Reflexão sobre a morte e a vida

A morte nos coloca diante da mais simples verdade, a única certeza absoluta que nem mesmo o cético mais obstinado pode duvidar. A dor que nos dilacera nestes momentos não cabe em palavras. Só nos resta senti-la, suportá-la e manifestá-la. O que dizer ao pai e mãe que perdem o(a) filho(a)? Como confortar o(a) filho(a) diante do falecimento do pai ou da mãe? O que falar aos que choram pela morte dos entes mais queridos?

Não é fácil. Por mais sincero que seja o que proferimos em tais circunstâncias, não é suficiente para aliviar a dor e ainda pode soar formal. Não esqueço do pai cujo filho morreu afogado: abracei-o e senti o seu corpo trêmulo. Meu abraço expressou toda a solidariedade que cabia em mim naquele momento, mas fui incapaz de pronunciar qualquer palavra. E se o dissesse, ela não expressaria mais do que o meu gesto.

A morte também é elucidativa. Ela ensina, mostra o quanto somos frágeis e explicita a efemeridade da vida. Não podemos confiar no amanhã, pois nada nos garante que estaremos vivos. No entanto, precisamos nos iludir, pois é insuportável imaginar a ausência do ser no dia que segue. Assim, nos entregamos à rotina e esta nos oferece uma espécie de segurança ontológica. Precisamos acreditar que outro dia virá, que estaremos entre os nossos e eles estarão conosco. E isto é ainda mais necessário porque não se trata apenas da vida e morte do “eu”. Não é tão difícil aceitar a própria finitude, é muito mais doloroso perder o “outro” que nos completa. Até aceitamos a invitabilidade da morte do “eu”, mas é dilacerante a experiência da partida dos que amamos.

Talvez por isso tenhamos tantas dificuldades em pensar sobre a morte. Muitas vezes este é um assunto interdito, um tabu. Já fui chamado a atenção por volta-e-meia tratar deste tema. Compreendo. Refletir sobre a morte é, entre outros aspectos, reconhecer o quanto é risível a nossa presunção. Somos natureza, mas arrogantemente almejamos a eternidade. Ao vivermos como se eternos fossemos não percebemos o tempo precioso que se esvai a cada segundo. As coisas mais simples da vida, os detalhes que nos realizam em toda a plenitude do nosso ser são, muitas vezes, relegados a plano secundário.

E assim esgotamos o tempo que temos com o superflúo, a mesquinhez e a arrogância. Será que fazemos jus ao exíguo tempo que nos é oferecido a cada dia? Muitas vezes o que parece importante não é o essencial. O poeta Horácio aconselhava: Carpe diem quam minimum credula postero (Colhe o dia, confia o mínimo no amanhã). Devemos valorizar cada segundo como se fosse o último. O amanhã é um tempo que não nos pertence, mas como viver sem olhar para o passado e sem a esperança no futuro? Se podemos sonhar e imaginar o amanhã, como restringir-se ao presente?

O escapismo pode se revelar ineficaz. Somos racionais, mas também seres de emoções e sentimentos. Como escreve Milan Kundera: “Penso, logo existo é um afirmação de um intelectual que substima as dores de dente. Sinto, logo existo é uma verdade de alcance muito mais amplo e que concerne a todo o ser vivo”.*

Ele se refere à dor física, mas também há a aflição pela perda do ser amado. Então, o “eu” dilacera-se e o sofrimento acentua dolorosamente a existência. O “eu” dilacerado deixa de ser pleno. É um “eu” partido, pois parte de mim extingui-se com o “outro” que se foi. A perda de quem amamos esfacela o “eu”. De certa forma, morremos também. Porém, permanece a possibilidade de reincorporar. A memória do “outro” vive em mim, e se o sinto presente encontro forças para suportar a dor. Não esquecê-lo é evitar a sua segunda morte.

Sofrer é próprio do humano, mesmo assim é preciso perseverar. A vida continua e nos desafia a vivê-la plenamente e merecê-la.

__________
* KUNDERA, Milan. A Imortalidade. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1990, p. 197.

6 comentários sobre “Reflexão sobre a morte e a vida

  1. Só complementando…
    quem sabe se pudessemos encarar a morte com mais naturalidade, como se fazia antigamente (Phillipe Ariès) mudariamos um pouco essa cultura ocidental e o tabu da morte. A morte encarada como parte da vida pode ser uma possibilidae de vivermos mais intensamente e amorosamente nossas vidas junto as pessoas que amamos, so assim poderemos aprender a perdoar e amar, pois a unica coisa que temos certeza é a morte. Em busca da boa morte (MENEZES, R.A.)

    • Rosangela,

      obrigado.
      Sim, é verdade. Seria bem melhor. Porém, para a maioria das pessoas é muito difícil. Evita-se até mesmo pensar sobre a morte. O ser humano, no fundo, não quer morrer, sente medo. Por isto, ele recorre às religiões e idéias como ressurreição, arrebatamento, imortalidade, etc.

      Abraços e ótima semana,

  2. Que verdade! Acredito que se a dor de perder alguem que amamos fosse um mínimo imaginavel, nao teriamos forca alguma para viver o amanha. Por isso acredito ser natural vestir uma arrogancia, de acreditar que somos eternos.Lembro de um colega de trabalho que faleceu no ano passado. Fui pela primeira vez a um enterro. Estava paralisada e nao sabia como comfortar a irma e a mae, que ele deixou. So percebi o quanto o estimava, quando estava a frente da cova e "pronta" para me despedir com uma rosa. Um sentimento tomou conta de mim que tive de chorar. Nao era dor. Inexplicavel.Bem deveriamos desfrutar cada dia com a/s pessoa/s que amamos e fazer com que ela/s saibam o quanto a amamos.Mas isso e ate quase impossivel, com as obrigacoes que temos diariamente e talvez tbem. com a pessoa que amamos. Se vivesse-mos como se nao existisse o amanha, o que seria entao?

  3. Ainda bem que nosso cotidiano não é normalmente afetado pela finitude da vida. Só assim podemos tocar em frente com uma leve sensação de eternidade. maria beatriz chini eifert

  4. Interessante. Lendo o texto me faz pensar que às vezes não damos tanto valor para as pessoas queridas, ou pelos fatos da vida como realmente deveríamos.Claro, isso vêm do pensamento da ilusão, em que sempre achamos que estaremos aqui, para sempre. Se formos pensar na realidade nua e crua, talvez devemos aproveitar mais a cada momento. E fazer as escolhas, de forma mais… sensata para com nossos corações.

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