Reminiscências (2)

“E as ilusões estão todas perdidas
Os meus sonhos foram todos vendidos
Tão barato que eu nem acredito”
(Cazuza)

As “minhas universidades”** foram a fábrica, o Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo do Campo e Diadema, a Pastoral Operária, o Partido dos Trabalhadores e Maurício Tragtenberg. Sou o resultado da convivência e experiências proporcionadas nos anos de descobertas. Sou a expressão dessa diversidade de influências e das opções que fiz.


Recordo com carinho dos que contribuíram no processo de construção da minha identidade, especialmente daqueles com quem convivi intensamente. Estou amalgamado a eles e elas, pessoas e instituições. Foram a minha escola de vida, são parte do meu ser. Ainda que, em determinada fase da caminhada, nossos caminhos tenham se distanciado e tornados distintos, carrego-os em mim como lembranças agradáveis ou fantasmas do passado que assombram o tempo presente. Sou a síntese possível, historicamente construída a partir dessa pluralidade de “universidades”.

O meu envolvimento sempre foi de uma paixão intensa, como também as rupturas e os novos caminhos escolhidos. Na dialética da vida, porém, a ruptura não é plena. A continuidade sobrevive na descontinuidade. A adesão ao novo, às novas idéias, exige o tributo às velhas idéias e relações abandonadas nas trilhas do viver. Introjetamos em nosso ser o adolescente de ontem, as primeiras idéias que nos conquistaram, as amizades fecundas, os prazeres e frustrações dos primeiros amores, os sonhos e esperanças, a utopia compartilhada na práxis militante. Como uma metamorfose ambulante nos transformamos em um novo ser, mas o passado permanece presente em nosso âmago. O que somos e pelo que vivemos hoje vincula-se com o que fomos e vivenciamos ontem.

A minha experiência de vida como aprendiz de mecânica no SENAI de São Bernardo do Campo (SP) me levou a ter contato com as greves metalúrgicas que abalaram os alicerces da ditadura militar. Ao me identificar com o destino daqueles homens e mulheres que ousavam desafiar a ordem, também me tornei um grevista e me envolvi com a militância sindical. Paralelamente, a partir da minha convivência no bairro em que morava e na escola Mario Casassanta, descobri a Pastora Operária. A rota que me levou à Igreja da Libertação foi, portanto, a experiência como operário “em construção” que toma consciência de si e da sua classe.

A práxis religiosa, inspirada na Teologia da Libertação, alargou os meus horizontes e me proporcionou conhecer homens e mulheres, jovens e adultos, com os quais me identifiquei. Elas e eles eram da Pastoral Operária, mas também da Juventude Católica, das CEBs, da JUC, etc. Também nos encontrávamos na luta sindical e no partido. Quando assumi a militância partidária, e saí da Pastoral Operária, houve uma identificação “natural” com a base social que legitimava a liderança sindical-petista. Quando estes, em 1983, organizaram a “Articulação dos 113”, conseqüentemente eu também estava entre os que lhes davam sustentação política.

Permaneci na base até abandonar, em 1991, a militância petista. Não ocupei cargos importantes na estrutura partidária. Éramos os que levantavam os braços e apoiavam a política dos líderes; éramos os que “carregavam o piano” para que eles tocassem. A música iludia os nossos sentidos. Acreditávamos neles e imaginávamos que compartilhavam a mesma utopia. Talvez eles também acreditassem, mas foram seduzidos pelo canto da sereia! Éramos, na verdade, aprendizes da difícil arte de fazer política. Não obstante, ainda que hoje eu não me reconheça em seus atos e na política que defendem, eles também foram parte das “minhas universidades”.

__________
* Ver Reminiscências, publicado em 07 de junho de 2008; e, Memórias, de 20 de fevereiro de 2008.
** A referência é de Tragtenberg que, à maneira de Gorki, gostava de usar a expressão as minhas universidades para se referir às pessoas e instituições que contribuíram para o seu desenvolvimento intelectual.
*** Imagens: 1. Soldados da ditadura cercam a Igreja Matriz de São Bernardo, onde operários se reuniam; 2. Helicópteros da guerra do Vietnã apontam suas metralhadoras para os operários e dão razantes na assembleia dos metalúrgicos. (Fonte: http://www.cnmcut.org.br/verCont.asp?id=14631)

8 comentários sobre “Reminiscências (2)

  1. Ozai, acredito e tenho certeza que voce foi muito modesto em seu rápido comentário. Eu estava muito próximo de voce, quase que lado a lado nas mesmas lutas. Nossos desafios foram muito maiores e que não foram comentados. Apenas como lembrete: nossas dificuldades, por exemplo, aqui em Diadema. Procure ampliar este seu “texto”, pois o tema é muito rico e não podemos deixar de falar. Abraços do seu companheiro, João Paulo.

