Inventário de leituras – De volta às origens (2)

É perigoso ser leitor de um único autor. O risco é tomá-lo como a expressão da verdade absoluta e tornar-se discípulo papagueador. Admira-me marxistas que tratam a obra do mestre como a “santa doutrina” e consideram-se auto-suficientes. Como adoradores do livro sagrado, recusam-se a seguir o exemplo do próprio Marx. Ele era um leitor voraz dos economistas burgueses e, inclusive, do conservador Balzac. Diferente dos marxistas que se recusam a ler os “burgueses”, ele leu os autores que criticava. Estes seguidores deitam discursos nada elogiosos a quem se aventure a ler os autores “malditos” e impõem a necessidade de se justificar, sob pena da condenação política.

Tive a sorte de ter diversas influências literárias. Gosto de ler desde a mais tenra idade. Minhas preferências envolviam a literatura de cordel, gibis, pockets do gênero faroeste, policial, etc., comuns naquele tempo, e até mesmo fotonovelas que emprestava da minha tia. Também li as histórias do rei das selvas. (Certa feita, caminhando pela Av. São João, na capital paulistana, deparei-me com uma promoção da coleção do Tarzan, de Edgar Rice Burroughs; eram oito livros, cada um mais volumoso que o outro. Não tive dúvidas, comprei e li todos. Não recordo exatamente o ano, mas foi na minha adolescência).

O estímulo para ler não vinha da escola. Não recordo de nenhum(a) professor(a) que tenha estimulado este hábito. Pelo contrário, as lembranças são desabonadoras: no colegial, peguei bronca com o autor de Dom Casmurro, que fui obrigado a ler e achei muito chato. Anos depois redescobri Machado de Assis e hoje sou admirador da sua obra (mas ainda não li Dom Casmurro).

Com o tempo, passei a ler obras de cunho político. À fase da revolta segui-se a necessidade de esclarecimento. Os primeiros textos que fizeram a minha cabeça foram a Bíblia, “O socialismo e as igrejas”, de Rosa Luxemburgo, e o poema “O operário em construção”, de Vinicius de Moraes. Enquanto neófito da Teologia da Libertação, lia o texto bíblico sob a inspiração política e social. O sermão da montanha (Mateus, 5-7) foi um dos preferidos. Também gostei do relato sobre como viviam os primeiros cristãos, em comunhão de bens (Atos, 4, 32-37 e 5, 1-16). A leitura da Bíblia dava-me respostas diante das injustiças sociais que sentia e via ao meu redor e reforçava a minha esperança utópica por uma sociedade justa e igualitária.


Este humanismo cristão encontrou guarida na literatura marxista. Devo esta descoberta a uma amiga, na época em que era secundarista na Escola Estadual Mário Casassanta, na Vila Alpina, Zona Leste de São Paulo, capital. Foi a Cidinha quem me passou o poema do Vinicius de Moraes e o texto escrito por Rosa Luxemburgo. O primeiro me sensibilizou demais. No sentido metafórico e real, reconheci-me nele: eu era um “operário em construção”, embora não fosse operário da construção, mas sim da Saab Scania. “O socialismo e as igrejas” confirmou a minha intuição e contribuiu para realizar a simbiose entre a minha maneira de ser cristão e o marxismo que se insinuava em minha vida.

Nesta época, outro amigo da escola, o Luis, tentava me ganhar para o trotskismo. Seu ateísmo, porém, me assustava. A mensagem poética e a possibilidade de beber nas águas do marxismo sem ter que abrir mão da minha fé, era um caminho mais atraente. Fui seduzido pela amiga e o marxismo-trotskista ficou num plano secundário. Depois, cheguei a ler a biografia escrita por Isaac Deutscher e algumas das obras do fundador da IV Internacional, mas não aderi ao trotskismo. De certa forma, continuei sendo um humanista cristão, ainda que inspirado no marxismo. Mesmo quando a chama da fé cristã apagou-se em meu ser.

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Ver Inventário de leituras (1), publicado em 09 de fevereiro de 2008.

** Segunda foto: turma na Escola Estadual Mario Casassanta, Vila Alpina, São Paulo.

7 comentários sobre “Inventário de leituras – De volta às origens (2)

  1. Ozaí,Fiquei muito feliz pela sua visita no Blog do Argônio.Obrigado também por colocar o link na sua página.Fico sempre esperando sua visita lá, para podermos debater os assuntos do dia a dia.

