A experiência da dor

Segunda-feira. Deveria ser mais um dia como outro qualquer, mas uma dor aguda, quase imperceptível, indicava que algo não estava bem. Mesmo assim, saí e fui fazer coisas que não gosto, mas que a rotina obriga, como ir ao banco. O corpo não me enganara, os pressentimentos revelaram-se reais. A dor, insidiosamente, aumentava de intensidade até tornar-se insuportável. Precisei antecipar o retorno. Depois, o médico diagnosticaria o que parecia o óbvio: mais uma crise da coluna, ou, como digo em tom de brincadeira, era o “nervo asiático”. Injeções, comprimidos de vários tipos e repouso – eufemismo que indica a condição em que nos vemos forçados a permanecer deitados a maior parte do tempo, dormindo sob o efeito dos medicamentos ou em estado de sonolência. E assim passaram-se os dias da semana…

O que fazer quando não é possível permanecer em pé ou mesmo sentado? O que fazer quando a vida limita-se ao espaço de alguns metros quadrados, do tamanho da cama, e a dor torna-se a companheira indesejável, porém inseparável? Só resta dormir, tomar remédios, dormir novamente e torcer para que a química comece a surtir os efeitos desejados e apazigúe a dor que teima em permanecer. Até que, finalmente, ela cede, diminui de intensidade e já é possível se movimentar um pouco, fazer as refeições à mesa e, até mesmo, escrever um texto – embora sentado na cama e com precauções, pois ela, a dor, ainda está perto e o corpo denuncia a sua presença.

A imobilidade forçada é angustiante. A dor não altera a consciência do que é preciso ser realizado, das tarefas pendentes que são adiadas. Fossem outros tempos, sem computadores e, portanto, sem emails a responder, revistas eletrônicas a encaminhar, Orkut e redes de relações sociais a manter, atividades acadêmicas virtuais a fazer, etc., a angústia seria atenuada. Nos novos tempos, porém, a tecnologia torna-se extensão do corpo e até mesmo as relações sociais passam a ser influenciadas e determinadas pela capacidade de permanecer conectado. O enfermo em sua cama sente-se impotente por não conseguir dar conta das tarefas já incorporadas ao cotidiano virtual e solitário em sua dor.

Há, porém, aspectos compensadores. Inativo, forçado a permanecer deitado, ele tem tempo mais do que suficiente para pensar. Mesmo na sonolência, a mente se torna um turbilhão de idéias, reflexões e lembranças. E, inevitavelmente, passa a refletir sobre a própria dor. Ele recorda do período em que leu a obra de Milan Kundera e da brincadeira que ele faz em um dos seus livros com o dito cartesiano “Penso, logo existo”. A medida da existência, na verdade, é dada pela dor. Portanto, talvez seja mais correto afirmar: “Sinto, logo existo”. A dor parece resumir tudo, torna-se a síntese do viver.

Mas o que é a minha dor diante do sofrimento do torturado? E como explicar o absurdo de um ser humano infligir dor a outro e, ainda mais, sentir prazer? O que significa diante do que sente alguém com o corpo perfurado por uma bala ou sofreu um acidente e está entre a vida e a morte na UTI? O que é a minha dor diante da tragédia que vitima milhares de seres humanos no Haiti? Como somos egoístas diante da dor!

“A verdade da dor reside naquele que a sofre”, leio em História do Corpo.* Aliás, uma leitura que vem a calhar, mas que, ironicamente, não foi planejada para este momento. Enquanto a dor cede e permite concentrar-se, o tempo do ócio, ainda que em condições não muito propícias, pode ser dedicado ao aprendizado e reflexão sobre o corpo, um corpo histórico mas tão real e humano quanto o meu. A leitura me faz compreender melhor o corpo, a dor e o sofrimento humano, mas não cessa a dor que sinto. Conheço-me um pouco mais, mas preferia não passar por esta experiência.


* CORBIN, Alain. Dores, sofrimentos e misérias do corpo. In: História do corpo: da Revolução à Grande Guerra, sob a direção de Alain Corbin, Jean-Jacques Courtine e Georges Vigarello, Petrópolis,RJ: Vozes, 2009, p.330.

