Educação: repetência e aprovação

mafalda-educacaoA repetência nem sempre se explica pelo fato do aluno ser relapso. Ela também ocorre por fatores que não dizem respeito apenas aos estudantes (problemas estruturais internos e externos à universidade, questões concernentes à docência, etc.). Na verdade, o sistema de avaliação não é tão exigente como parece. A rigor, a nota mínima exigida é baixa e se o aluno não consegui-la tem a chance do exame final. O estudante que saiba minimamente “empurrar com a barriga” não reprova. Qual a diferença entre um aluno aprovado nestas circunstâncias e o que foi reprovado?

Eis a questão central: a prova não prova nada. E por que não? Porque o que predomina é o ensino decoreba. Desde a mais tenra idade o aluno é estimulado a memorizar conteúdos que servem unicamente para tirar nota e passar de ano. Ele não aprende, memoriza. Sua motivação restringe-se à necessidade de ir bem na prova. Ele é treinado para passar no vestibular e chega à universidade, quando consegue, com graves deficiências em sua formação.

O sistema escolar não pressupõe a reflexão crítica sobre os conteúdos, as didáticas, a autoridade professoral e, menos ainda, o amor ao saber. O aluno chega à universidade com o pensamento fixo na nota e perde a curiosidade pelo saber; preocupa-se apenas em passar de ano e, para isto, valem todos os artifícios.

O professor também trabalha com este paradigma. Em geral, sua atitude docente restringe-se a passar o conteúdo e cobrá-lo num determinado dia. Então, o aluno deve provar que aprendeu, ou melhor, que memorizou. É justo avaliar o aluno por um momento da sua vida acadêmica? E se naquele fatídico dia, o aluno esforçado, estudioso, teve um problema pessoal que o desestabilizou emocionalmente e comprometeu o seu desempenho? E se simplesmente deu um branco?

O aluno chega à universidade e se depara com um sistema que prioriza a nota e não o aprendizado. Há uma overdose de disciplinas e conteúdos. Ele fica perdido em meio a tantas exigências, textos, livros para ler, etc. Ele descobre estratégias de sobrevivência, que pressupõe até mesmo a cola, os trabalhos encomendados, a reprodução de conteúdos, etc. O que importa é o canudo.

Ninguém pergunta se tal ou qual disciplina lhe interessa, o que é mais importante para a sua formação, etc. Tudo lhe é imposto: disciplinas, conteúdos, formas de avaliação. Não seria melhor acreditar na sua capacidade de discernir, valorizá-lo como agente do aprendizado – e não restringi-lo a objeto cuja função é reproduzir o saber do professor – e motivá-lo a aprender a ser livre e responsável?

O sistema de ensino fortalece o poder do professor. Este, ao confundir autoridade com autoritarismo, desempenha o papel de um pequeno déspota em sala de aula. O aluno estuda pela nota e o professor força-o a tal para impor-se, imaginando discipliná-lo. Há até os que se vangloriam por reprovarem a maioria.

Os alunos, por seu turno, tendem a não levar a sério o professor que não adota tais procedimentos. Esse é baba, imaginam! Eles até gostam do professor, mas como o estudo se restringe a tirar a nota, e se é fácil consegui-la, por que se preocupar com o aprender? É claro que, tanto em relação aos docentes quanto aos discentes, há as exceções. Mas, como se diz, a exceção confirma a regra.

Neste sistema, o prêmio da nota é uma ilusão. Ele pode ter estudado apenas para a prova. E daí? Isto significa que aprendeu? Que influencia terá isto na sua vida ulterior? O aprender exige esforço, dedicação e, sobretudo, interesse. Nenhum professor, por melhor que seja, poderá ensinar se o aluno não desejar aprender. Aliás, para isso é preciso que o ele se despoje do poder de vigiar e punir e adote a atitude do educador que se educa ao educar.

6 comentários sobre “Educação: repetência e aprovação

  1. Só ensina quem aprende e só aprende quem ensina!
    O educador que educa se educa, aprender sempre!
    Gosteiiiiiiiiiiiii

  2. Parabens pelo texto, fantastico.
    profundo…nosso sistema educacional necessita de uma profunda reflexão, em todos os sentidos…
    mas, mais que o sistema, acho que o conceito de educação, o significado de aprender, educar precisa de uma reflexão, a exencia do conhecimento esta se perdendo, nao sei se o termo, perdendo e o correto, mas essa coisa de se ter tudo muito facil hoje em relação a conhecimento, agredito que esteja criando nas pessoas um certo relachamento. E o que o sistema mais que é isso, pessoal com um nivel de educação suficiente para determinadas funções….
    mas a educação e nossa arma que temos pra muda isso tudo

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  4. O medo que o aluno tem em se posicionar perante o professor quando aquele não concorda com o método,forma ou explicação das suas aulas.Para mim toda a relação ALUNO/PROFESSOR se baseia neste medo.Não temos alunos confiantes perante o desafio que é estar na sala de aula.Eu acredito particularmente que precisamos aprender a ouvir mais nossos alunos,seus questionamentos, desejos,anseios,em fim,construir juntos o modelo de aprendizagem apartir das suas necessidades.O nosso aluno não pertence no tempo que esta escola foi produzida.Professor/Aluno não se encontram na mesma realidade.

  5. Muito bom seu diagnóstico, mas frente a essa realidade, o que se pode fazer? Pode o professor como indivíduo e profissional, msmo que seja muito bom transformar essa situação? Quais seriam suas atitudes fundamentais para enfrentar esse sistema?

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