Escola: educar para quê?

educacaoEscola e educação são sinônimos? A escola educa para quê? O termo “escola” tem origem no grego “scholé”, que significa “ócio”, “tempo livre”, mas também “estudo”, “aula”. O tempo de estudo é, portanto, o tempo do ócio. Atividade dos que não precisam ocupar-se com o trabalho manual. A propósito, na Grécia antiga a atividade laboral está vinculada à escravidão e, assim, concebida negativamente.

Contudo, é preciso compreender melhor o uso do termo pelos gregos. Segundo Hélio Schwartsman: “Tanto para os gregos como mais tarde para os latinos, o ócio é o valor positivo. Não deve ser entendido como uma inatividade embora possa também sê-lo, mas sim como o tempo que alguém gasta em seu próprio interesse. Não é surpreendente, portanto, que “scholé” esteja na raiz da palavra “escola”.”[1] Na sociedade moderna, a escola é uma imposição às novas gerações. Historicamente, ela vinculou-se ao mundo do trabalho e massificou-se.

A escola educa, mas não apenas ela. O sistema escolar é um dos mecanismos que as sociedades modernas criaram para socializar determinados conteúdos e valores. Este sistema é composto por uma rede de instituições de ensino, um corpo de especialistas e sua estrutura de sustentação. Ele é “o único habilitado a transmitir esse corpo hierarquizado de saberes que constitui a cultura legítima e a consagrar, pelo exame dos títulos, o acesso a um nível determinado de iniciação”.[2] Sua função é legitimar determinados saberes, aceitos pelo campo educacional e a sociedade, que constituem a cultura escolar formal.

A sociedade é dinâmica e seu ritmo de desenvolvimento nem sempre é acompanhado pela escola. A defasagem entre as demandas da realidade social e os modos, técnicas e valores do ensino, produzem uma tensão questionadora da instituição escolar. Esta se vê pressionada a responder a questões como: qual o tipo de saber necessário às novas gerações? Quais aptidões, habilidades, disposições e valores deve enfatizar? Qual o currículo mais adequado? Como incorporar as novas tecnologias? Quais as técnicas e didáticas mais apropriadas para trabalhar com uma geração cujo perfil modifica-se constantemente?

O sistema escolar encontra dificuldades em responder positivamente aos desafios deste século. Ele se mantém prisioneiro dos métodos e técnicas e modos de ser ultrapassados pela realidade social. A escola, vale afirmar, está em crise. No limite, o sistema escolar restringe-se à função de “expedidor de títulos, criador de hierarquias e selecionador da força de trabalho”.[3]

Dessa forma, produziram-se deformações na própria idéia do que seja educação, ou seja, sua função primordialmente socializadora, a qual não se restringe ao mundo do trabalho, à preparação profissional. “O valor dos conhecimentos passa para segundo plano, enquanto em si mesmos em primeiro plano aparece seu valor simbólico, seu valor de troca no mercado”, nota Subirats.[4]

Estes processos indicam a necessidade de diferenciar escola e educação. É claro que o sistema escolar promove a educação, num determinado sentido e atendendo a objetivos específicos. Trata-se, porém, de um ensino especializado, formalizado, burocratizado, cuja ênfase é dada pela adoção de currículos padrões, pelo modelo disciplinar e disciplinador e sistemas de avaliação que reforçam um determinado tipo de ensino mais próximo do adestramento.

A educação, em seu sentido amplo, é muito mais do que adestrar; é mais do que ensino escolar e ultrapassa os muros da escola. A educação não se limita à escola. E da mesma forma que a sociedade se transforma, a partir da ação e opções dos agentes que fazem a história, também pode transformar as instituições como a escola.


[1] Hélio Schwartsman. “Os acadêmicos”. Folha Online, 08.05.2003, disponível em http://www1.folha.uol.com.br/folha/pensata/helioschwartsman/ult510u355992.shtml, acesso em 19.10.2009.

[2] Bourdieu, in ORTIZ, Renato (org.). Pierre Bourdieu: Sociologia: São Paulo: Ática, 1983, p.114.