39 comentários sobre “A experiência da dor

  1. Caro Ozaí,
    estimo suas melhores e fica um conselho de quem tem que conviver com hérnia de disco e artrose. Não fique somente com o tratamento de um médico. Consulte vários e não se limite a medicina tradicional. Com os resultados na vida prática, opte pelo que melhor entendeu sua mente e seu corpo.
    Grande Abraço,
    Rosivaldo.

  2. Caro professor Antonio Ozaí, a vida é mesmo muito engraçada. Não o conhecendo mais de perto, imaginava-o assim um tipo de homem no qual a dor ciática não atacaria nem
    de longe, pois o vejo mais pela suas letras fortes e vigorosas. no entanto o vejo
    extremamente sensível e muito mais humano do que imaginara. Você descreveu a sua dor
    de forma tal que cheguei a esquecer por um momento que a tal me visita constantemente. De certa forma volto a lembrar sua mensagem de final de ano: Feliz
    Ano Velho…Novo,porque continua a roda viva continua. Melhoras e um grande abraço.
    Andrade.

    • Andrade,

      muito obrigado.
      Seu comentário é interessante e importante: não sabemos a imagem que as pessoas constroem a nosso respeito, a não ser que elas se manifestem. Pois é, sou de carne e osso, tão humano quanto qualquer um, com defeitos e qualidades como todos temos. E como humano, não estou livre da dor…

      Abraços e tudo de bom,

  3. Caro Ozai, a sua reflexão perante a dor do corpo, a imobilidade
    os coqteis de rémedio me fez lembrar do companheiro marcelo yuka.

    Lembro há um ano atrás quando vi o yuka no circo voador no rj, num debate
    sobre a legalização das drogas aonde ele de forma fria disse “eu sou o mais viciado daqui” sobre o olhar de espanto do público. ele continuou “tomou 18 comprimidos por dia sendo 8 deles tarja preta”.acordo com dor e durmo com dor.

    Isso só nos faz perceber enquanto somos frageis e lembrar que somos meros mortais.

    paz!!

  4. Parabéns, Antonio, o blog está muito bom. E lhe desejo cura plena da dor física, já a dor solidária é permanente naquele que sabe que somos os outros. Um abração.

  5. O que fazer? Conecte sua cabeça ao seu corpo amputado. Uma sugestão que me curou, yoga – (do sânscrito: união!)
    Já viu o sol hoje? A lua ou as estrelas? As flores nos jardins? Brincou com as crianças? Rolou na grama? Sorriu? Cantou? Ouviu os pássaros? Tomou água? Comeu alimentos frescos e crus? Acariciou-se? – Veja a luz, sinta a pulsação, ouça o rio da vida correndo nas suas veias, esvazie sua mente; e VIVA intensamente a cada respiração pulsando no universo do qual voce faz parte.
    A saúde é um estado natural quando estamos no fluxo da vida integral. Mas parece que nos esquecêssemos quem somos, terra, água, fogo, ar. – Corpos físico, emocional, divino, e também cognitivo; logo existimos.
    Grande abreijo no coração. Saúde no corpo, paz no espírito e amor no coração, o resto voce já tem de sobra.

  6. CARO OZAÍ:
    SAÚDE E FORÇA
    NUNCA, EM MESMO FRENTE AQUELA DORZINHA DE CABEÇA, CONSEQUENCIA DO DIA A DIA, CONSEGUI ALCANÇAR TAL ESTÁGIO: UM MOMENTO TÃO POSITIVO QUE RESULTASSE NUM TEXTO COMO O SEU, QUE NOS OFERECESSE REFLEXÃO.
    COM DOR EU NÃO SOU NINGUEM. A PRIMEIRA COISA QUE PERCO É A EDUCAÇÃO(TÃO BEM DADA POR MAMÃE), QUANTO MAIS RACIOCINAR DE MANEIRA LÓGICA E LÚCIDA…
    QUEM SABE DA PRÓXIMA EU CONSIGA BEM DIZER À DOR?
    UM ABRAÇO!