  2. Excelente texto, apropriado para uma reflexão de natureza política e filosófica. Timeo homini libris, conforme o pensar de Santo Tomás de Aquino. (Barros Alves, em Fortaleza-CE)

  3. bom-dia, Ozai, foi um prazer conhecer você nessa época (na segunda foto, nao pude identifica-lo) e saber das suas leituras.acho que a sua adolescência foi mais aberta e interessante do que a minha, menina de colégio de freiras e horizontes bem restritos. mas, além de ter achado Dom Casmurro muito chato, também li toda a coleçao Terra, Mar e Ar (de qual editora seria?), da qual faziam parte os livros de Edgar Rice Burroughs. talvez meu amor pelas florestas e arvores em geral date dai, quem sabe?… acho que meu pai comprava todas essas coleçoes das grandes editoras que vendiam por intermédio de heroicos vendedores que iam de porta em porta pelo Brasil afora (nao sei se se vendia também por correspondência ou na tipografia local – inspirados no genial sistema de vendas de livros bolado pelo Lobato). além dessa, me lembro dos livros de Dostoievski, da editora Globo (traduzido através do francês!) e a obra de José de Alencar, da José Olympio. uma prima tinha a coleçao de Monteiro Lobato, que eu li meio clandestinamente, porque constava do index, segundo o que ouvi na época. imagine que emoçao pecadora nao era essa heresia, la pelos doze anos…diga-se de passagem, esses compradores de livros (meu pai e a tia em questao) eram professores, uma do primario, outro do secundario.em todo caso, quem leu esses maravilhosos livros de aventuras nunca mais vai ver os animais e a natureza como algo à disposiçao do ser humano.. o que ja é um bom antidoto contra a mentalidade cientificista e determinista que herdamos do século XIX, muitas vezes sem nos darmos conta.abraço e bom domingo,ReginaPS. acho que entender a ironia – na qual Machado de Assis é mestre absoluto – é um privilégio da idade, logo deveria ser proibido para menores de, digamos, trinta anos.

  4. Prezado Ozaí, pensar nossos caminhos pelo mundo como você fez nesse belo texto é dar-nos conta de nossos pertencimentos e, ao mesmo tempo, da impossibilidade de escrever uma biografia. Religiosos no início, acabamos agnósticos como adultos (será esse o seu momento atual?); talvez retomemos, na velhice, os passos do começo ainda que de modo ambíguo e sob circunstâncias diferentes. A vida de um indivíduo é tudo menos linear. Nossa auto-complacência nos engana a respeito de nossos caminhos. Construímos uma “ilusão biográfica”. Nem Bourdieu escapa de ser alvo de suas próprias restrições. Talvez façamos melhor se pudermos nos entregar com inteireza (paixão, razão, habilidades) aos desafios que a vida nos coloca a cada momento. Como participantes de um grupo social, de uma etnia, de um movimento social,de uma família – daquilo que se convencionou chamar, no campo das ciências sociais, de identidades sociais – alçamo-nos à intersubjetividade, à ação coletiva e adquirimos historicidade. Sabemos: sempre agimos com uma intuição do todo que se baseia nalgum conhecimento mas jamais alcançaremos o entendimento da totalidade em que estamos imersos. Não devemos esperar encontros definitivos, certezas. Lutamos, apenas. A cultura é um legado que remete a essa totalidade inalcançável. Partilhamos dela a partir das contradições nas quais estamos imersos. De fato, não se pode entender a crítica de Marx à religião – “o coração de um mundo sem coração, o ópio do povo” se não lermos os Testamentos que compõe a Bíblia e se, ao mesmo tempo, não formos capazes de entender a religiosidade popular no atual contexto da sociedade.Não é essa a premissa de quem quer continuar a aprender?Um abraço,Eduardo

  5. Ecletico, como convem a uma pessoa inteligente, que aderiu ao marxismo mas que nem por isso se tornou fundamentalista ou “religioso”. Creio que temos quase o mesmo itinerário: me formei dentro do marxismo, mas nunca deixei de ler os “reacionários” que contestavam o marxismo — como Raymond Aron, ou Roberto Campos, por exemplo — o que aliás me fez muito bem, pois quem só admite ler obras do seu campo político-ideológico está confessando, antes de tudo, um tremendo preconceito intelectual, o que é o contrário do espírito acadêmico, ou da mais simples inteligência…

  6. A leitura sempre fez parte da minha vida. Desde muito cedo, sob influência da minha mãe, aprendi a gostar da nobre arte da leitura.Comecei com gibis, coleções infanto juvenis, passei pela Agatha Christhie e não parei mais…

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