Notas sobre a universidade (2)

Mais do que um discurso, a competência é uma prática que impregna o campus, expressa nas exigências burocráticas (e cada vez mais quantitativas). A racionalidade técnica substitui os valores, o saber dá lugar ao conhecimento institucionalizado. Arrola-se uma longa lista de publicações, de participação em órgãos internos (bancas, comissões de todos os tipos), em eventos externos e em cargos administrativos, e eis a comprovação da competência. Torna-se desnecessário questionar a qualidade das publicações, das participações, do desempenho administrativo. O que vale é a ‘folha corrida’. Como ensina Bourdieu, toda competência é uma “razão social que se legitima apresentando-se como razão puramente técnica”.

Maurício Tragtenberg deu um nome a esse processo: delinqüência acadêmica. Ele observou como no ambiente universitário se forma uma espécie de pedantocracia, cuja especialidade é produzir um conhecimento especializado a serviço do poder; denunciou a supervalorização do sistema de exames e a imposição do conformismo diante do saber professoral; a reprodução da ideologia através dos cursos críticos; a adaptação da universidade aos interesses econômicos hegemônicos; a desresponsabilização social do intelectual acadêmico, cuja ideologia é não ter nenhuma ideologia, isto é, “faz fé de apolítico” para melhor servir “à política do poder”; criticou a política de “panelas”, a publicação a qualquer custo, como o “metro para medir o sucesso universitário”; e, a supervalorização dos títulos acadêmicos.

Tragtenberg ressaltou o grau da burocratização universitária, a intensificação do taylorismo e tecnicismo acadêmicos. A produção de conhecimento deu lugar ao controle burocrático sobre o docente e o discente. Administrar assumiu a feição de, num e noutro caso, vigiar e punir – onde os fins (ensinar, pesquisar, saber) foram substituídos pelos meios (as técnicas, a necessidade de pontuar, a titulação, etc.).

Olhemos ao nosso redor. O discurso tecno-burocrático, apresentado ideologicamente sob a capa da eficiência, da quantificação dos resultados, da relação umbilical entre capital privado e pesquisa acadêmica – em nome da eficácia e necessidades administrativas, em suma, da competência –, racionalizou e solidificou tais práticas, dando-lhes uma aura de naturalidade. Em outras palavras, a delinqüência acadêmica revitalizou-se e legitimou-se por procedimentos, exigências e normas racionais burocráticas incorporadas ao modus vivendi no campus. Enquanto práxis predominante impregna todas as “boas almas” do campo universitário, tornando-se quase que impenetrável a qualquer prática e pensamento heréticos.

A filósofa Marilena Chauí também identificou os rumos que tomaria a universidade brasileira no sentido de interiorizar a exigência da competência, tornando-a praticamente um cânone. Vale a pena relembrar suas palavras:

“O discurso competente é um discurso instituído. É aquele no qual a linguagem sofre uma restrição que poderia ser assim resumida: não é qualquer um que pode dizer a qualquer outro qualquer coisa em qualquer lugar e em qualquer circunstância. O discurso competente confunde-se, pois, com a linguagem institucionalmente permitida ou autorizada, isto é, com um discurso no qual os interlocutores já foram previamente reconhecidos como tendo o direito de falar e ouvir, no qual os lugares e as circunstâncias já foram pré-determinadas para que seja permitido falar e ouvir e, enfim, no qual o conteúdo e a forma já foram autorizados segundo os cânones de sai própria competência.”

Talvez isto ajude a repensar a Universidade!

__________
BOURDIEU, Pierre. O Campo Científico. In: ORTIZ, Renato. (Org) Pierre Bourdieu: Sociologia. São Paulo, Ática, 1983, p. 123.
TRAGTENBERG, Maurício. Sobre Educação, Política e Sindicalismo. São Paulo, Cortez; Autores Associados, 1990 (Coleção teoria e práticas sociais, vol. 1 – Educação), p. 11-16.
CHAUÍ, Marilena. Cultura e democracia: o discurso competente e outras falas. São Paulo, Ed. Moderna, 1981, p.07.

3 comentários sobre “Notas sobre a universidade (2)

  1. Ozaí, foi com grande prazer que li seu texto. Pensei: não estou só. E mais… um professor da UEM falando disso que sinto e não tinha palavras, e nem tinha certeza (está acontecendo na universidade…). Ultimamente a perplexidade tem tomado conta: como tantas teorias podem ser usadas da mesma forma: manutenção do poder?! E como todos os que "tomam pra si" estas teorias "tecem lindas criticas" da escola, da prática etc, mas sob o manto da cientificidade, escondem o mau caratismo e "contribuem com o crescimento de seus lattes" em detrimento da sociedade que fingem defender.

