Ao amigo Paulo Meksenas!

Era para ser mais um dia rotineiro, mas não foi. Primeiro, acordei mais tarde do que o de costume devido ao efeito do remédio que tomei para aliviar a dor que sentia em minha perna. Como já é hábito, fui verificar os emails. Entre as dezenas de mensagens recebidas, uma me chamou a atenção: “Nota de falecimento”. Abri a mensagem e não acreditei no que li e reli. A mesma tecnologia que permitiu o reencontro de um amigo, agora informava a triste notícia da sua morte.

Conheci o Paulo na juventude: ele participava do grupo de jovens da Igreja e eu da Pastoral Operária. Morávamos relativamente próximos: eu na Vila IVG e ele no Parque São Lucas (Zona Leste de São Paulo). O Núcleo de Base do Partido dos Trabalhadores e a Igreja ficavam próximos à sua residência. Com o tempo, passei a frequentar a sua casa. Tínhamos origens sociais e padrão de vida diferentes, mas isto não fazia diferença diante do carinho com que era recebido, especialmente por seus pais. Eu me sentia bem entre eles. O meu gosto por música nos aproximou ainda mais. Paulo foi meu professor de violão. Na verdade, eu nem tinha o instrumento musical. Nas poucas aulas que tivemos, nas quais usávamos seu violão, ficou patente a minha incompetência musical. Logo, cheguei à conclusão que não tinha vocação e desisti. Mesmo assim, aprendi uma música: Let it be!

A minha vocação era a militância. Esta foi outra ponte entre nós. Recordo dos dias em que nos antecipávamos aos primeiros raios do sol e amanhecíamos às portas das indústrias químicas do ABC paulista para entregarmos panfletos da Oposição Sindical. Era um tempo em que a CUT se gestava e somávamos forças para arrancar os sindicatos das mãos dos pelegos e devolvê-los aos trabalhadores. Vejo com nitidez a imagem do Paulo, feliz e sorridente diante dos operários. Não podíamos imaginar no que a CUT se transformaria nos anos seguintes.

Em 1981, tivemos outra experiência inesquecível. Fomos, com outro amigo, para a capital baiana. Foram mais de 48 horas de viagem de ônibus. A grana era curta. Ficamos num espaço cedido pelos companheiros do Sindicato dos Eletricitários. Permanecemos alguns dias em Salvador. Depois, eles voltaram para São Paulo e eu segui adiante, até Paulo Afonso – onde havia morado antes que minha mãe migrasse para o sudeste. O meu plano era conhecer a cidade que nasci, um pequeno vilarejo chamado Santa Maria, na Paraíba. Foi a última vez que vi o meu pai.

Uma das imagens deste período que guardo na memória foi a minha visita à casa do Paulo e Mariza, cujo filho, o Rafael, era recém-nascido. E lá se foram os anos. Tomamos rumos diferentes e perdemos contato. Um dia, já morando em Maringá, encontrei um livro do Paulo. Descobri, então, que ele residia em Florianópolis e era professor na UFSC. Nos reencontramos pela internet e passamos a trocar emails. Descobrimos que a velha amizade resistira ao passar do tempo e à distância que nos separou. Por uma dessas felizes coincidências da vida, fui convidado para participar de uma banca de mestrado na UFSC. Ele foi me buscar no aeroporto. Foi um reencontro emocionante e inesquecível. Era o ano de 2007!

Agora só me resta as imagens de um tempo que passou. Imagens fortemente gravadas em minha mente e que não esquecerei. A dor que a gente sente em momentos como este é indescritível. A perda de um amigo ou de qualquer ente querido significava perder parte do nosso ser; nos tornamos seres incompletos. É como se também morresse algo em nós. Por isto, é preciso afirmar a presença diante da ausência, pois nossos mortos vivem em nós. Diante do inexorável, só nos resta a resignação e a certeza de que o ausente se faz presente. Paulo, você permanece em nós, em nossa memória. Amigo, você está presente!

18 comentários sobre “Ao amigo Paulo Meksenas!

