Do que o aluno tem medo?!

O meu amigo Walterego me falava sobre a indisciplina nas escolas. Num tom alarmante e cético, dizia que a violência presente no ambiente escolar faz com que impere o medo. Os professores tornaram-se reféns dos alunos. O noticiário parece confirmar suas palavras.

No entanto, na universidade a indisciplina não chega a ser um grande problema. A reclamação mais comum se refere ao descompromisso dos alunos. Fala-se sobre a apatia em sala de aula, a não leitura dos textos indicados, as notas baixas nas avaliações e o desrespeito à autoridade docente (o entra-e-sai da sala de aula em qualquer momento, o não cumprimento dos horários, etc.).

De qualquer forma, parece-me que os alunos têm muito mais a temer dos seus professores do que estes deles. O que predomina neste ambiente é o poder professoral, um poder que angustia, estressa e silencia. A fonte desse poder é a nota, isto é, a autoridade para aprovar ou reprovar. O mau uso desse poder transforma a vida dos alunos num inferno dantesco. *

Nestes casos, invertem-se os objetivos: os esforços para propiciar o aprendizado e a formação dos discentes são substituídos por uma espécie de sadismo professoral. O que dizer, por exemplo, de situações em que o docente se vangloria de ter reprovado quase que toda a turma? Ora, se a maioria dos meus alunos não aprende o conteúdo, o fracasso é meu e não deles. Na verdade, quem deveria ser reprovado é o docente. Mas a organização formal burocrática e o espírito de corpo protegem-no.

E o que pode fazer o aluno em tal situação? Imaginemos uma turma “X”, no primeiro ano de um curso universitário. Eles têm uma disciplina fundamental para sua formação e base para outras que terão que cursar. No entanto, a didática do professor é um fracasso e sua personalidade autoritária não permite contestação. Os alunos percebem, de antemão, que não irão bem na prova. Não sabem o conteúdo e, por medo, não perguntam ao professor. Calouros, desconhecem o “caminho das pedras” para reclamar. Alguns se revoltam, mas como a maioria, temem represálias. Eles entendem que se trata de uma luta entre forças desiguais. Os veteranos, reprovados na disciplina, e não são poucos, aconselham a silenciar; o melhor é “empurrar com a barriga e não comprar briga”, dizem. Se falarem, serão marcados; a obediência, o jogo do faz-de-conta, também não é muito promissor. Diante da reprovação, muitos desistirão do curso. Os que ficam, procuram estratégias adaptativas para superar o problema.

É uma experiência traumática que ilustra bem o poder do professor. Por que os alunos não agem coletivamente? Medo, claro! Mas também o individualismo restrito ao interesse de pegar o diploma. As formas de resistências são individualizadas enquanto estratégias pessoais de sobrevivência. São incapazes de se organizar como coletivo. E as panelinhas que formam também dificultam a ação comum.

Recordo de um exemplo diferente. A turma decidiu enfrentar a professora que, segundo eles, tinha atitudes desrespeitosas e autoritárias. Ela “conquistou” o desprezo da turma. Quando se dirigia à sala para cumprir o horário de aula, a mesma estava literalmente vazia: sem carteiras, cadeiras e alunos. A queda de braço extrapolou o âmbito departamental e terminou com a vitória dos alunos na mais alta instância universitária.

Isso mostra que nem todos professores aprovam as injustiças cometidas em nome do poder professoral. Revela também a necessidade dos alunos se organizarem. E, ainda, a exigência urgente de aprofundar a democratização das instâncias universitárias, para que o poder do professor encontre contrapesos e os alunos possam se fazer ouvir. É fundamental, sobretudo, superar o medo.

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* Sugiro a leitura de “O poder do professor”, de Wilson Correia, e “A relação professor/a e aluno/a no ensino superior”, de Marisa Valladares, publicados no blog Literatura Política e Sociedade.

12 comentários sobre “Do que o aluno tem medo?!

  1. Existe uma grande diferença entre ser estudante e aluno. Infelizmente, a maioria são alunos, sujeitos passivos a espera de um milagre da aprendizagem sem esforço próprio. Estes querem professoes amiguinhos, que na verdade não dominam a matéria, para um conseguir a aprovação , e o outro, o salário.
    Os instrumentos de avaliação tem que ser diversificados, e as questões num grau de dificuldade condizentes com aquilo que foi ensinado.
    Por que o autor desse textos não menciona a vagabundagem dos autores do sistema educacional?
    Educação é um braço da política minha gente!