  7. Oi Ozai!
    Primeiramente quero parabenizá-lo pelo blog, vc contribui (com leituras) para que as pessoas conquistem (pelo menos) sua condição de cidadania. Leio quase todos os textos sugeridos e escritos no blog, tem me ajudado bastante.
    E parabéns mais uma vez, pela bela refexão estimulada pela dor…sinto o que passou, fiz uma cirúrgia e fiquei 45 dias deitada e mais 30 dias usando muletas, hoje está fazendo 3 mêses, li muito, ouvi músicas, assiste filmes e documentários, enfim, coloquei as tarefas tecnológicas em dia…mais vc está correto, a imobilidade forçada é angustiante…por outro lado contribui para que possamos nos conhecer um pouco mais e melhor. Voltei a trabalhar, mais ainda faço terapia e muito repouso, afinal, com osso não se brinca…espero que esteja bem agora! Muita saúde e paz! Abraços.

    • Aurea,

      muito obrigado.
      O que passei perto da sua experiência é, como dizem, “fichinha”.
      Mas pelo jeito vc também soube aproveitar bem as circunstâncias… O mais importante é que vc superou o mais difícil… Cuide-se.

      abraços e tudo de bom,

  8. Caro Ozaí:

    obrigada pela força em transformar a sua dor física em mais uma página para nossa reflexão. Da interioridade desta “insustentável leveza” quero lhe contar que, por muitos dos motivos já narrados no seu texto e nas mensagens anteriores, sou uma pessoa que hoje tem uma delicadíssima coluna vertebral. E há um ano me foi recomendada a acupuntura e ginástica holística. Aliada a outros cuidados de postura, tem sido de muita ajuda. Bem, fica uma sugestão na certeza de que você sabe o que lhe é mais conveniente. Um abraço forte o suficiente para lhe passar este desejo de saúde sem lhe “machucar as costas” , como falamos na cidade do interior onde nasci. Lucia

  9. O filme A insustentavel Leveza do Ser foi tambem de anos atras como a composicao de Taiguara no CD Teu Sonho nao acabou em que na mesma musica ele expressa a sua sensibilidade estetica e artistica. Nessa obra Taiguara tambem fala do sofrimento humano de forma poetica, abracos, Jaci.

  10. Melhoras aí, meu caro.

    Se me fosse possível aviar receita literária eu diria que você precisa ler umas dois ou três crônicas do Otto Lara Resende, em Bom Dia para Nascer… Não sei qual seria o efeito, mas faz um bem danado!

    Nessas horas, como a sua, eu só me lembra da minha esposa e outras lúpicas, bravas guerreiras que tão bem aprendem a resistir a dores inomináveis. Precisamos aprender com elas a melhor suportá-las!

    Abraços e forças quintuplicadas aí na resistência e na serenidade possível
    Abel Sidney

    • Caro Abel,

      meu sincero muito obrigado por sua amizade.
      Obrigado, especialmente, por ter ligado… foi muito importante… Estou melhor, embora durma mais do que o necessário diante dos efeitos dos remédios… Nesta semana, iniciarei a fisioterapia… penso que o pior já passou (pelo menos desta vez).
      Como vc escreve, a cada vez aprendemos melhor a suportar.

      Valeu! Grande abraço e lembranças à sua esposa… Paz e saúde para vcs…

  11. Estimado Amigo
    Saude
    Estimo melhoras. Sugiro, respeitosamente, que consideres a possibilidade de tratamentos alternativos. A homeopatia é um deles, mas pode, que haja outros.Tenho particular resistência a Alopatia, embora, reconheça que trouxe enormes avanços para a medicina e para a saúde dos seres vivos. De fato o trabalho com as novas tecnologias, continua a exigir das pessoas esforços que estão acima de suas capacidades. Talvez seja o momento de repensar se é isso que queremos e se não estamos nos deixando envolver mais do que estamos sendo envolvidos.
    Dificil de entender os fatos que levam os seres humanos a se destruirem. Mais grave ainda o de sentir prazer em propiciar sofrimento aos outros. Infelizmente tem sido a regra na jornada da humanidade. A prosseguir nessa senda mais um pouco e acabamos com o planeta.
    Um abraço
    Pedro

    • Pedro,

      muito obrigado.
      Ontem mesmo alguns colegas me davam sugestões sobre tratamentos alternativos. Há opções por aqui, o problema é o custo.
      É, é difícil entender o ser humano em sua jornada. Quantos absurdos!!!

