Boris Casoy, os garis e o “politicamente correto”

O âncora do Jornal da Band ofendeu os garis, e extensivamente, aos profissionais que desempenham tarefas essenciais à sociedade, mas geralmente desvalorizados. No fundo, faz-se de conta que não existem, são trabalhadores “invisíveis”. Eles estão diante de nós, mas são desumanizados e reduzidos à função que praticam. Quando lembrados pela mídia sedenta de ibope, o ato revela-se pura demagogia. Cai a máscara!


Em seguida, o pedido de desculpas.


Palavras pronunciadas mecânica e jornalisticamente; uma face que se assemelha a um robô de um desse filmes trash – sem trocadilho – de ficção científica. Os lábios que se mexem, porém, são de carne e sangue; é uma boca humana. É possível acreditar na sinceridade de quem fala? A fala espontânea que humilha os garis, essa sim soa sincera. Ela expressa algo próprio do humano, dos que se consideram superiores. O discurso pelo perdão, também é humano, mas soa falso. São palavras literalmente lançadas ao ar. Hipocrisia!

Mas, por que desculpar-se?! Exigências patronais para manter a audiência? Obediência ao politicamente correto? O pedido de desculpas não muda absolutamente nada. Pelo contrário, revela-se mera formalidade diante da repercussão negativa.

Claro, a gafe deste senhor merece críticas. E muitas foram feitas! Não obstante, também cabe um agradecimento. Antes que me compreendam mal, que os “diretores da consciência”, também conhecidos modernamente como “patrulha ideológica”, me critiquem, devo esclarecer o sentido do meu “elogio”. É simples: ao manifestar seu pensamento e, por uma falha técnica suas palavras terem se tornado públicas, o renomado jornalista expôs cruamente o que muitos pensam neste país, mas não têm a coragem de assumir. Ele manifestou o pensamento elitista, conservador e socialmente preconceituoso: um preconceito de classe contra os pobres; contra os que moram em favelas; contra os que não tiveram a oportunidade de estudar em universidades; contra os profissionais socialmente não reconhecidos e desqualificados. É uma herança da nossa formação colonial escravagista que permeia boa parte dos grupos sociais esclarecidos, diplomados, titulados e economicamente favorecidos.

A sinceridade deste senhor contribui para romper o véu de hipocrisia presente nas relações sociais no cotidiano e em espaços considerados “nobres”. É ilusório acreditar que muitos não se sentiram representados em suas palavras – e, provavelmente, ele até os decepcionou ao pedir “desculpas”. Sua fala expressa o pensamento e sentimento de muitos que andam por aí encobertos pela máscara dos “civilizados”; dos que, em público, se pautam pelo “politicamente correto”. Boris Casoy nos prestou um serviço ao desvelar a realidade que os hipócritas não ousam reconhecer.

A onda do “politicamente correto” também oculta a realidade social em torno de um discurso que se revela falso à primeira prova prática. O discurso “politicamente correto” paga um tributo à tirania da opinião da maioria, estabelece falsas unanimidades, além de, em alguns casos, beirar o ridículo. Ora, a exigência social, ética e humanista de respeito às pessoas que cuidam do lixo que a sociedade produz – e quanto maior o poder econômico, mais lixo – , e às profissões como a dos lixeiros, não anula o preconceito social e de classe. O “politicamente correto”, muitas vezes, encobre práticas e comportamentos inaceitáveis. É precisamente por isto que é melhor que venham à tona, que se manifestem. Assim, passamos a saber quem é quem. O pacto dos hipócritas pode até estabelecer uma certa harmonia social, mas esta se revelará falsa. A gafe do senhor Boris Casoy comprova-o.

18 comentários sobre “Boris Casoy, os garis e o “politicamente correto”

  1. É por isso que estamos vivendo desata forma pois ainda há pessoas que por trás de sua aparente inteligência escondem o pior do ser Humano que é o pré-conceito o racismo e a indiferença contra o próprio ser humano Gari ou executivo faxineiro ou primeiro ministro todos somos seres humanos http://www.myspace.com/negozu

  2. O comentário do Sr. Borys Casoy não é infeliz nem foi dito em uma hora ERRADA, ELE EXPRESSOU EXATEMENTE O QUE AS ELITES pensan dos trabalhadores (de qualquer país).
    As elites (de qualquer país) encaram os trabalhadores apenas para os servirem e tem pelos trabalhadores o maior desprezo.
    Não adianta a gente exigir punição para tais apresentadores pois eles são os porta-vozes dessa elite, o que devemos lutar é que os meios de comunicação sejam democráticos e controlados pela sociedade organizada.
    Um abraço a todos

  3. Prof. Ozaí

    Perfeita reflexão. Esta situação demonstra que realmente nossa sociedade é dividida em niveis socias e quem tem mais, manda mais. Quando penso em como as pessoas são totalmente rebaixadas pelo alto escalão, considerados pensadores que podem delimitar e excluir a classe minoritária. Agora pergunto, existe humanização em nosso país?
    No papel até pode existir, porém no pensamento do ser humano ainda não.
    Um ano de 2010 abençoado a todos. Um abraço.
    Samuel Spiegelberg Zuge

  4. Ozaí, o que deixa-me imensamente triste é saber o quanto esta situação é antiga. Falam sobre o sistema de castas na Índia, mas o nosso ao meu ver é muito pior porque é camuflado. Você continua impecável em sua escrita e postura ética, seja sempre abençoado e nos abençoe. Parabéns pelo novo layout do blog, ficou lindo. Bjs, Aline Carla.