  1. Apenas hoje, 30/07/2014, fiquei sabendo da notícia. Por acaso, trabalho no centro de São Paulo, palco de constantes manifestações de todos os tipos, e os manifestantes que passam hoje aqui na rua, ao tocar uma música do Geraldo Vandré me fez lembrar do Professor Paulo Meksenas. Tive aulas com ele no curso de Magistério nos anos de 1986 e 1987. A disciplina Sociologia, e fiquei triste porque com sua fala mansa conquistou as alunas do curso, foi um ótimo professor e na minha memória se tornou inesquecível com as dinâmicas de grupo que utilizava para introduzir conceitos. Talvez não soubesse mas ensinou muito mais que a matéria. Lamento porque depois dele não encontrei outro mestre com a mesma vontade de ensinar! Sirlene Pessebão Bezerra

  2. Perda lamentável, Ozaí. Você disse tudo nesse texto maravilhoso. Utilizo até hoje os textos do Paulo Meksenas nos clássicos de sociologia para alunos iniciantes. E a pessoa, não conhecia, mas pela sua descrição, a gente imagina. Meus sentimentos, e que pessoas maravilhosas, afetivas, mesmo partindo, permaneçam vivas dentro de nós, e sirvam de exemplo para que nos forneça mais energia pra luta na busca de uma sociedade melhor. Ganhar dignidade e respeito é ser lembrado assim.

  3. >>Caros amigos, no dia de ontem 19/11/2010 fiquei sabendo – tardiamente- da morte do Professor Paulo Meksenas. Conheci os seus livros através dos Professores Ademar Vieira dos Santos e Rosa Helena Dias, no curso de pedagogia da Universidade Federal do Amazonas, em meados da década de 1990, em Manaus. Através de seus textos, eu gostei de sua postura crítica e sensível com a defesa da educação pública e de qualidade. Meksenas sempre foi uma referência na sociologia da educação. Fiquei triste com a notícia. Mas a vida continua e a luta também. Tenho certeza que os “filhos” que Paulo Meksenas formou durante durante sua vida acadêmica continuarão sua utopia para a construção de um Brasil mais humano, digno e solidário – onde todos serão iguais e respeitados em suas diferenças.

  4. Caro Ozaí,Apenas hoje, fiquei sabendo do falecimento do Paulo ocorrida há mais de um mês. Ao fazer uma busca na internet sobre a polêmica entrevista de Martin Carnoy, publicada ontem na Folha de S. Paulo, caí numa página que falava do seu falecimento. Depois, fui procurar sobre isso e cheguei ao seu blog. Na mensagem que vc escreveu a ele que vocês foram muito amigos. Daí, a razão do meu e-mail a você.Convivemos periodicamente por apenas um semestre na USP, em 1998, ocasião em que eu iniciava o mestrado e ele o doutorado. Ambos éramos orientandos do Evaldo Vieira e cursávamos a mesma disciplina, ministrada pela Elza Garrido. Essa pequena convivência, no entanto, foi suficiente para perceber que ele era uma pessoa especial, seja por sua rigorosidade como pesquisador, seja por sua humanidade e competência como educador. Lembro-me como ele, já experiente pela trajetória de autor e docente acadêmico, era atencioso e prestativo comigo, então, neófito na pós, tanto nas discussões em de sala de aula, quanto nos bate-papos na cantina da Feusp.Não me esqueço quando, ao apresentar um seminário sobre Pierre Bordieu, afirmei enfaticamente sobre a marxianismo desse sociólogo que, segundo a minha interpretação, fazia transposições constantes das categorias marxistas em suas incursões conceituais. Paulo, com uma postura generosa, mas firme, disse-se que, apesar de minha observação, segundo o que ele pesquisou examinando diretamente a obra, Bourdieu havia citado Marx apenas uma ou duas vezes na Reprodução, o que poderia colocar em dúvida a minha assertiva categórica.Recordo-me, também, do melhor e mais didático seminário apresentado durante aquela disciplina que tratava do "conhecimento em sala de aula". Enquanto todos os grupos se preocupavam com os papers, slides, vídeos e outros recursos em suas exposições, Paulo Meksenas, que apresentou o seu trabalho sozinho (pois, já trabalhando fora de São Paulo tinha dificuldade de vir com frequência à USP), usou, para esse fim, apenas o milenar giz, a lousa e sua fala tranquila. Seu seminário foi simples. Ao ser chamado pela professora, agradeceu e comprimentou a todos por aqule momento; em seguida, escreveu na lousa: "Contextualizando Erving Goffman". Falou por cerca de 1h30 com particular brilhantismo e simplicidade pedagógica que nunca esquecerei nem do título nem das questões essenciais da "Representação do eu na vida cotidiana", temática central do mais conhecido sociólogo candadense, naquele momento.Mais um Paulo que, deixando-nos em presença, permanece conosco em memória.Um abraço.jason mafra

