Lições da aula

Em entrevista à revista EntreLivros, o escritor José Saramago afirmou: “Continuo sendo um camponês”.[1] Prêmio Nobel de Literatura, Saramago trabalhou como mecânico, funcionário público e publicou Memorial do Convento aos 60 anos. Tornou-se mundialmente famoso, mas não abandonou suas raízes. Pelo contrário, reafirma-as em As pequenas memórias, aos 84 anos de idade.

As nossas raízes são o substrato da nossa identidade. O que sou hoje tem muito a ver com a minha infância, adolescência e a idade adulta antes de torna-me professor. Trago em mim as marcas do que fui. Admitir isto é reconhecer a importância do passado em nossa formação. Por isso, parafraseando José Saramago, afirmo: “Continuo sendo operário”. A vida me fez professor universitário, com mestrado e doutorado. Foram as circunstâncias que me levaram a isto. Não estava inscrito em meu código genético e nem as minhas origens sociais indicavam este desenlace. Às vezes me pego surpreso diante do que vivo e sinto-me como um estrangeiro, um outsider.

Antes de pensar em fazer faculdade, fui autodidata e militante político. Na prática, atuava como dirigente sindical e participei de negociações com empresários e seus representantes. As empresas mais organizadas incluíam advogados nas mesas de negociação. Como representante dos trabalhadores tinha o apoio do jurídico do sindicato e, quando necessário, éramos acompanhados por um advogado. Nunca imaginei, porém, que viria a dar aulas no curso de Direito, isto é, a ser um dos responsáveis pela formação dos futuros operadores jurídicos.

Lembrei-me disto outro dia ao encontrar um ex-aluno. Ele disse que trabalha como advogado numa empresa. Compreendo que nem sempre podemos escolher nossos patrões. Entendo também a necessidade de firmar-se profissionalmente. Fiquei contente em saber que ele está empregado e que têm possibilidades de ascensão. Confesso, porém, que senti um certo desapontamento. Preferia que ele estivesse do outro lado. Mas assim é a vida de professor: formar os que contribuem para a reprodução do status quo.

Recordei-me de Maurício Tragtenberg, saudoso professor, amigo e orientador. Ele escreveu que a universidade gera “aqueles que deformam os dados econômicos em detrimento dos assalariados; nas suas escolas de Direito, forma os aplicadores de legislação de exceção; nas escolas de medicina, aqueles que irão convertê-la numa medicina do capital ou utilizá-la repressivamente contra os deserdados do sistema. Em suma, trata-se de um “complô de belas almas” recheadas de títulos acadêmicos, de doutorismo substituindo o bacharelismo, de uma nova pedantocracia, da produção de um saber a serviço do poder, seja ele de que espécie for”.[2] E, no entanto, ele dava aula num dos centros de formação da elite: a Fundação Getúlio Vargas (SP); e também na Unicamp e PUC/SP. Ele acreditava na contradição, isto é, que o mesmo espaço que forma os que conservam a ordem social também pode ser o locus da formação dos questionadores desta.

Perdoe-me, caro leitor, por esta digressão autobiográfica, mas sou a síntese do que fui e as minhas raízes influenciam a práxis docente presente. Isto determina a minha maneira de conceber a vida, a sociedade, a universidade e o Direito. Sou um cético em permanente rota de colisão com as opiniões predominantemente aceitas. Há, assim, o risco de que uma frase mal pensada, ou a depender do tom, gere mal-entendido e até magoe – ainda que não seja a minha intenção. O educador, portanto, também precisa ser educado, necessita aprender com o educando. São as lições da aula! Elas me fazem perceber as contradições e equívocos. Por isso, sou grato, entre outros, às minhas alunas Ariane e Carolina.

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[1] LÓPEZ, Oscar. “Continuo a ser um camponês”. EntreLivros, Ano 2, nº 23, março de 2007, p.32-35
[2] TRAGTENBERG, Maurício. Sobre Educação, Política e Sindicalismo. São Paulo: Editores Associados; Cortez, 1990, 2ª ed., p.11. (Coleção Teoria e Práticas Sociais, vol 1).

4 comentários sobre “Lições da aula

  1. Gostei do relato meu caro…Estou me encaminha do academicamente também, e percebo isso a minha volta o tempo todo, às vezes causa um certo mal estar, porém temos que tomar decisões e seguir em frente…Como tenho a ambição de seguir em frente com minha recente carreira de pesquisador, não há outro caminho, a não ser por esse, pelo menos é assim que exergo.Também tive uma formação mais popular, porém não cheguei a trabalhar como operário, entre na faculdade bem novo, e me apaixonei pelo meu curso, e pretendo continuar carreira…Mas pela minha formação social as vezes fica um pesar, será que terei condições de contribuir socialmente trabalhando nessa área, como? É uma dúvida latente…Porém temos que continuar e achar esse caminho…Abraço.

  2. Ótimo texto professor, principalmente esse trecho: "Mas assim é a vida de professor: formar os que contribuem para a reprodução do status quo."É uma dura realidade essa do ensino superior de ser uma instituição tão retrógrada e responsável por manter e defender as coisas como elas são, refutando toda e qualquer modernidade em função da reprodução do pensamento alienado voltado para a formação de mão de obra que se diz qualificada, uma pena…

  3. É meu caro colega, entrando na academia temos esse caminho… mestrado,doutorado(estou na rota do meu)e pós-doutorado…também me inquieta muito essa contradição do capital…nos leva a servi-lo (trabalho numa faculdade de elite e numa universidade pública)mas, o que me preocupa é saber por meio do (inaf)que 74% da população brasileira não comprende um texto simples…isso é muito triste. Precisamos fazer alguma coisa, todos nós do Oiapoque ao Chuí. Essa situação é vergonhosa. As pessoas "passam" nos cursos superiores e só lhes restam o subemprego ou o desemprego?!Que país é esse?

  4. É sempre bom ouvi-lo, Ozaí. É bom também aprender com você, com suas experiências, nos tantos cenários que a vida te proporcionou e os tantos embates surgidos nesses contextos díspares.Estes tempos nossos/novos – acelerados e deslocados-em-face-do-que-vivíamos-antes – nos lança em muitos cenários simultaneamente, causando-nos um certo atordoamento, pois como se não bastassem as múltiplas formas de estar-no-mundo-hoje, ainda temos como contraponto as experiências anteriores.Você não está a sós em meio às turbulências que causam estranheza e, por vezes, repulsa.Se tomarmos tudo como desafio e estímulo, como você tem feito, seguiremos mais leves…Abraços

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