Sobre muros reais e simbólicos

Veja as imagens sobre o Muro de Berlim. Observe-as bem, leia com atenção as legendas.

Pensando bem, não é um imenso absurdo os muros fictícios e reais que interpomos em nossas relações? São muros de concreto, cercas de arames, barreiras formadas por humanos armados e artefatos tecnológicos. Francisco de Goya (1746-1828) afirmou que “O sonho da razão produz monstros”. Ele viveu o suficiente para ver a “razão” personificada nos soldados franceses e suas baionetas, sob o domínio de Napoleão.[1] Os horrores da guerra, em nome de valores universais como a Liberdade, foram registrados em sua obra.[2] Se tivesse vivido o século XX, teria testemunhado o terror de Estado protagonizado por governantes do tipo Stalin e o horror nazista na Alemanha. Teria, ainda, presenciado duas guerras mundiais, a “guerra fria” e a construção do Muro de Berlim. Quem sabe teria pintado outro quadro com estas palavras: “A razão em ação também produz monstros”.

O século XX marca a crise da razão iluminista. A idéia de progresso, que acalentou o sonho da liberdade e desenvolvimento humano numa perspectiva ascendente, caiu por terra. O iluminismo, como sugere a expressão, almejava libertar os indivíduos das trevas, das superstições e preconceitos religiosos. A fé cega e intolerante deveria ser substituída pela razão. E a crença na potencialidade desta foi tão forte que influenciou os espíritos mais iluminados da época, inclusive os que criariam ideologias políticas como o marxismo e o anarquismo.

E foi sob a inspiração da ideologia marxista que se realizou a primeira revolução proletária de vulto: a Revolução Russa. A razão, instrumentalizada pelo partido de vanguarda, parecia dar início a uma nova era, à aurora da sociedade humana fundada em princípios solidários e igualitários. O que se seguiu foi a instituição da ditadura do partido e, depois, do “guia genial dos povos”. A revolução tornou-se o seu oposto. Nascia, assim, aquilo que conhecemos como “socialismo realmente existente”. Paradoxalmente, muitos dos países que viriam a orbitar em torno da “Meca do socialismo”, a URSS, se autoproclamaram “democracias populares”.

O Muro de Berlim foi um dos resultados mais visíveis desse processo histórico. Hoje, é patente o disparate representado pela sua construção. Quantas vidas humanas foram ceifadas pelo simples desejo de ultrapassá-lo? Quanto sofrimento causou? No entanto, é sintomático que encontre defensores entre os próprios alemães submetidos à separação forçada e mantida por ideologias em conflito. De novo, a vítima é a razão: as ideologias temporais intentarem superar a irracionalidade fundada em sentimentos e valores religiosos, mas, à sua maneira, subverteram a razão, tornaram-se irracionais e assumiram o caráter de uma espécie de religião profana. Só assim é possível compreender a cegueira que obscureceu a lucidez dos cidadãos, os quais, passiva ou ativamente, legitimaram regimes políticos autoritários e atos como a construção do Muro de Berlim. Certo, há o medo, o poder policial, o terror de Estado tão bem descrito em obras literárias como “1984” (George Orwell). Mas não devemos desconsiderar o poder de convencimento das ideologias seculares e mesmo a tendência à servidão voluntária.

A construção de muros parece ser uma exigência ditada pela necessidade humana de se sentir seguro. Talvez isto explique porque, 20 anos após a derrubada do muro de Berlim, haja tantos muros, físicos e simbólicos, a nos separar. O processo de segregação continua, o apartheid social ergue-se como um gigantesco muro a dividir povos e nações e o nacionalismo xenófobo oferece a sua contribuição. Ainda há muitos muros a derrubar!

__________
[1] Ver o filme “Sombras de Goya”, Espanha, 2006. Direção: Milos Forman.
[2] Esta experiência inspirou Goya a produzir as obras O 3 de Maio e A Carga dos Mamelucos, e também, a série de gravuras Os Desastres da Guerra.

4 comentários sobre “Sobre muros reais e simbólicos

  1. Em Belo Horizonte foi decretado que a Praça Rui Barbosa, conhecida como Praça da da Estação, não pode mais ser utilizada para quaisquer eventos. Aí se inclui as manifestações do povo, ainda que pequenas. Em resposta às cartas, a Assessoria de Comunicação informou que é temporário. Só não sei o tamanho deste “temporário”. Lembrei-me dos versos de Castro Alves.Que não se esqueçam!

    Em tempo: O seu espaço é muito bom, Ozaí!
    Modesta Trindade Theodoro
    Blogdamodesta.zip.net

    O POVO AO PODER

    Castro Alves

    Quando nas praças s’eleva
    Do Povo a sublime voz…
    Um raio ilumina a treva
    O Cristo assombra o algoz…

    Que o gigante da calçada
    De pé sobre a barrica
    Desgrenhado, enorme, nu
    Em Roma é catão ou Mário,

    É Jesus sobre o Cálvario,
    É Garibaldi ou Kosshut.