  2. Antonio e amigos,Quando vasculhei uma parte da correspondência (quase diária!!!) entre o Paulo e eu travada por mais de 4 anos através de e-mails, que eu armazenei por achar mais importante ou curiosa, deparei-me com muita coisa interessante, mas que não pude levar ao artigo “Pensamento e Compromisso” porque senão iria “estourar” o espaço”. Bem a propósito deste seu último post, Antonio, eu havia selecionado uma, que aproveito para trazer agora. Falávamos da vida docente, da universidade, dessas coisas: aqui está um Paulo inteiro, enfezado, que “desce a lenha”. Reproduzo fielmente alguns trechos:(…) cê que está fora não tem idéia de como são os bastidores da academia: é uma luta pelo poder e pela exibição, é um querendo comer o outro pela perna (sempre por baixo do pano) para obtenção de cargos, é um querendo exibir-se mais que o outro para obter mais prestígio; quanto ao programa curricular e aos alunos, nada, não conta, são um estorvo. Cê não tem idéia do quê alguns caras inventam pra ficar o menos possível dentro das salas de aula: os projetos mais inverossímeis, as teses mais implausíveis…conheço professor que tem carga de somente 6 horas semanais de aulas em classe!!! O resto do tempo é “ocupado” em projetos e teses inúteis ou o cara é requisitado pela Chefia do Departamento ou Reitoria pra desenvolver um “programa” especial estapafúrdio que nunca será posto em prática.(…) não sei como se formaram, muito menos como se “mestraram” e se “doutoraram”: é inacreditável como escrevem mal,como lêem mal (em termos de entedimento do texto e de escolha de autores), como não sabem captar um tema necessário à sociedade, um assunto dentro do currículo que tenha a ver com os alunos.(…)Chamo-os de “docentes indecentes” (mas em segredo, senão me detonam rsrsrs)(…)E o que tem de currículo recheado de porcaria!!!! São quilométricos, só tem bosta. E o que tem de merda publicada!!! Cê não acredita. Tire da cabeça essa imagem meio idealizada que ocê tem da Universidade: lembro que é a mesma que você tinha da USP quando a frequenteva como aluno, HÁ 30 ANOS ATRÁS rsrsrsrsrs aqui dentro o papo é outro(…)(…)Na universidade pública, o programa curricular é visto como obstáculo a ser contornado por artifícios, e os alunos como obstáculo a ser evitado, um estorvo, “uma pedra no meio do caminho”, como diz o nosso CDA.(…) E depois,cinicamente, vivem tendo crisezinhas existenciais tipo “qual é a função do professor?”, “por que os alunos não se interessam pelo meu curso?”. “estarei respondendo à minha vocação?”, “qual o sentido da universidade”, etc, etc, etc – tudo conversa pra boi dormir. Não estão nem aí para os alunos e o curso, só querem ganhar o deles no mole e ter um prestígio vazio, que engana os néscios e novatos. A moda agora aqui em Floripa é fazer textos recheados de latinório, usam e abusam de expressões latinas (lembra que te mandei um apanhado delas pra você ir formando um “glossário do falso saber”? logo te mando outro lote que garimpei em alguns artigos), só pra esconder que nada sabem e dar a impressão de eruditos(…) Como separar o joio do trigo? Como avaliar os bons dos maus? Como distinguir os docentes decentes dos docentes indecentes? Qual o método adequado pra avaliar a produção de um docente?E a pergunta que não quer calar: como sanear a universidade?(…) Paulo Meksenas 21/10/2007Um abraço a você e aos amigos do blog.Eduardo.

  3. Olá Antonio, realmente concordo com vc quanto a esta burocratização em relação a avaliação das universidades. neste sentido, acredito que muito deve ser feito em relação a forma de avaliação para q esta realmente reflita a realidade vivida em nossas universidade. O meios como isto vem acontecendo em meu ver tem abrido espaço apenas para um mundo de aparencias onde muitas universidades em busca de uma boa avaliação apenas maqueiam a verdadeira realidade, desta forma, o discurso e as praticas que temos q sustentar é de uma universidade apenas para "ingles" ver. Abraços,Obrigado pela contribuição para reflexao deste processo tão "doloroso"e incoerente

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