O vestibular

Um dos efeitos perversos do vestibular diz respeito aos dilemas vividos pela escola pública entre a intenção de formar cidadãos e preparar os alunos para este exame. Cindida por essa dupla exigência, insiste em priorizar o método decoreba, ainda predominante nos vestibulares. Os conteúdos precisam ser memorizados e a forma de verificação, a prova, também é, invariavelmente, utilizada como instrumento do poder disciplinador. Eis outro engodo: a memorização de conteúdos não garante a aprendizagem dos mesmos. Em geral, o aluno memoriza para tirar a nota e passar de ano.

A idéia de que o vestibular é democrático é mais um engodo. Igualdade de oportunidades não é o mesmo que igualdade real de condições. Como, em geral, o aluno da escola pública se encontra em situação desvantajosa, por sua condição social e pela realidade de sucateamento da educação, é ilusório imaginar que ele concorrerá nas mesmas condições que o aluno com maior capital cultural e social. É certo que algumas escolas públicas, em geral melhor situadas territorialmente, desmentem o mito de que a eficácia educacional só é possível na escola privada. Mas, sejam instituições ou indivíduos, as exceções confirmam a regra.

A lógica do vestibular, assumida por pais, professores e alunos, camufla o fato de que somos socialmente desiguais, que determinados grupos sociais tem acesso à cultura e à educação para além do sistema de ensino, o qual reproduz e legitima as desigualdades: vitoriosos e fracassados são analisados por pretensos dons e méritos individuais. Para uns o sucesso parece natural (o próprio fato de terem sido vitoriosos o comprovaria); a vitória de uns naturaliza o fracasso da maioria. É preciso observar que a seleção é também anterior ao vestibular.

Ensino privado, cursinhos preparatórios pagos, etc., tudo nos parece muito natural: uns podem pagar a mercadoria educação, outros não. Paciência! O mercado oferece as opções para prepararmos nossos filhos para vencer e temos a liberdade – e o dever, pensam muitos! – de fazer a escolha certa; ainda que essa tenha um alto custo econômico e ainda que necessitemos nos render à agiotagem oficial ou nos submeter a uma excessiva carga de trabalho para manter a renda familiar. Mas mesmo o ingresso no ensino superior pode se revelar uma grande ilusão devido ao processo de desvalorização e inutilidade dos diplomas. Bem, restará a sensação do dever cumprido e da consciência tranqüila.

Será utopismo imaginar a possibilidade de ensino superior publico e gratuito para todos sem a necessidade de processo seletivo para o ingresso na universidade? Ainda que seja utópico por que não pensar em outras alternativas que substituam o vestibular e fortaleçam a escola pública e não se restrinjam apenas a um momento da vida estudantil? Por que não adotar sistema de cotas para negros e para os estudantes oriundos de escolas públicas? Aliás, algumas universidades já o fazem. Não seria o caso de ampliar as vagas no ensino superior público? De investir mais na qualificação profissional e na estrutura educacional?

Contudo, o vestibular predomina. Esse mecanismo vicia e submete todo o sistema de ensino: do fundamental ao ensino médio torna-se o centro das preocupações e tudo é feito em sua função. Até mesmo o fato de o vestibular ter se transformado em fonte de receita para as universidades públicas (algumas chegam a fazer dois vestibulares anuais), também é encarado naturalmente. Quem ganha com o vestibular? A resposta parece óbvia e a pergunta redundante. Mas, confessemos, não nos fazemos essa pergunta nem questionamos a resposta. Em suma, há muitos interesses econômicos e políticos em jogo, daí a necessidade de mantê-lo.

4 comentários sobre “O vestibular

  1. Muito bom o texto. A reflexão sobre o vestibular é fundamental. E a questão de existir um ensino superior realmente público e acessível a todos não é utopia. Temos que estudar o sistema uruguaio, argentino e venezuelano. No Uruguai todos e todas tem acesso a Universidade.Por outro lado, a questão de tudo correr em torno do vestibular desde o ensino fundamental, também é preocupante. Tudo que cai no vestibular vale a pena "estudar" (ou decorar!); as reflexões mais amplas, que não caem, não merecem estar nas péssimas apostilas dos estudantes… Parabéns pelo blog!

