Antiamericanismo e maniqueísmo

Nota: Este texto foi publicado na REA, nº 6, em novembro de 2001. Desde o ato terrorista que abalou o mundo, passaram-se oito anos. . Com a ressalva de que estamos diante de outra conjuntura política, parece-me que as idéias expostas aqui permanecem atuais e a reflexão ainda se faz necessária.

Os atentados terroristas nos Estados Unidos e o ataque que este país lidera contra o Afeganistão alçaram o sentimento antiamericano pari passu ao pensamento maniqueísta. Somos constrangidos a nos posicionarmos entre o bem e o mal. Mas quem representa o bem e o mal nesta história? Acaso os Estados Unidos estão livres das acusações que imputam a Osama bin Laden e os que lhe apóiam? Os Estados Unidos não padecem do mesmo pecado que atribuem aos seus inimigos? Acaso o terrorismo de Estado não é uma prática comum dos americanos, observável em vários momentos da história? Qual o direito dos Estados Unidos invadirem um país – e não é a primeira vez – a não ser o direito ilegítimo fundado na força militar? Façamos um exercício insano: imaginemos que algum terrorista brasileiro ataca a pátria americana e o governo local não o entregue às autoridades americanas. Teria os Estados Unidos o direito de invadir o nosso país?

Coincidentemente, o 11 de setembro foi também o dia em que o governo Salvador Allende foi deposto por um golpe de militar, com o apoio direto dos Estados Unidos. Era o ano de 1973. Aliás, esta nação, cuja arrogância é própria dos impérios de todos os tempos, procurou de todas as formas evitar a posse do presidente Salvador Allende, eleito democraticamente dentro das regras da tão apregoada democracia representativa. Há 31 anos o comandante do exército chileno, René Schneider, foi assassinado em Santiago, com um tiro de revólver. O episódio teve a participação dos americanos, inclusive com o envio de metralhadoras, com numerações raspadas, entregues aos oficiais chilenos por funcionários do governo dos Estados Unidos.

Ora, temos motivos suficientes para não aceitar que os Estados Unidos expressem o bem contra o mal. A não ser que abdiquemos da capacidade de pensar de forma crítica. Em política, todo maniqueísmo é um atentado ao bom senso e à dialética. Mesmo o inferno dantesco não se enquadra em categorias fixas e estáticas: quem lê a obra de Dante observa que o inferno tem várias escalas, obedecendo a uma certa hierarquia quanto ao pecado praticado.

Na época da guerra fria também predominava o maniqueísmo. Os bons, a depender da ótica ideológica, estavam de um lado; os maus do outro. Ambos os lados oprimiam o pensar crítico. Assim a esquerda era satanizada e a direita canonizada – a depender da posição política dos contendores. Chegou-se ao absurdo da não admissão da crítica interna, sob o argumento de que isto fortalecia o inimigo. Constrangiam-nos a aceitar, de forma acrítica, regimes políticos ditatoriais, pelo simples e obtuso argumento de que expressavam o socialismo. Quem escapava a essa dualidade cega corria o risco de tornar-se maldito e ser definido como alguém que fazia o jogo do imperialismo e da direita – o oposto também é verdadeiro, basta lembrarmos da caça às bruxas que, à maneira da inquisição, caracterizava os críticos como objetivamente alinhados aos comunistas.

O passado parece oprimir nossos cérebros. Se, de um lado, os americanos exigem alinhamento incondicional, de outro, Osama bin Laden expressa a mesma exigência ao tentar caracterizar os EUA como a besta a ser combatida pelos mulçumanos. Parece claro que a maioria dos espíritos sensatos não caem nessa armadilha e não aceitam o enquadramento incondicional. Pesquisas publicadas nos jornais apontam que os Estados Unidos não tem o apoio da população brasileira, a despeito da retórica do governo FHC. Por sua vez, o Talibã e Osama bin Laden também não conseguem a unanimidade no mundo oriental: basta ver os conflitos internos nos países de maioria mulçumana.

Contudo, um fator chama a atenção: o antiamericanismo exacerbado induziu muitos a desenvolver um sentimento de alegria, implícita ou explícita, diante dos atentados terroristas em solo americano. Houve quem expressasse na grande imprensa tal contentamento. Outros, mais reservados, expõem-no nas pequenas rodas de amigos. Outros agem de forma hipócrita e mal conseguem disfarçar o que sentem. Vítimas, culpados ou inocentes? Discussões filosóficas são feitas para definir a natureza dos mortos.

Acima das retóricas entre o bem e o mal, não podemos concordar que o sentimento anti-Estados Unidos, com toda a carga crítica que lhe é adjacente, legitime a ação do terrorismo e alimente a alegria diante da tragédia que, gostemos ou não dos americanos, ceifa vidas humanas. A racionalidade exige que nos portemos com espírito crítico, sem aceitar os fundamentalismos dos espíritos transtornados – ainda que sejam de esquerda.

A guerra americana no Afeganistão é a face inversa do terrorismo praticado na América do Norte: é terrorismo de Estado. Ambos os terrorismos são execráveis. Por que se alegrar diante da demonstração desmedida e pungente da violência? Acaso a vida é menos importante que as nossas idéias e posições políticas-ideológicas?

5 comentários sobre “Antiamericanismo e maniqueísmo

  1. Ótimo texto.Uma coisa é certa, as ações terroristas do governo americano acontecem em profusão e são sempre desculpadas pelos grandes líderes mundiais.Como disse o comentário acima: (11 de setembro) Atentado terrorista ou farsa?www.blogdoargonio.blogspot.com

  2. Muito bom o texto, prof!=D Bom lembrar do "caça as bruxas"recentemente, fiquei sabendo que o hotel Beverly Wilshire se recusou a sediar um jantar para a assembléia local do Conselho de Artes, Ciências e profissões "se um comunista como o doutor Mann" fosse discursar, embora tenha sido rapidamente forçado a voltar atrás. Em uma carta a Erich Kahler, um professor polonês, ele caracterizou a atitude do governo americano com a seguinte frase. "brutal infantilidade dos EUA", e em 1952 resolveu sair dos EUA e voltou para a Suiça, para passar o resto de sua vida.

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