  5. Caro Ozaí,Tive a alegria de desfrutar com o Paulo e outros jovens da então utópica construção de um país socialista no nosso berço que foi a Igreja do Pq São Lucas e o PT. Agora fica um vazio, um sopro no ar, algo que se passou e nuca mais voltará a se juntar, fica a saudade.Roberto Furini

  6. Caro Toninho Ozaí, Fiquei sabendo hoje, domingo – 28/06 -, do falecimento do nosso amigo em comum, Paulinho Meksenas. Também, como você, em 2007 reencontrei o Paulinho atravéz da internet, se não me falha a memória, a partir de um comentário dele na revista Espaço Acadêmico. Trocamos mensagens e relembramos os velhos tempos e combinamos encontros futuros… Ontem, fui assistir a peça – "O outro pé da sereia" -, baseada no livro do autor moçambicano Mia Couto – Ed. Cia da Letra. Uma coisa que me chama sempre a atenção nas histórias africanas é como os mortos estão presentes na vidas dos vivos e como é importante cultuarmos os nossos mortos, pois eles são parte da nossa identidade, da nossa memória e da nossa história. Lendo as mensagens postadas nesse blog é possivel perceber como o Paulinho vive em cada um dos seus amigos e conhecidos. Axé!

  7. Ozaí… O Paulo foi meu mestre no Magistério em uma escola na Vila Industrial, onde hj sou professora. Soube do seu falecimento hj na reunião de pais, onde uma antiga professora é mãe de alunos. Sabe aquela sensação de não pode ser! Ele foi mais que mestre, era amigo dos alunos e ao contrário de muitos profissionais, ansiava por uma educação melhor. Ficará sempre em nossos corações!

  8. Quando iniciei minha carreira de professora de sociologia, no Pará, a primeira leitura didática que desbravei foi: Sociologia: paixão de conhecer a vida, de Paulo Meksenas. Daí em diante, adentrei-me nas idéias defendidas pelo autor e acabei me apaixonando ainda mais pelo ofício de ensinar sociologia. Estou profundamente entristecida com essa notícia. A sociologia perde muito. Kattia Amin

  9. Conheci o Paulo na PAstoral de Juventude de Vila Prudente nos idos de1980. O então estudante de Ciências Sociais na Usp foi lider da PJ emilitante do PT desde as primeiras horas.Se tornou um sociologo respeitável e compromissado com a educação públicaem nosso país. Seu compromisso ia mais além….Paulo era Cristão,humanista e SOCIALISTA como poucos.Paulo nos deixa mais do que seus ensinamentos em sociologia da educação,nos deixa um exemplo de intelectual compromissado com a mudança social.Em sua homenagem CONTINUAMOS NA LUTA POR UM BRASIL JUSTO, DEMOCRÁTICO ESOCIALISTA!Fernando do Amaral Pereiraamaral1800@hotmail.com

  10. Conheci o Paulo na PAstoral de Juventude de Vila Prudente nos idos de1980. O então estudante de Ciências Sociais na Usp foi lider da PJ emilitante do PT desde as primeiras horas.Se tornou um sociologo respeitável e compromissado com a educação públicaem nosso país. Seu compromisso ia mais além….Paulo era Cristão,humanista e SOCIALISTA como poucos.Paulo nos deixa mais do que seus ensinamentos em sociologia da educação,nos deixa um exemplo de intelectual compromissado com a mudança social.Em sua homenagem CONTINUAMOS NA LUTA POR UM BRASIL JUSTO, DEMOCRÁTICO ESOCIALISTA!Fernando do Amaral Pereiraamaral1800@hotmail.com