  2. A melhor forma de se homenagear um mestre é continuar o seu trabalho e concretizar o seu sonho.As suas universidades, de maior importância, você as enumera e lhes reconhece o merecido valor. Escolas não virtuais sempre serão as mais interessantes e profícuas. Tomara que elas sobrevivam para se contraporem a um outro tipo de arbítrio que a ditadura dos bacharéis vem produzindo.

  3. Uma ação com reflexão. Uma reflexão a partir da ação. Um desejo de encontrar respostas, mesmo que momentâneas. E um desafio de continuar caminhando, ainda que algumas ilusões vão ficando para trás. Estes foram alguns pensamentos que me vieram ao ler estas profundas “Reminiscências”.

  4. Ozaí,Em primeiro lugar, um belíssimo texto (mais um).A experiência humana nesta breve passagem é constituída exatamente disto. Passamos por situações e pessoas que vão nos moldando e nos transformando.Experiências boas, agradáveis, prazerosas e outras nem tão boas e fáceis de lembrar, mas que são igualmente importantes para nos tornar o que nós somos de verdade.Outra reflexão que eu tive lendo seu post é como a sociedade brasileira regrediu em relação á luta de seus direitos…não precisa falar nada, pelas fotos você já percebe.Infelizmente, tenho 33 anos, não vivi essa época de engajamento em que ao se lutar pelas causas nobres, o brasileiro acabava por se tornar melhor. Talvez, muito do que acompanhamos na sociedade brasileira hoje em dia, seja falta desse espírito contestador e crítico de outrora.Leo Lagden (Blog do Argônio)

  5. Prezado DoutorCumprimentos. Temos vários desafios. Um deles é manter e resgatar nossa própria história. Admiro, portanto, seu propósito.O que cada individuo faz em regra é esquecido. Contribuímos em nossa pifia jornada, cada um, com o propósito da redemocratização do país e por extensão com a luta pelos direitos e garantias socias. Na esteira pelo direito de greve, pela autonomia sindical, por terra e trabalho para todos. Entre outras demanda, as quais longe de estarem concluídas estão a exigir redobrados esforços, pois a jornada apenas se inicia.Um abraçoPedro Vanzin FilhoCaxias do Sul – RS.

  6. Difícil para mim emitir um comentário. Eu, naqueles tempos, estava em campo oposto. Talvez pela influência, mas quando Getúlio morreu, passei a ver com mais atenção fatos diferentes. Não a atenção de abraçar uma causa. Hoje, quando vejo fotos como essas anexadas na matéria deste blog, me lembro dos momentos cruciais vividos por pessoas que brigavam por um ideal. Ideal de liberdade de prosperidade para pessoas humildes como eu. Mas, continuando, em 1968 vi lá na Cinelândia, no Rio de Janeiro, a virulência do poder. Dali em diante e mais ainda na Candelaria, em comício pelas diretas, senti que meu lado era outro. Como fui e sou apenas um visor da história, rendo as minhas homenagens aos que deram suas vidas para um país livre que somos hoje, mesmo que ainda tenhamos a força econômica da midia usando de tudo para reverter as grandes conquistas.

  7. para mim, é a coisa mais bonita que você ja escreveu. e você é um brasileiro de sorte, por ter tido a oportunidade de viver esse momento de crise (crise = crescimento) e ao mesmo tempo de ter entrado em contato com o que de mais vivo e verdadeiro se fazia no pais. e por ter tido a sensibilidade e a inteligência de ir em frente junto com um movimento que deu de tudo, bom e ruim, mas sem duvida um fermento que mudou a face do Brasil. o que sinto no seu escrito é um grande espirito de liberdade. parabéns.abraço,Regina

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