    A praça! A praça é do povo
    Como o céu é do condor
    É o antro onde a liberdade
    Cria águias em seu calor!

    Senhor!… pois quereis a praça?
    Desgraçada a populaça
    Só tem a rua seu…
    Ninguém vos rouba os castelos

    Tendes palácios tão belos…
    Deixai a terra ao Anteu.

    Na tortura, na fogueira…
    Nas tocas da inquisição
    Chiava o ferro na carne
    Porém gritava a aflição.
    Pois bem…nest’hora poluta

    Nós bebemos a cicuta
    Sufocados no estertor;
    Deixai-nos soltar um grito
    Que topando no infinito

    Talvez desperte o Senhor.

    A palavra! Vós roubais-la
    Aos lábios da multidão
    Dizeis, senhores, à lava
    Que não rompa do vulcão.
    Mas qu’infâmia! Ai, velha Roma,
    Ai cidade de Vendoma,
    Ai mundos de cem heróis,
    Dizei, cidades de pedra,
    Onde a liberdade medra
    Do porvir aos arrebóis.

    Dizei, quando a voz dos Gracos
    Tapou a destra da lei?
    Onde a toga tribunícia
    Foi calcada aos pés do rei?
    Fala, soberba Inglaterra,
    Do sul ao teu pobre irmão;
    Dos teus tribunos que é feito?
    Tu guarda-os no largo peito
    Não no lodo da prisão.
    No entanto em sombras tremendas
    Descansa extinta a nação
    Fria e treda como o morto.
    E vós, que sentis-lhes os pulso
    Apenas tremer convulso
    Nas extremas contorções…
    Não deixais que o filho louco
    Grite “oh! Mãe, descansa um pouco
    Sobre os nossos corações”.

    Mas embalde… Que o direito
    Não é pasto de punhal.
    Nem a patas de cavalos
    Se faz um crime legal…
    Ah! Não há muitos setembros,
    Da plebe doem os membros
    No chicote do poder,
    E o momento é malfadado
    Quando o povo ensangüentado
    Diz: já não posso sofrer.

    Pois bem! Nós que caminhamos
    Do futuro para a luz,
    Nós que o Calvário escalamos
    Levando nos ombros a cruz,
    Que do presente no escuro
    Só temos fé no futuro,
    Como alvorada do bem,
    Como Laocoonte esmagado
    Morreremos coroado
    Erguendo os olhos além.

    Irmão da terra da América,
    Filhos do solo da cruz,
    Erguei as frontes altivas,
    Bebei torrentes de luz…
    Ai! Soberba populaça,
    Dos nossos velhos Catões,
    Lançai um protesto, ó povo,
    Protesto que o mundo novo
    Manda aos tronos e às nações.

    Ano:1864

    • Cara,

      meu sincero muito obrigado.
      Vc abrilhantou este espaço ao resgatar e disponibilizar o poema de Castro Alves.
      Também estou aberto às críticas, sugestões e contribuições.

      Abraços e tudo de bom,

  2. Para pesquisa, de fato, é muito bom esse filme "As sombras de Goya", Antonio. Você faz uma referência interessante sobre a ratio, esse importante ponto referencial humano. Sem dúvida não é pelo bom senso, e sim pelo instinto de autopreservação que as sociedades constroem estas barreiras, como bem colocado no título do post “reais e simbólicas”. Minorias e grupos com pouco poder de defesa acabaram por optar pela construção de “muros” de proteção, isso na antiguidade e ainda hoje. Por certo era até uma tentativa de pacificação e de preservação dos seus próprios costumes. Pois como sabemos, poucos foram os invasores democráticos. Existem muitas barreiras segregatórias entre os povos, sim: a língua, as fronteiras territoriais entre países, o mar, o dinheiro (ou a falta dele), a religião… E em outros termos ainda podemos citar: o medo e a maldade, a moda, a música, a mídia, os shoppings, as profissões, enfim… Todas essas coisas unem alguns indivíduos em grupos e separam um grupo dos demais.Para deixar de haver muros, é preciso mudar o comportamento humano e para isso, tem-se de mudar o pensamento. O problema maior, a meu ver, está na discriminação. Pois diferenças existem, elas fazem parte da construção do caráter individual e da sociedade humana, então, conviver com as diferenças com respeito faz boa parte do trabalho contra a discriminação.Sdç

  3. Dura, essa nossa realidade, o pior é saber que alguns setores dos "aparelhos hegemonicos" só contribuem para aumentar o "muro existente" entre as pessoas para vender algum serviço de segurança, e o pior que as pessoas acreditam, e perdem cada vez mais aquilo que as fazem ser humanas, degenerando ainda mais o que resta da sociedade atual.

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