Elogio à imaginação

A imaginação humana é prodigiosa. As fantasias das crianças, o mundo que elas criam paralelo ao real, são cativantes. É incrível como nós, adultos, perdemos essa dimensão e até mesmo a capacidade de interagir com a realidade das crianças. Não obstante, não perdemos a capacidade de imaginar. Talvez este seja um dos aspectos que mais nos fazem humanos.

A literatura é um terreno fértil para a imaginação. A obra literária oferece um mundo criado pelo autor, o qual é parte da realidade mas a transcende. Mesmo um romance histórico pressupõe a capacidade imaginativa para recriar contextos e personagens. Quanto mais a obra se distancia da realidade, isto é, quando maior sua transcendência, mais admirável o exercício da imaginação humana.

“A Divina Comédia”, de Dante Alighieri, é um excelente exemplo. [1] Li esta obra há vários anos e fiquei admirado com a imaginação do autor, especialmente com o seu relato sobre o Inferno. A descrição deste lugar sobrenatural, que pelos séculos e séculos aterroriza e atormenta a mente humana, é digno de admiração – bem claro, refiro-me à construção literária. Admito que esta foi a parte da obra que mais me chamou a atenção. Talvez pela força das imagens, do simbolismo e da linguagem do autor; talvez porque seja mesmo assustador. De qualquer forma, não é por acaso que se cunhou a expressão “inferno dantesco” como referência às cenas de horror e sofrimento que desafiam da razão humana.

A imaginação humana imortalizou personagens como Frankenstein, de Mary Shelley, e Drácula, de Bram Stoker.[2] Admira-me, sobretudo, a genialidade imaginativa destes autores. A mente de Mary Shelley produziu não apenas uma das mais impressionantes histórias de todos os tempos, mas uma obra que ultrapassa o gênero literário da ficção. É também um tema filosófico e teológico sobre a relação entre criador e criatura, o moderno Prometeu e os dilemas da ciência.[3]

Frankenstein nos faz lembrar outra obra admirável da imaginação humana: o filme Blade Runner, dirigido por Ridley Scott (EUA, 1982). Com roteiro escrito por Hampton Fancher e David Peoples, Blade Runner baseia-se na novela Do Androids Dream of Electric Sheep? de Philip K. Dick. Novamente, estamos diante de um tema filosófico e teológico, e, como na obra de Shelley, a relação conflituosa e dilemática entre criador e criatura. A cena final é inesquecível.

São muitos os exemplos da prodigiosa imaginação humana no campo literário. A criatividade dos autores é genial. Talvez isto explique porque determinados livros se tornam clássicos. Na verdade, eles respondem a uma característica fundamental do ser humano: a capacidade de imaginar. O leitor exercita sua imaginação a partir do imaginário construído pelo autor. Ambos compartilham de uma viagem fantástica propiciada pela criação literária.
A obra literária corresponde à necessidade de imaginar. A leitura estimula a imaginação. Talvez esteja aí um dos aspectos que explicam o fenômeno de best-sellers como Harry Potter de J.K. Rowling e, mais recentemente, a série Crepúsculo, escrita por Stephenie Meyer, também adaptada para o cinema. É interessante como esse tipo de literatura é bem aceita pelos jovens e adolescentes, especialmente as mulheres. Romance, homens que se transformam em lobos e vampiros do bem e do mal, na trilha do personagem imortalizado por Bram Stoker, são os ingredientes desse sucesso literário.

A imaginação humana cria deuses e demônios. Desde os tempos mais remotos, nas sociedades primitiva e moderna, a mente humana alimenta-se também do mágico, do sobrenatural e fantástico. A imaginação humana é mesmo incrível. Ela é capaz até mesmo de criar Deus e imaginar-se sua criatura!

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[1] A versão eletrônica desta obra está disponível em http://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2203
[2] A obra de Mary Shelley está disponível para download gratuito em: http://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=121612 Neste site, http://www.dominiopublico.gov.br/, você também pode baixar “Drácula”, de Bram Stoker. Eis o link: http://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=3495
[3] O título original da obra é: Frankenstein; ou o moderno Prometeu. Na mitologia grega, Prometeu é foi o o titã que criou os homens e que também roubou o fogo dos deuses para presentear às suas criações.

4 comentários sobre “Elogio à imaginação

  1. Parabéns!!Eu concordo plenamente, em todo bom escritor há uma boa imaginação. J. K Rowling é a mulher mais rica do Reino Unido.Stephenie Meier enriqueceu tbm, com a literatura.Me recordei do exemplo do Kafka, que imaginação extraordinária! "Metamorfose" é a história de um homem que se transforma em um inseto gigante. Vale a pena lembrar que o pai do Kafka era extremamente alto, um gigante. Isso influenciou mto a obra dele, essa "anomalia" física de seu querido pai. O material que hoje se tem sobre estudos da vida e obra de Kafka já ultrapassa o seu próprio trabalho.um abraço, de seu aluno do noturno !

  2. Como sempre, excelente texto António. De facto a literatura é campo propício para a imaginação, assim como toda arte. É natural, ao meu ver, que essas manifestações artísticas representem exatamente as crenças, anseios, medos,… e que nelas estejam presentes, ainda em maior medida, aquilo que faz parte do obscuro e do misterioso. A transgressão dos nossos padrões de conhecimento por vezes estimula a criatividade. Como dizem, "não há limites". E entre ficção e fato, por vezes subsiste apenas uma linha tênue. Ao menos na mente de alguns…

  3. Companheiro… meu Blog foi processado pela administração municipal de Nova Londrina… acesse e se puder… divulgue!!!

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