  11. Ozaí,Fiquei sabendo do falecimento do Paulo ao receber um e-mail da Cida Dolores. O Paulo teve uma importância muito especial em minha vida, foi meu professor de Sociologia no ensino médio e um grande amigo, a quem aprendi a admirar e respeitar. Foi ele que me apresentou a você, com quem tive a oportunidade de conhecer o movimento sindical, popular e partidário e iniciar na militância política. Apesar do ritmo e da transitoriedade da vida, as grandes e amizades nos marcam profundamente, para sempre… Um grande abraço, Manoel Dimas Tavares

  12. Pessoa admirável!Foi meu professor durante dois anos na UFSC!Professor com uma postura que orgulhava todas as suas alunas da pedagogia!Tínhamos orgulho em dizer que tínhamos como orientador!Deixará saudade!

  13. Como cantava o Gonzaguinha: "O mesmo trem da chegada é também o da partida".Reencontro você pela internet depois de anos … e com essa notícia. o que sei é que nosso amigo e companheiro Paulinho estará sempre conosco, desde o nosso tempo de adolescência nos grupos de Jovem, na PAstoral da Juventude. Meu AMIGO Paulinho estava lá. Nosso companheiro Lula disse uma vez que as pessoas que a gente gosta nunca morrem, elas viram estrelas e brilham no céu. Ontem com certeza uma nova constelação foi descoberta pelo astronomos.Saudações Paulinho, Saudações Companheiro, você estará presente em todos os seus amigos, em todos os seus alunos e em todos aqueles que o conheceram.Claumir Bento Rufini

  14. Oziel Estevão (São Paulo – Tel. 9905-9204 – e-mail: estevao@uol.com.br)Caro companheiro Ozaí,Há muito tempo não nos falamos ou encontramos. Melhor seria que o encontro fosse fruto de uma celebração, de vida, talvez de um encontro para as lutas, como tantas vezes fizemos na militância política, mas não, desta feita é em função da triste notícia que torna presente a saudade de um amigo e companheiro comum, nosso Querido Paulo Meksenas, mas são os designíos da vida. A nós que ficamos no plano terreno cabe continuar a missão, sabendo que o Paulo fez parte de nossas vidas de uma maneira marcante e continua vivo em nossa memória, e porque não dizer, em nossas ações, pois quem conviveu com pessoas como o Paulo sempre carregará um pouco daquele senso crítico aguçado e daquela inteligência marcante que ele tinha. Obrigado a você por partilhar conosco o seu nobre sentimento de amigo e nos motivar a escrever sobre parte da nossa história de vida.forte e fraternal abraço

  15. Penso que é natural que sintamos a partida de alguém raro, e sou solidário.Acho que o manual do Paulo faz parte de minha coleção de Manuais de Sociologia.SHALONJosé Carlos Costa HashimotoPASTORAL DA FÉ E POLÍTICA DO "DIVINO"DIRETOR DE PROFISSIONALIZAÇÃO DO SINDICATO DOS SOCIÓLOGOS DO ESTADO DO PARANPA – DRT326PRCONSELHO DE SEGURANÇA COMUNITÁRIO DE PONTAL DO PARANÁp.s. Não tenho conseguido comunicar-me por outros caminhos e pergunto de de novo: É possível um espaço em Maringá para falar de Sociologia das Profissões tendo em vista a Questão da Profissionalização.

  16. Ozaí,compreendo seu estado de espirito.Sempre,as notas de falecimentos…os telefonemas de amigos comuns,procurando nos preparar para notícias que jamais gostaríamos de receber.Obrigada pelo texto,com sabor de fraternidade,de um tempo que passou e nos leva a concordar com o trovista:"Saudade,sombra,fantasma…coisa que bem não se explica.Algo de nós que alguém leva,algo de alguém que nos fica"."Ao amigo Paulo Meksenas!",homenageia e faz permanecer vivo o seu amigo,um militante a quem presto também minha homenagem.Fraternalmente,Neide

  17. Pois é, Ozaí, conheci o Paulo por meio do seu clássico livreto de Sociologia, adotado por muitos professores para seus alunos do ensino médio – capa verde e laranja, da Cortez.Que prossigamos, em nome de sua obra e vida, resistindo e trabalhando na mesma linha de luta por dias melhores, para todos!

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