      Abraços e tudo de bom,

    • Nere,

      obrigado.
      Bem que imagem poderia ser da minha coluna… a última vez que fiz raio x estava deste jeito. Mas não é, foi apenas para ilustrar o texto.
      Lembranças ao Markus… e ao Ariel.
      Beijos… e também à Camila…

  12. Por mais estranho que pareça, percebo que “Longe é um lugar que não existe” e ao ler o seu relato também sinto sua “dor”;com certeza também sua força que ultrapassa os limites corporais. E reflito em Romanos 8:28; o que é o corpo sem o Espírito de Deus?
    Melhoras e muita PAZ que excede todo entendimento.
    Abraços.

  13. Saudaçoes, Ozai, e parabéns pela reflexao tao bem ritmada pela dor. parece que o sofrimento em geral tem sido causa eficiente de belos textos, embora alguns demorem mais a brotar. ontem mesmo ouvi um critico literario comentar que os franceses demoraram todo este tempo para conseguir falar da guerra da Argélia, mas que agora desandaram a produzir textos em que o sentimento dominante parece ser a culpa. dizia ele também, falando desta vez sobre o sofrimento como motor de expressao escrita, como sao extraordinarios os livros e filmes produzidos por judeus e palestinos nestes ultimos tempos.
    enfim, professor, lembrando as citaçoes de Walter Praxedes na REA, acho realmente que toda palavra, talvez sobretudo escrita, exige treino e gosto para ser entendida, mas quem a escreve certamente se desenvolve e se conhece melhor ao construi-la.
    boa semana,
    Regina

    • Regina,

      muito obrigado.
      É, parece que o sofrimento é criativo… mas em determinadas circunstâncias, no mais é apenas sofrimento.
      Gostei da referência às palavras… de certa forma, amo as palavras e sempre procuro tratá-las bem. Nem sempre consigo, é verdade; mas aprendo.

      abraços e tudo de bom,

  14. Ozaí, tenho osteogenesis imperfecta (ossos de cristal), sou médica. Digo para mim, que quando o Universo quer que eu pare para refletir sobre algo, que não estou lidando bem, fraturo um femur e passo meses em uma cama, fazendo fisoterapia, recuperando, enquanto a fratura consolida.
    Nesses meses, a música é minha melhor companhia, viajo com ela, meus pensamentos viajam….quase não converso, quero estar tranquila comigo, preciso dessa tranquilidade para viver com e apesar de mais uma fratura e ainda ganhar com esse tempo que de parado não é…..eu passo a me conhecer um pouco mais.
    Dores necessárias….
    Beijoca,
    Lina

    • Lina,

      meu sincero muito obrigado.
      Tens razão: a música é excelente companheira… E estes momentos nos tornam mais humanos, nos conhecemos melhor e aprendemos a controlar a dor e a angústia.

      Cuide-se!
      Abraços e tudo de bom,

  15. Ozai: vamos ver se desta vez consigo responder por aqui. Vai ser a primeira.
    Entao, mais uma coisa que temos em comum: este infeliz “nervo ciatico.” Deveriamos ter uma associacao de ajuda mutua. Os computadores, os sofas macios, as cadeiras erradas, sao os culpados do aumento de pessoas com este tipo de padecimento. A tal dor ciatica e’ o nosso corpo mais primitivo que nossa situacao social/intelectual/profissional, reclamando dos maus tratos.
    Que vamos fazer? Estamos colados a este computador, e nossas casas cheias destes moveis que nao sao apropriados, mas estao na moda. Deveriamos voltar ao tempo em que nos agachavamos e nao nos sentavamos? So’ de fazer um visual de uma reuniao de professores de departamento, todos agachados, ja’ me faz rir e ate’ diminui a dor.
    Espero que voce se recupere logo, e eu daqui de longe continuo tambem com os comprimidos, tentando tambem me recuperar. E vamos adiante, sempre.

  16. Este tipo de dor tenho bastante conhecimento, convivo com este problema faz tempo, sei o que passou pode ter certeza, cuide-se hem?

  17. caro Ozaí
    É verdade que a dor é humana, ou melhor, a consciência da dor, mas também é verdade que muitas vezes a nossa dor fica tão pequena diante das dores profundas que deixam para sempre tristes lembranças em nossos irmãos que precisamos nos resignar abraços beatriz

  18. É isso aí, professor. Se as vezes que meu ciático incomodasse, eu conseguisse lembrar até no Alain Corbin, acho que as coisas seriam diferentes… parabéns assim mesmo, e haja antiinflamatório!!

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