Notas sobre a universidade

No campo universitário, dois discursos se destacam: o discurso da competência e o da defesa da universidade pública. Se a universidade é pública, em tese ela pertence à coletividade, é um bem-comum. Assim, precisamos de competência para defendê-la. Afinal, é preciso cuidar do que é nosso. E, para isso, é preciso a participação de todos. Portanto, ao contrário do que imagina o senso comum douto, os discursos não são incompatíveis – embora haja quem vista a camisa de paladino da universidade pública e negue ao outro o direito de também ser um defensor do ensino público. Com efeito, os diferentes poderes no campo acadêmico são concorrentes, mas complementares; sob certas condições, chegam mesmo a serem solidários.
Partamos do princípio da defesa do ensino público, gratuito e com qualidade. Este ponto de partida nos coloca um problema: hoje, a universidade é realmente pública? Ela pertence à coletividade e esta tem o controle sobre ela? Enquanto bem-comum ela respeita os princípios republicanos (não esqueçamos que República tem origem no latim res publica, que significa coisa pública)? A sociedade se reconhece na sua universidade?

É preciso ter claro que a linguagem expressa relações de poder. Os discursos têm maior ou menor autoridade proporcionalmente ao capital social acumulado por aqueles que os pronunciam: quanto maior a acumulação, maior o poder. Por sua vez, estes dependem da posição que o indivíduo (ou grupo) ocupa na estrutura. É uma questão de competência.

Como os discursos, a universidade pública que defendemos não é uma entidade abstrata, ou uma representação que adquire objetivação através da linguagem. A universidade se materializa no corpo docente e discente, no quadro técnico-administrativo, em sua estrutura física e em todos os mecanismos que propiciam seu funcionamento. Assim, pensar a universidade é pensar as pessoas concretas, corações e mentes que se harmonizam em determinados aspectos e se antagonizam em outros. A universidade constitui um campo, ou seja, um espaço no qual há diversos interesses em jogo e os jogadores, a partir de posições já consolidadas, lutam para conservar ou conquistar mais posições.

Na política ocorre o fenômeno da universalização, isto é, os interesses de indivíduos e de grupos se metamorfoseiam em interesses coletivos, no bem-comum. Você já viu algum candidato assumir que defende os interesses dos grandes grupos capitalistas ou dos banqueiros? Não, tudo é dissolvido na categoria genérica povo e na defesa dos bens públicos (educação, saúde, segurança, etc.). Da mesma forma, dificilmente você verá alguém que dispute o poder no campo universitário assumir publicamente a privatização da universidade.

Esta é uma questão insolúvel. Aquilo que chamamos de interesse tem sempre uma dupla face: ainda que o indivíduo ou grupo lute por seus interesses particulares (e isto é legítimo), em geral, ele os apresentará como coletivos. Mesmo o político mais descaradamente favorável aos interesses privados tem a sua máscara pública. Também no campo universitário, os interesses nunca são puramente científicos (acadêmicos) ou políticos. É melhor pensá-los como uma simbiose. Dificilmente, a ciência pela ciência, a defesa da universidade pública, o amor ao conhecimento, etc., são as únicas motivações que excitam o agente social. Portanto, é preciso, sempre, exercer o direito da dúvida e não se iludir com os discursos.

3 comentários sobre “Notas sobre a universidade

  1. Os lobos vestidos de cordeiros…são os mesmos que recebem percentuais significativos pelo uso de "sua" universidade, a marca digamos "UVA" para vender ao mercado por meio de consultorias ditas parceiras ou mesmo pelos "seus" institutos. Ora, se a universidade é pública como pode um reitor vendê-la à iniciativa privada? E, para onde está indo o dinheiro, se não temos laboratórios, salas climatizadas, enfim, condições de trabalho para os professores e seus alunos?

  2. Parece que a universidade só é pública no nome, pois tem sido apropriada pela nova classe dos intelectuais (cum grano salis), que praticam aquilo que ja foi chamado de sinecura academica.Tampouco ela é gratuita, pois seus custos são assumidos por todos, mesmo pelos pobres que não tem chances de entrar na universidade, mas pagam os impostos que subsidiam, indevidamente, os estudos de quem poderia e deveria pagar pelo terceiro ciclo. Trata-se de simples regra democratica: se a universidade não, a despeito do nome, universal, sendo reservada apenas a uma elite (muito restrita no Brasil), quem deseja aceder a seu seio deveria pagar por isso, sem onerar os mais pobres que jamais poderao desfrutar dessa benesse falsamente democratica.Quanto a supsota qualidade, creio que nao é preciso mais insistir na progressiva perda de qualidade de todas as instituicoes públicas de ensino, em todos os níveis. Que as particulares sejam ruins, ou piores, é apenas um reflexo…

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