  5. Seria bom se a maioria do povo que adora acreditar nas informações passadas pela grande mídia se sensibilizasse com esse vídeo e pensasse duas vezes antes de acrediar fielmente na televisão.

  6. Prof. Ozaí quero parabeniza-lo por sua clarividente reflexão. Esse episodio nos lembra àquele em que um certo Ministro disse algumas confidencias ao reporter Carlos Monfort. O caso de Boris Casoy é a realidade do mais puro preconceito, ou seja, em sua vesga otica só os ricos, bem nascidos e bem nutridos, enfim, a elite conservadora e reacionárioa como ele podem desejar votos de Feliz Ano Novo! Eu acredito que alkguem só verbaliza algo que ja está gravado em seu sistema cognitivo. Assim sendo, o pedido de desculpas é dispensável porque aquele preconceito ou coisa parecida cotinua lá. Um abraço

  7. Concordo com tudo que foi dito professor, inclusive escrevi um texto parecido no meu blog, antes de ler o do senhor q obviamente está mais completo, abraços.

  8. Boa tarde!
    Concordo com seu texto. A hipocrisia fica escondida por trás do “políticamente correto” que como o próprio termo indica é “político”.
    Muitas vezes, me parece servir somente como uma cortina de fumaça para distrair a população e “enganar” consciências dos desatentos. Enquanto as pessaos ficam atrás do “politicamente correto”, políticos , empresários e outros poderosos mais fazem todo o “politicamente incorreto” sem a menor culpa e nenhuma vigilância. E nós brasileiros temos o mau hábito de seguir an direção que a mídia nos envia , sem parar para questionar , sem ter a mínima visão crítica das coisas. Somos ótimos marionetes e permanecemos felizes em nossa ignorância e contentes por seguirmos cordatos aquilo que nos dizem ser “politicamente correto” , ou o que mais estiver na moda-mídia. Talvez seja simplesmente mais fácil levar a vida fechando olhos e ouvidos às realidades e dizer, comprando a “paz” de nossas consciências embotadas , que somos pessoas que agem dentro do “politicamente correto”. Somos hipócritas.
    Eu só discordo que seja uma questão de pensamento da elite. Esse tipo de pensamento é mais geral e menos elitista do que parece. Ou antes: ela se reproduz classe a classe de cima para baixo. É uma característica do ser humano antes de ser a do ser social. É o ser hiumano que existe antes do ser social quem discrimina , despreza e precisa minimizar o outro para se “sentir” mais e melhor.

  9. Essa reportagem não me surpreendeu em nada, já esperava desse senhor possuir algo tão nocivo a sociedade, e o pior que não é um pensamento só dele, se abragem para essa elite golpista, que não sabe votar, que não se preocupa com o outro, que fazem doaçoês em final de ano procurando dedução de imposto de renda no ano seguinte. Tinha assistindo nesse mesmo programa jornalístico outra aberração igual a essa, onde o mesmo criticava as leis de cotas que visa inserir os negros e afrodecendentes, índios nas universidades publica, onde ele afirma com o seu jargão favorito e idiota,”isso é uma vergonha”,que as cotas só serviam para desqualificar o ensino superior, e tirava dos mais capazes o direito de estudar. Um comentário racista e sem precedentes, uma vez que já se comprovou que os alunos oriundos de escolas publicas uma vez nas universidadses se saem melhor o em igual situação dos alunos que sempre estudaram em escolas particulares. e as suas desculpas Boris Casoy nós cidadões brasileiros não aceitamos, por que elas não sãops verdadeiras.

  10. É desta mesma maneira hipócrita que o diretor de jornalismo da Rede Globo, Ali Kamel, afirma que não somos racistas.
    Creio que para além de uma questão de classe seja ainda uma questão de raça, haja vista que permanece a adscrição em relação aos negros que são justamente àqueles que realizam os trabalhos mal remunerados e desqualificados em termos de formação profissional.

  11. Oza, excelente post!

    Aliás, tbm gostei da mudança para o wordpress. Também acho ele excelente.

    Também digo mais, acho que este país ainda está impregnado da instituição da escravidão. Você conhece algum outro lugar do mundo que exista “quarto de empregada”????

    Nem na áfrica do sul vi uma segregação como essa.

    Percebo que praticamos coisas que são estamentais. Simplesmente servem para diferenciar e separar as pessoas cada vez mais.

