Corrupção, moralismo e analfabetismo político

A corrupção não sai da moda. As denúncias envolvendo Congresso Nacional parecem um poço sem fundo. O Monitor de Escândalos, criado pelo jornalista Fernando Rodrigues, elenca, até o momento, 69 casos. O último é: “Sarney oculta da justiça casa de R$4 milhões”. Segundo a denúncia, o presidente do Senado omitiu da sua declaração a compra da casa onde mora, localizada na área nobre do Lago Sul de Brasília.

A quantidade de denúncias parece indicar que estamos no pior dos mundos. Contudo, é preciso precaver-se. Em política, o denuncismo não é ingênuo nem se restringe aos objetivos moralizantes. Denunciar também é uma arma política para acossar os adversários e inimigos. Não podemos agir como o otimista Pangloss, Personagem de “Candido ou o otimismo”, de Voltaire, que imaginava viver no melhor dos mundos. Mas também não é de bom alvitre aderir ao pessimismo dos moralistas, cujo padrão de reflexão desconsidera a lógica da política.

A corrupção é tão antiga quanto a humanidade e só o moralista pertinaz ou candidato à santo pode pensar que este mal seja plenamente extirpado. O moralismo individualista pode até ser intelectualizado e se pautar pelas boas intenções, mas tende ao analfabetismo político (no sentido do poema brechtiano). O moralista dissocia-se da política, enoja-se e não a aceita como uma das esferas da vida humana. Ele intenta manter-se limpo, não “sujar as mãos”. Ele desconhece a lógica da política, confunde esta com politicagem e restringe-se à esfera da política partidária, generalizando comportamentos e ideologias políticas. Ele resguarda-se, só sente-se seguro no ‘sagrado’ espaço da consciência moral individual e não percebe a inutilidade política da sua justa grita contra a falta de ética dos políticos.

O analfabeto político reduz a corrupção ao âmbito da moral e desconsidera que esta tem causas políticas, e, portanto, que o combate a ela se faz com meios e medidas políticas. A corrupção é parte da política, isto é, deve ser analisada segundo critérios da lógica política. A luta contra a corrupção é política e exige a compreensão desta.

Como sintetiza o professor de Filosofia José Antonio Martins, no livro Corrupção, há “duas maneiras de interpretar a corrupção: de um lado, por meio de uma leitura moralista, vendo nela a decadência das virtudes do indivíduo, o que gera conseqüências nefastas para a sociedade. De outro, entendendo a corrupção como algo resultante das regras do próprio mundo político, sem maiores correlações com a moralidade do indivíduo. Por essa segunda interpretação, as razões para a corrupção de uma cidade estarão ligadas à fraqueza de suas leis e de suas instituições políticas, à falta de preocupação e ação do cidadão em relação às coisas públicas”.

O locus da corrupção é o Estado. A análise das suas causas exige a reflexão eminentemente política. A visão moralista é insuficiente para diagnosticar e adotar a profilaxia necessária para combater essa doença endêmica, na medida em que enfatiza o indivíduo moral e não as instituições e a ação política. O moralismo individualista, aliado ao analfabetismo político, é incapaz de oferecer a resposta adequada ao problema da corrupção.

O essencial é a postura das instituições políticas e da sociedade no sentido de impor barreiras à corrupção. O remédio contra esta pressupõe a conscientização republicana em defesa da res publica e exige a participação política (a qual não se limita à esfera da política partidária). Requer, assim, o esforço para ir além da moral individual e superar o analfabetismo político. A leitura do livro Corrupção, de José Antonio Martins, contribui nesta direção.

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Ver “O analfabeto político” em http://www.consciencia.net/2004/mes/01/brecht-analfabeto.html. Sugiro também o vídeo, disponível em http://www.youtube.com/watch?v=2RwJemF_9tY, e o texto “Corruptos e analfabetos”, publicado na Revista Espaço Acadêmico, nº 34, março de 2004.
Sobre a discussão da relação entre ética e política ver “Ética na Política? Da sagrada ingenuidade dos céticos ao realismo maquiavélico”, publicado na Revista Espaço Acadêmico, nº 15, agosto de 2002.
MARTINS, José Antonio. Corrupção. São Paulo: Globo, 2008, pp. 23-24.

3 comentários sobre “Corrupção, moralismo e analfabetismo político

  1. Ola meu amigo!

    Quero lhe pedir um grande favor, caso possa me ajudar.
    Se puder enviar um texto ciêntifico sobre corrupção.
    Agradeço desde ja
    abraços
    Nara

  2. Dálcio disse…Questões interessantes foram levantadas, professor. Você atacou muito bem o viés moralista, apontando sua fraqueza como resposta a um problema político-social. Aliás, a resenha publicada na Revista Espaço Acadêmico mostra que o moralismo, na medida em que pende para o analfabetismo político, reforça a corrupção, ao invés de combatê-la. Em segundo lugar, considero que apontar a necessidade de se modificar as regras do mundo público e político, não implica negar a existência da reflexão ética. É preciso cuidado para não confundirmos os domínios. É essa confusão que reina desenfreadamente. As reflexões do professor Ozaí nos convidam a pensar sobre isso.

  3. Belo texto hein Ozaí!Como sempre, o professor (ainda me coloco na posição de aluno) muito bem pautado na erudição.Apesar de ter gostado do texto, eu ainda duvido de algumas premissas colocadas.Será mesmo o Estado o locus da corrupção? Este lugar não caberia à política? E,aceitando a corrupção como política, não estamos aceitando o homem como o animal político de Aristóteles? Marx em sua primeira ruptura filosófica, munido de uma dialética filtrada de Hegel, já não resolveu racionalmente este dilema (quando prevê a necessidade de existência do partido e por isso mesmo o seu pròprio fim)? Mais: Será a moral (no seu necessário desdobramento moralista, individual) inerente ao Homem?Abraços Ozaí e tudo de bom!

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