Literatura e Política em sala de aula

Há vários anos que adoto literatura em minha prática docente. Devo esse hábito à sugestão do amigo Walter Praxedes, professor do Departamento de Ciências Sociais (Universidade Estadual de Maringá). Os objetivos são: estimular a leitura, pesquisa, reflexão e a escrita. É também uma alternativa ao sistema da avaliação tradicional. Os alunos são instruídos a escolher um dos livros indicados* e solicita-se que analisem a obra numa perspectiva política, isto é, tomando-se as teorias e conceitos tratados em sala de aula enquanto referências.

Uma das primeiras experiências foi com as turmas do curso de Ciências Contábeis, quando ministrava a disciplina de Sociologia. Foi um duplo desafio: primeiro, convencer a turma de que a Sociologia era importante para a formação deles enquanto cidadãos e membros da sociedade; segundo, convencê-los a ler e ir além do raciocínio lógico estimulado pelas ciências exatas. Claro, boa parte deles, talvez a maioria, fez o solicitado apenas para cumprir as exigências acadêmicas e passar de ano. Mas houve exceções recompensadoras. Uma das alunas, por exemplo, envolveu-se de tal forma com a leitura de “Germinal”, de Émile Zola, que, entusiasmado, dei o livro de presente para ela. Outros fizeram trabalhos de qualidade, publicados na Revista Urutágua (e sem qualquer tipo de protecionismo, os artigos passaram pelo mesmo processo de avaliação que os demais).** Também há casos desanimadores, como meras transcrições de resumos encontráveis na internet, e outros não foram muito além da cópia de textos de orelhas, quarta capa, etc. Não obstante, o saldo geral é positivo.

As dificuldades são compreensíveis e, em geral, esse exercício é uma novidade na vida acadêmica dos alunos. Procuro acompanhá-los e orientá-los. O ideal é que escrevam trabalhos com qualidade para serem submetidos às revistas acadêmicas como a Urutágua. O meu interesse é que leiam por prazer, pesquisem sobre o autor e o livro e elaborem um texto bem fundamentado. Nessa perspectiva, sugiro algumas “dicas”:

– Escolher o livro pelo interesse (investir no prazer de ler);

– Pesquisar sobre o autor, a obra e o contexto da sua publicação;

– Pesquisar e ler o que já foi publicado sobre a obra escolhida;

– Ao ler o romance, destacar trechos e frases que possam ser analisados em relação aos temas e conceitos políticos;

– Ler com atenção os textos, destacando as teorias e conceitos, bem como os fundamentos da argumentação;

– Focar: definir o tema principal a ser analisado e o referencial teórico (evitar a “salada conceitual”, ou seja, o uso de várias referências sem as devidas precauções);

– Estabelecer um roteiro para a redação (um “guia” norteador);

– Retomar as anotações relacionando os trechos destacados com as teorias e conceitos;

– Não se restringir a relacionar A e B, mas analisar e fundamentar essa relação;

– Analisar, como nos ensina o “Aurélio”, é observar, examinar com minúcia; esquadrinhar; submeter a crítica; examinar criticamente;

– Não é resumo, resenha, ou restrito ao contexto e biografia do autor; nem é um panfleto opinativo;

– O texto deve ter introdução, argumentação e conclusão;

– Escrever de maneira inteligível, fundamentada, simples e clara***;

– Evitar o julgamento moral, analisar e entender os “porquês”;

– Utilizar aspas sempre que citar, observar as normas para citações e não plagiar;

– Não se esquecer de incluir a bibliografia;

– Não deixar para a última hora. Fazer com gosto e vontade de aprender, e não como uma tarefa a se desobrigar;

– O principal é a análise. O objetivo é estimular a reflexão crítica. Ousar imaginar, criar! Argumentar!

E você, caro leitor, o que sugere?

__________
* Ver a relação de livros indicados em http://antoniozai.blogspot.com/
** Ver: AMARAL, Mara Lúcia Ferreira do. Zé Ninguém e o Abominável Mundo Novo. Revista Urutágua, n. 02, julho de 2001. Disponível em http://www.urutagua.uem.br/02_zeninguem.htm
ASSUMPÇÃO, André Del Grossi. Aspectos políticos de “O Leopardo” de Tomasi di Lampedusa. Revista Urutágua, n. 01, maio de 2001. Disponível em http://www.urutagua.uem.br/ru11_politica.htm
LEANDRO, Cláudio Leite. Caminho da Liberdade – Liberalismo e Conservadorismo nos Estados Unidos. Revista Urutágua, n. 09, abr./mai./jun./julho de 2006. Disponível em http://www.urutagua.uem.br/009/09leandro.htm
TENÓRIO, Maria Clara Corrêa. O Admirável Mundo Novo: Fábula Científica ou Pesadelo Virtual? Revista Urutágua, n. 01, maio de 2001. Disponível em http://www.urutagua.uem.br/ru10_sociedade.htm
*** Ver: “Como escrever?” e “A arte de escrever”, disponíveis em: http://antonio-ozai.blogspot.com/2009/03/como-escrever.html e http://antonio-ozai.blogspot.com/2009/04/arte-de-escrever.html

3 comentários sobre “Literatura e Política em sala de aula

  1. Caro Antônio,Elogiável sua postura em incentivar o hábito da leitura e da reflexão.Infelizmente, vivemos em um país que pouca importância dá a leitura.Sempre que posso, tento difundir este saudável gosto.www.blogdoargonio.blogspot.com

  2. por enquanto nao tenho outras sugestoes; em compensaçao, vou anotar as suas otimas sugestoes pedagogicas para animar minhas oficinas socio-linguisticas (ainda tem hifen? nunca teve? passou a ter?)um abraço,Regina

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