    Outro dia um professor meu estava comentando sobre a causa de grandes cidades como SP, RJ, curitiba, BH, PA, recife.. enfim, as capitais estaduais, com seus defeitos e suas desigualdades, humilhações (me lembrei dos 30 dias de alagamentos+esgoto da zona leste de SP, tráfico no RJ…) elas não explodem?
    Pq as pessoas não fazem a queda da Bastilha por aqui?
    Simplesmente pq temos um “pacto social”. Pobre praticamente sabe que vai ser pobre, almeja melhorar mas não luta de uma maneira que haja revolução, o jeitinho brasileiro é melhor. Tentar o futebol, artes, tentar trabalhar duro de maneira a enfrentar trens lotados, ônibus quebrados, favelas, assaltos na volta de casa, se esconder no uso de drogas lícitas e ilícitas…

    Há de se ter revolução neste país, uma reforma só não basta!

    Grande abraço Oza!

  12. Bom dia, professor,
    Concordo com todos os que expressaram a opinião quanto ao caso do Boris Casoy. Só me vem a lembrança uma tese, feita na UnB, onde o doutorando passou alguns meses “disfarçado” de gari, trabalhando no Campus onde estudava. Nem colegas de pós, nem professores, nem outros funcionários o reconheciam (leia-se enxergavam). A minha pergunta é: Quantos de nós reconheceríamos o gari, se cruzassemos com ele fora do horário de expediente dele?
    Abraços
    Franco Dariz

  13. Foi realmente repulsivo ver esse senhor manifestar abertamente o que ele pensa… mas sim concordo com você Ozaí ! Assim, sem máscara é bem melhor… e podemos saber o que a maioria da elite pensa mas tem “vergonha” de dizê-lo !
    abraços
    Alcione Jurigan

  14. Professor Ozaí, parabéns pela reflexão em torno deste furo jornalístico. De fato, a hipocrisia foi atacada até mesmo por Jesus Cristo, homem responsável por uma imensidão de seguidores que, infelizmente, também, aprenderam rápido a fazer o que o mestre não queria. O que seria de nossa sociedade sem as máscaras, afinal de contas, de alguma maneira, todos nós representamos diariamente. Foi muito bom ver o Boris Casoy sem a máscara ao menos por alguns segundos. O homem da vergonha é na verdade um sem-vergonha, kkkk.
    Abraço,
    Jonas

  15. Caro Prof. Ozaí,

    Seu texto me faz refletir sobre o episódio e atentar para duas questões, a primeira é tão clara que até os defensores do tal jornalistazinho hão de concordar, eita pedido de desculpas sem arrependimento, que coisa mais falsa esse pedido de desculpas, acho que até as pessoas teriam mais respeito por ele se o mesmo se negasse a pedir desculpas, com certeza estaria sendo muito mais coerente, já a segunda são as manifestações de apoio aos garis – principalmente no youtube – cujas entrelinhas revelam um carater “piedoso” com os “pobres” e “coitados”, por óbvio que não coloco tanto a ofença quanto esse tipo de manifestação de apoio aos trabalhadores em pé de igualdade, pois a primeira revela um ódio inequívoco de classe, contudo acho que ambas revelam, a primeira explícita e a segunda velada, um grau de preconceito inadmissível.

    Sds.
    Nelson Breanza

  16. Quanto maior o poder econômico, mais lixo. Literalmente correto. O dialogo do Sr. Boris deixa claro o preconceito social e de classe que, velada ou explicitamente, é dirigido ao Presidente Lula.

  17. Estimado Antonio

    Bem estar e liberdade.

    Um profissional que executa trabalhos penosos, perigosos e insalubres, tipo coletores de lixo na Alemanha e trabalhadores do asfalto, nos USA, percebem valores que multiplicam em algumas vezes, nosso miserável salário minímo.
    Reside pois na desvalorização profissional o verdadeiro preconceito. Não raro, mesmo quem trilha os bancos escolares superiores, tem que se sujeitar a hipocrisia do minimo salário, do seguro desemprego e do trabalho precário.
    Persiste pois, no “políticamente correto” a clausura colonial, reacionária, escravocrata e modernamente nazi-fascista da concentração de renda em nosso país e em todos os países dependentes. O problema não é o que eu faço, mas o quanto ganho.

    Cordialmente

    Pedro

  18. Ozaí,

    Muito lúcida sua análise.

    O retrato da desigualdade no Brasil é mesmo esse: os pobres são vítimas de comentários deste nível de baixeza – quase sempre um coquetel de preconceitos de classe, de cor, de gênero e outros tantos, que se misturam.

    Em algumas regiões deste país isso se manifesta de modo virulento, como certa feita pude presenciar, ao vivo, no norte do Mato Grosso, na fala de um sulista que alcançou certo poder econômico e que declaradamente tinha/tem restrições (ou nojo, asco) aos “maranhenses” (os trabalhadores avulsos, os bóias-fria do soja) e de quebra aos “cuiabanos” (todos os nativos matogrossenses, os locais), visto como preguiçosos, sujos, desqualificados. O acinte por lá praticado às claras!

    Aí pelo sul ainda se mascara um pouco o desrespeito aos pobres, em nome da “civilidade” e do “politicamente correto”.

    Que o seu e outros protestos se façam ouvir por todo país, como alerta, um alerta necessário, mas que nos constrange e entristece.

    Abraços e um 2010 mais humano e solidário para todos nós

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