[3] Marina Subirats. A educação do século XXI; a urgência de uma educação moral. In: IMBERNÓN, Francisco. A educação no século XXI: os desafios do futuro imediato. Porto Alegre: Artes Médicas Sul, 2000, p. 197.

[4] Idem, p.198.

8 comentários sobre “Escola: educar para quê?

  1. Hoje tirei para navegar no seu blog! Este post complementou as ideias para o projeto de minha dissertação.Uau! Compartilhar saberes é tdo! Amei o vídeo tbem.
    Até breve, vou à luta.

  2. Estive lendo em Patrick Finn, Literacy with an Attitude, que as primeiras escolas para crianças na Inglaterra foram criadas como contraponto às Sociedades de Corrêspondência, que discutiam panfletos lbertários, como o de Tom Payne, The Rights of Man.
    Quem leu A Formação da Classe Operária Inglesa, de E. P. Thompson, sabe o valor inestimável deste livro e destas sociedades que ele descreve tão bem.
    Patrick Finn, no livro acima mencionado, menciona a existência de quatro tipos diferentes de escola nos Estados Unidos. (Estou falando de primeiro grau.)
    1. A escola para a Elite Executiva, os 1% mais poderosos
    2. A escola para o Profissional Afluente, os 10% mais ricos.
    3. A escola para a Classe Média.
    4. A escola para a Classe Trabalhadora.
    Cada escola tem o seu modo próprio de trabalhar e seus tipos diferentes de professores.
    1 A escola para a Elite Executiva procura compreender e controlar. A Matemática é o modelo para o pensamento ético e correto. Eles estudam até mesmo os efeitos do imperialismo, mas o status quo não é questionado. É impressionante a liberdade que é dada a estas crianças de planejarem as aulas, apresentarem aulas e controlare a classe!
    2. A escola para o Profissional Afluente busca a criatividade e o desenvolvimento pessoal, a independência de pensamento, descoberta e experiência. A luta de classes é discutida! As crianças editam textos sobre as questões mundiais, inflação, greves, poder nuclear. O que é produzido são histórias, projetos, gráficos. É enfatizada a conexão entre o que é ensinado na escola e o que acontece na vida real. Estes serão os futuros profissionais criativos na diversas áres onde há exigência dos mesmos.
    3. A escola de Classe Média busca ensinar o que está escrito nos livros. Os fatos são isolados.
    4. A escola para a Classe Trabalhadora apresenta fatos isolados, sem explicar as conexões com as vidas dos estudantes. Há poucas escolhas que os estudantes podem fazer. A cópia é muito importante e pouca dissussão dos temas relevantes.

    Então, há alguns tipos de escolas que estão incrivelmente adaptados aos novos padrões sociais. Seria longo demais descrever o tipo de professor e de aluno destas escolas 1 e 2, mas acho que consegui dar uma idéia. é incrível a liberdade que eles têm de escolher, planejar o que vão fazer. O professor é extremamente respeitador e “negociador”.

    Recomendo que alguma editora brasileira edite este livro, que aliás se inspira muito em Paulo Freire.

    Um abraço, professor Ozaí!
    Tancredo Braga

  3. Sim, sim, eu já sabia dessa raiz grega da palavra, mas vá explicá-la a este mundo utilitarista-capitalista- burocrata-enfadonho-automatizado-enfadonho, impossível, simplesmente, tão arraigada está trabalha trabalha trabalha feito robô que não pensa…
    É a primeira que vejo alguém divulgá-la abertamente, parabéns!

  4. Parabéns Ozaí pela essência e beleza de seu blog!Obrigada por suas contribuições à Educação brasileira. Com carinho, Aline Carla.

    • Compreendo o seu esforço. Sabe até admiro muito. As vezes me questiono, quanto de tempo tem sido gasto na elaboração analítica de tantos textos! O seu blog acolhe excelentes conteúdos. Aproveito para agradecer a grandeza de seu notável desprendimento, quando da remessa de agradabilíssimas leituras para o meu desleixado e-mail.
      Os seres alimantam-se basicamente, de energia e zelo. Assim desejo a você renovadas energias para distribuí-las às criaturas e cada vez mais zelos com as COISAS que voce comenta. Desta forma, parabenizo-lhe pela matéria “escola e edução”. Tá do meu jeito.

Comente!

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s