrever, na realidade o que eu escrevo são apenas devaneios, achológicos, sem pretensão alguma, afinal qualquer um que ler me blog, ou pode me achar um louco, ou genial, mas realmente sem pretensão alguma, talvez só tornar meus pensamentos públicos, não sei se isso já o torna escrever por escrever, quanto ao escrever o que fala, estou tentando controlar, pelo menos no que diz respeito à academia, mas como o blog é algo pessoal, continuarei com verborragia, preparem seus olhos hehe, abraços e bom final de semana professor.

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