  2. Professor Ozaí:Achei de grande relevância o texto sobre o vestibular. O problema da educação é grave e, cada vez mais, ele aumenta apesar das discussões sobre o assunto. Concordo que o vestibular, maneira de selecionar pessoas para o ingresso à universidade, pricipalmente, a pública, pois, na maioria, a privada seleciona pela ficha socioeconômica, é um engodo. É um engodo pelos vários motivos citados pelo senhor, mas o atual contexto educacional me preocupa muito. Sou professora do ensino fundamental e médio e o que vivo é assustador. Em primeiro lugar, os alunos/as, na maioria, assimilaram a cultura, principalmente, televisiva que divulga direitos ou qualquer outro assunto sem contextualização ou sem nenhuma reflexão, como divulga também a possibilidade do "paraíso" sem nenhum esforço. Somando à cultura citada, existe a pedagogia do amor que só ajuda a mascarar os reais problemas sociais e culturais que impedem o amadurecimento educacional do educando. A pedagogia do amor é, a meu ver, um dos maiores engodos da educação atual. Ela trouxe para encontros pedagógicos os textos de auto-ajuda, as dinâmicas que nada acrescentam no processo educacional. O Pior: todos os problemas de desigualdade apresentam-se como naturais e, nesse contexto, o professor sai de cena e "entra" o assistente social, psicóligo, o pai, a mãe, o governo. Sabemos que é impossível alguém assumir todas essas funções como também não é função do professor assumir nenhuma dessas funções. A função do professor é, principalmente, formar o/a aluno/a um ser pensante e autônimo. Infelizmente, o que se ver, na maioria, é esse profissional procurando métodos que sirvam para controlar uma turma. A preocupação não é com uma metodologia de ensino que permita o educando a pensar sobre o assunto e o torne sujeito do processo. Nesses últimos dias, pensei: ninguém entra em um hospital gritando ou batendo etc.Por que na escola o educando entra gritando, batendo…? Por que não se respeita mais o ambiente escolar? Por que o educando da escola pública acredita que é direito da escola lhe dar o diploma, mesmo sem ele estudar? A meu ver, ele é uma vítima e, cada vez mais, aumenta o fosso entre dois pólos: os que chegam à universidade pública e os que não chegam. Outro assunto que se deve destacar. Quem ou qual escola hoje ensina a ser cidadão? Parece que quanto mais se fala em cidadania, menos se ver na prática. Por outro lado, aumenta o número de violência, ausência de respeito etc. O último caso divulgado pela mídia foi o de três estudantes de medicina agredirem um negro. Esse episódio poderia ter sido também contra um mendigo, uma empregada doméstica, um índio ou até mesmo contra um professor. Esse é o retrato da educação hoje.Atenciosamente,Sandra Nunes

  3. Professor Ozaí:Achei de grande relevância o texto sobre o vestibular. O problema da educação é grave e, cada vez mais, ele aumenta apesar das discussões sobre o assunto. Concordo que o vestibular, maneira de selecionar pessoas para o ingresso à universidade, pricipalmente, a pública, pois, na maioria, a privada seleciona pela ficha socioeconômica, é um engodo. É um engodo pelos vários motivos citados pelo senhor, mas o atual contexto educacional me preocupa muito. Sou professora do ensino fundamental e médio e o que vivo é assustador. Em primeiro lugar, os alunos/as, na maioria, assimilaram a cultura, principalmente, televisiva que divulga direitos ou qualquer outro assunto sem contextualização ou sem nenhuma reflexão, como divulga também a possibilidade do "paraíso" sem nenhum esforço. Somando à cultura citada, existe a pedagogia do amor que só ajuda a mascarar os reais problemas sociais e culturais que impedem o amadurecimento educacional do educando. A pedagogia do amor é, a meu ver, um dos maiores engodos da educação atual. Ela trouxe para encontros pedagógicos os textos de auto-ajuda, as dinâmicas que nada acrescentam no processo educacional. O Pior: todos os problemas de desigualdade apresentam-se como naturais e, nesse contexto, o professor sai de cena e "entra" o assistente social, psicóligo, o pai, a mãe, o governo. Sabemos que é impossível alguém assumir todas essas funções como também não é função do professor assumir nenhuma dessas funções. A função do professor é, principalmente, formar o/a aluno/a um ser pensante e autônimo. Infelizmente, o que se ver, na maioria, é esse profissional procurando métodos que sirvam para controlar uma turma. A preocupação não é com uma metodologia de ensino que permita o educando a pensar sobre o assunto e o torne sujeito do processo. Nesses últimos dias, pensei: ninguém entra em um hospital gritando ou batendo etc.Por que na escola o educando entra gritando, batendo…? Por que não se respeita mais o ambiente escolar? Por que o educando da escola pública acredita que é direito da escola lhe dar o diploma, mesmo sem ele estudar? A meu ver, ele é uma vítima e, cada vez mais, aumenta o fosso entre dois pólos: os que chegam à universidade pública e os que não chegam. Outro assunto que se deve destacar. Quem ou qual escola hoje ensina a ser cidadão? Parece que quanto mais se fala em cidadania, menos se ver na prática. Por outro lado, aumenta o número de violência, ausência de respeito etc. O último caso divulgado pela mídia foi o de três estudantes de medicina agredirem um negro. Esse episódio poderia ter sido também contra um mendigo, uma empregada doméstica, um índio ou até mesmo contra um professor. Esse é o retrato da educação hoje.Atenciosamente,Sandra Nunes

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