Notas sobre a universidade (3)

Engana-se quem toma a palavra competência apenas como capacidade de. Competência também diz respeito às oposições e lutas no interior da universidade. O verbo competir, segundo o Dicionário Aurélio, significa tanto “Ser da competência; cumprir, caber”; como, “Pretender uma coisa simultaneamente com outrem; disputar, concorrer”.

Neste sentido, todos somos competentes. Aliás, competimos constantemente. Apropriar-se do discurso da competência é estrategicamente importante, dado a situação universitária. Daí a necessidade de fincar a idéia de que somos os guardiões da competência – da mesma forma que outros vendem a idéia de que são os guardiões da universidade pública. Com isto desperta-se a oposição dos pares que, a pretexto de criticar o discurso competente, são obrigados a parecerem mais competentes ou mais radicais.

Na essência, partilhamos dos mesmos princípios que norteiam a práxis delinqüente na academia. Isto porque estamos todos submetidos às regras e procedimentos que nos aparecem como racionais e impessoais, necessários para o bom andamento e o progresso da carreira e da universidade.

Isso significa que estamos submissos a exigências que não ousamos questionar, já que, por mais radicais que sejamos, delas dependem o sucesso individual e coletivo, isto é, do nosso grupo na luta pelo poder acadêmico. Estabelece-se uma relação mecânica: quanto maior o currículo maior a competência. Todos, à direita e à esquerda, afirmam sua competência perante seus pares brandindo sua folha curricular. Aceita-se a hegemonia do discurso da competência.

Parece impossível agir de forma diferente. Como não buscar a competência fundada em mecanismos de publicação e de participação interna e externa, quando se sabe que a carreira universitária do mais simples aluno ao mais renomado pesquisador e docente, depende da quantificação de tudo que ele faz na vida universitária? Tudo é contado, tudo é pontuado. Como no mercado, todas as suas atitudes são avaliadas e têm um valor quantificado em ‘x pontos’. Não importa onde você publicou, muito menos se a publicação tem importância e se terá leitores. Também não importam quais as estratégias utilizadas para publicar. Mas você deve saber que se não publicar será prejudicado.

Não importa se os organismos internos dos quais você participa reforçam ainda mais a lógica da universidade competente. Você precisa gravar seu nome nos anais e atas de reuniões burocráticas e pseudopedagógicas. O que está em jogo não é este ou aquele ponto de pauta, mas sim o poder universitário e… a sua carreira. E se você é daqueles que não tem prazer em realizar este tipo de atividade, saiba que é necessário. Se não conhecer as normas, formais e informais, do ritual burocrático, sofrerá as conseqüências.

Ainda que o poder que você exerça sirva muito mais para afagar o seu ego, fique sabendo que abdicar de disputá-lo – ou de se manter estrategicamente próximo a ele – pode significar perda de controle sobre meios e recursos que você precisará. Quem melhor souber o caminho das pedras e quem melhor souber abrir as portas certas, mais usufruirá. Sabe aquele livro que você não conseguiu publicar? Aquela verba que você não teve para o seu projeto ou para financiar sua participação num evento externo? Aquela dificuldade que você teve para fazer a pós-graduação? É, é melhor você procurar ser mais competente!

Na gana de se fazer presente na vida burocrática do campus e de disputar politicamente o poder interno, pode ocorrer que você não consiga se dedicar como gostaria às tarefas pedagógicas de ensino e pesquisa. Não se preocupe: é um preço necessário a pagar. Apenas cuide de conquistar e manter posições de poder. Você será reconhecido por isso. Mas, por via das dúvidas, seja competente no que você faz.

É claro, a universidade precisa de você. Sem a sua disposição em disputar e exercer os cargos administrativos, ocupar as centenas de comissões internas, quem o faria? As más línguas não se cansam de alardear que você faz tudo isso porque tem rendimento extra – as famosas FGs. Não se deixe abater. O altruísmo humano é uma falácia: retire-se as gratificações pelo exercício de atividades administrativas e teremos um caos. Sem você, quem nos prestará este serviço essencial, quem nos governará?

É certo, temos que defender a universidade pública. Se você não defendê-la quem a defenderá? Mas, não se iluda ou tente iludir. Saiba que a universidade pública não é um campo isolado de outros campos: temos que pensá-la de forma relacional, isto é, considerando a sociedade. Enquanto instituição social e política, sua prática e idéias são determinadas pela sociedade; mas, por outro lado, ela também influi sobre esta. Portanto, a universidade não é um paraíso onde pululam anjos sem asas e sem pecados.

A universidade, é preciso lembrar, reproduz as relações sociais da sociedade; seus conflitos internos expressam antagonismos universais e particulares vivenciados pelos agentes sociais externos ao seu campo (indivíduos, grupos e classes sociais). Isto não quer dizer que ela não tenha uma realidade específica, mas apenas que não está descolada da realidade social global.

É certo que os recursos são públicos e que a gestão não é privada – no sentido da existência de um proprietário que, a seu bel-prazer, contrata, demite, administra. Não, a universidade pública não comporta isso. Mas é preciso não confundir estatal com público: nem tudo que é estatal tem o controle da comunidade – e nem tudo que se considera controle da comunidade realmente o é. No fundo talvez a universidade seja mesmo nossa! Vamos cuidar dela? Participe! Seja competente! Seja um defensor da nossa, competente e participativa, universidade pública, gratuita e de qualidade.

E, por fim, não seja pessimista. Dialeticamente, os mesmos mecanismos que funcionam para a reprodução desta realidade acadêmica geram a sua oposição, no sentido da transformação da estrutura. Não há discurso e prática imunes à contestação.
__________
Esta série de textos é uma versão adaptada da reflexão originalmente publicada na Revista Espaço Acadêmico, nº 14, julho de 2002, sob o título “Apologia da competência e a defesa da universidade pública”, disponível em http://www.espacoacademico.com.br/014/14pol.htm

2 comentários sobre “Notas sobre a universidade (3)

  1. Caro Ozaí,Parabéns por suas reflexões, sempre pontuais; sempre repito isso a você porque é assim que percebo em seus textos.Falando de competência, acredito que deveri compor na definição dos discionários as palavras: Amor e Paixão… Sem ambos pode-se até executar tarefas com "competência" e nada mais…Lembrei disso quando você disse:"As más línguas não se cansam de alardear que você faz tudo isso porque tem rendimento extra – as famosas FGs…" Me desculpe mas muitas vezes quem precisa de serviços públicos sente isso mesmo; ou seja, que certas pessoas está alí só garantindo o seu salário, sem paixão para servir.Dia desses fui numa secretaria solicitar um serviço e a pessoa nem olhou para mim, era como se eu fosse invisível… Me senti desrespeitada e impotente. O mesmo ocorreu com uma amiga em outro setor. Ao chegar do balcão a moça disse que nao iria se levantar para pegar o documento que ela queria pois estava gripada… Minha amiga que é desprovida de "atitude", foi embora… Nao acreditei quando ela me contou… E tenho outras histórias, só para falar da UEM…E aproveito aqui para pedir que quando for a biblioteca olhe nas postas dos banheiros o simbólo com uma cadeira de rodas seguida da frase: "Wc deficiente"… Veja isso numa Universidade…Me desculpe é apenas um desabafo de alguém que não é funcionária pública mas que depende da competencia das pessoas que deveriam exercer suas funções com paixão…Nao sei se me fiz entender.Saudações,Profa. maria Newnum

  2. Professor Ozaí,Parabéns pela reflexão! É triste saber que cabe tanta coisa dentro da palavra "competência". Quem sabe um dia a gente supera essa tal competência.Abraços,Jonas

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