  2. Olá, Á pergunta que colo a sua e que precisamos também responder é: "Do que o professor tem medo" quando se oculta e se protege com a máscara do poder professoral?Agnes Murta

  3. Olá Professor!Concordo com todas as ponderações feitas, mas devemos e podemos relativizar um pouco.É certo que temos os professores que usam de sua autoridade para acabar e reprovar seus alunos. Mas muitas vezes, fazemos e faço de tudo para encantar uma turma e nada… Parecem um paredão de gelo que tudo bate, volta, reflete e não penetra. Suspeito que aqueles professores "mestres" em reprovação causam danos irreversíveis nos alunos a ponto de não aceitarem mais serem convidados a discussão.Como fazemos?? Qual o procedimento??Abraços a todos

  4. Creio que um tema como este deveria ser discutido com mais profundidade. O que o Walterego menciona em seu impecavel artigo é a ponta do iceberg. Pois, a má formação academica durante o longo periodo escolar que antecede a faculdade, somado ás transformações sociais que ainda não foram digeridas pela maioria,inclusive no seio das familias, deixa o universitário meio perdido nas salas de aula. Abs, Regina Caldas

  5. Excelente assunto levantado pelo post.Tema sério e que merecia ser mais abordado pelos grandes veículos de comunicação.Quem não passou por situação semelhante?

  6. Olá Professor Ozaí,Fico muito feliz por haver um professor que percebe tal dificuldade dos alunos universitários e se posiciona frente a este assunto. Realmente, estando no 4ºano da faculdade percebo que durante o curso, muitas vezes, me peguei “estudando” o tipo de resposta que determinados professores gostariam de ouvir. Algumas vezes acertei, outras errei. Não acredito que a impessoalidade dos professores com relação às suas idéias e àquilo que exigem dos alunos seja unânime. No entanto, existe, prejudicando o desenvolvimento do pensamento e a formação de opinião por parte dos alunos.Denise Rosa

  7. Caro Ozaí, Concordo com sua concepção sobre a relação entre professor, aluno e conhecimento no ensino superior. Contudo, seu amigo “Walterego”, tem razão quando se refere ao ensino fundamental e médio. Só para se ter uma idéia, geralmente se o aluno reprova a culpa é atribuída ao professor. E alguns professores se vangloriam de nenhum aluno ter reprovado na sua sala. Se ele aprendeu, ou não, isso não se cogita. Tudo isso, sem falar da quantidade de alunos aprovados pelo Conselho de Classe (conjunto de professores da turma, mais as pedagogas e a diretora). Por mais que o autoritarismo exista na universidade, penso que a condição ali é melhor que no ensino fundamental e médio. E estou falando só de aprendizado e não de disciplina.

  8. Sou obrigado a reconhecer que isso já aconteceu com a minha turma, embora não foi unanimidade entre os alunos as atitudes da professora, mas concordo com o post, há mais medo dos alunos, por conta da hierarquia existente do que o respeito mútuo que deveria ser pré-requisito principal de uma relação tão importante quanto a de professor e aluno.

  9. Bom dia .Querido professor Ozai,é com muita tristeza que mais uma vez venho concordar com o Sr. quando fala do professor que se apossa desse poder exacerbado para ditar regras e leis em sala de aula. Acho, que as avaliaçoes deveriam ser diarias ao invez de datas marcadas como forma de puniçao para alunos indisciplinados ou nao,o educando teria que ser avaliado todos os dias ,levando-se em conta suas habilidades para que suas notas fossem justas e sem rixas de professor.Tenho como exemplo maior a minha filha e meus sobrinhos ,na escola que estudavam ano passado quase toda a escola ficou em recoperaçao e a grande parte perdeu ,sei que nao podemos atribuir este fatidico episodio so ao educador ,mas ele como mediador deveria saber que nao é o detentor do saber e na maioria das vezes para se vingar de seu alunado espera como um ladrao na espreita de sua vitima para se vingar.Desde ja ,agradeço pelo espaço sempre aberto para todos.

  10. A PAZ DENTRO E FORA DAS SALAS DE AULAS. Como vamos rebater uma verdade em que nos tornamos “impotente?”, mas aprendemos muitos , em sala de aula desde 1966, somente agora descobrimos que temos “poder”, triste do poder que não pode. Realmente o que pode o profesor, o trabalho está sendo executado com amor, dedicapçaõ, competência, mas, lhe falta ‘AUTORIDADE”, pois não são HE-MAN. EU ERA UM PROFESSOR.

  11. A respeito do mesmo assunto, espero que logo passe ai o filme “La journée de la jupe” que poe em cena a violência na escola com toda a força e dramaticidade que isso representa para todos os atores do ensino publico (publico na França é sinal de qualidade e representa a parte mais significativa da educaçao em todos os niveis). A atuaçao tanto dos jovens – todos saidos dos suburbios mais pesados de Paris – e da extraordinaria Isabelle Adjani nos faz entrar no que seria uma das nossas tragédias mais significativas. Talvez seja essa a razao do sucesso do filme – em vez de ir buscar mitos consagrados e gastos pela unanimidade planetaria, pôs em foco algo que diz respeito à vida de homens e mulheres de agora – e isso com todo o peso que os mecanismos tragicos tinham aperfeiçoado – terror e piedade.Um abraço,Regina

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